Informação para vencer o medo
O
jornalista gaúcho Caco Barcelos, concedeu entrevista ao Extra
Classe por telefone, de Londres. Ele está lançando
o seu terceiro livro, Abusado (Editora Record, 564 páginas),
e aproveitou para expor sua visão sobre a cobertura jornalística
brasileira, tema diretamente ligado ao seu livro. Abusado é
uma reportagem investigativa que utiliza a forma de romance e narra
a entrada do Comando Vermelho na favela Santa Marta, no Rio de Janeiro,
e a formação de uma geração de traficantes.
O livro reconstrói as histórias do morro e a escalada
da criminalidade no Estado concentrado-se na trajetória de
Juliano VP, que ficou conhecido pelos noticiários como Marcinho
VP, na vida real. Caco nasceu em Porto Alegre, onde iniciou sua
carreira de repórter no extinto jornal Folha da Manhã,
da Caldas Júnior. Durante a ditadura militar, atuou em veículos
de imprensa alternativa. A partir de uma reportagem para a revista
Versus, o autor escreveu seu primeiro livro, A revolução
das crianças, sobre a Revolução Sandinista.
Atualmente é correspondente da Rede Globo na Inglaterra.
César Fraga
Extra Classe Que eventos ou circunstâncias o levam
a fazer o jornalismo que você faz?
Caco Barcelos Acho que o que me motiva é sempre
tentar, através da minha reportagem, retratar uma história
que está fazendo parte da vida das pessoas, de maneira muito
intensa, porém com o objetivo de explicar melhor o que está
diante dos olhos, mas não se vê com muita clareza.
Foi assim com o Rota 66, que também era um tema que estava
muito próximo das pessoas. Todos os dias se matavam quatro
ou cinco jovens da periferia e isso nem era mais notícia
para as redações. Se matavam dez não era notícia.
Só foi notícia quando mataram 111 em um só
dia, no Carandiru. Aí, virou manchete. Mesmo assim só
foi dada importância porque o mundo ficou escandalizado.
EC E o fato de o cotidiano das pessoas não ser
de interesse jornalístico, funciona como uma venda nos olhos
da imprensa, privilegiando alguns temas em detrimento de outros,
bem mais próximos da realidade da população?
Caco Há uma deformação, de fato,
na imprensa em querer sempre buscar o inusitado.
EC O bizarro?
Caco Sim, o bizarro. De achar que só aquilo que
surpreende as pessoas é que é notícia.
EC É o mesmo que dizer que a violência e
a miséria se banalizaram de tal forma no Brasil, que as coberturas
não são fiéis à realidade?
Caco É exatamente isso. Pelo menos, esses temas,
quando entram no noticiário, não têm o tratamento
que eu penso que deveriam ter.
EC Este artificialismo das informações veiculadas
de forma fragmentada beiram muitas vezes a ficção
se comparado com a realidade vista e vivida por boa parte dos cidadãos
comuns?
Caco Eu acho que, se a gente não contextualizar
esses pequenos fragmentos de notícia, fica uma coisa que
parece realmente de outro mundo no que diz respeito à realidade
do país. É muito fácil, quando há desonestidade
na profissão, enganar as pessoas, sobretudo no que diz respeito
a essas questões ligadas à violência. Só
para dar um exemplo, pouca gente sabe que os assaltantes são
entre os criminosos, responsáveis por apenas quatro por cento
dos crimes de morte no Brasil. E em geral as pessoas pensam que
eles é que são os mais violentos. Os jovens da periferia
do Rio e de São Paulo são os que correm maior risco
de vida em todo o mundo.
EC Tanto em Rota 66 como em Abusado você traz à
luz os bastidores de universos muito comentados pelas pessoas, em
geral, mas pouco vistos na mídia na forma de cobertura jornalística.
Isso dá a impressão de que a imprensa não tem
condições e/ou não consegue dar conta da realidade
tal como ela se apresenta. Qual a receita?
Caco Um a coisa que eu observo é que a imprensa
brasileira consegue ser muito eficiente onde ela atua. O problema
não é na atuação, é onde a imprensa
não atua. O que ela deixa de fazer. Se a imprensa se comportasse,
por exemplo, nas áreas onde está concentrada a maioria
da população pobre do país, da mesma forma
como se comporta na cobertura nas questões que dizem respeito
às parcelas mais privilegiadas da população.
Se dá muito espaço para os temas da classe média
como se ela fosse majoritária no país. Então
é uma questão bem objetiva, não estamos cumprindo
nosso dever (em tom de irritação).
EC Com isso os jornalistas não acabariam reproduzindo
os mitos e preconceitos da classe média?
Caco Eu acho que sim. Porque o foco da notícia
está centrado nisso. Talvez isso se deva ao fato de a maioria
dos jornalistas serem provenientes de classe média e aí
os dramas que estão distantes das suas realidades são
malcompreendidos e conseqüentemente malreportados. Os fatos
que envolvem as parcelas menos favorecidas são vistos sempre
a distância. Um exemplo, quando são retratados assuntos
de interesse da classe média, tanto os jornais como as revistas
fazem um trabalho de alta qualidade. Não tenho críticas
a fazer aos textos da Veja ou da Folha de São Paulo se comparados
com a imprensa européia. Mas o problema é que essa
mesma eficiência não se transfere para os temas que
afligem as pessoas sem poder nenhum.
EC É como se não adiantasse ter uma imprensa
de Primeiro Mundo quando a realidade não é de Primeiro
Mundo? Você acha que a imprensa brasileira deveria repensar
seu papel?
Caco A imprensa não pode virar as costas para
uma parte da população. Pode até parecer demagógico.
Para mim, se estivéssemos morando na Suíça
ou na Noruega, teríamos um jornalismo fantástico,
mas o país é outro. A realidade social é outra
e a cobertura jornalística deveria ser repensada sim, de
acordo com essa realidade.
EC Você teve muitos conflitos éticos durante
a feitura de Abusado? Quais?
Caco Tem uma coisa curiosa que eles não entenderam
no começo. Mas o fato de eu já ter uma certa estrada
de morro. Apresentei um programa de seis meses na TV a cabo que
era produzido 100% nas periferias e nos morros. Então, quando
alguma coisa era negativa, eu chegava e dizia na lata:
Olha a coisa tá pesada para vocês, mas eu tô
aqui para ouvir o lado de vocês. Se vocês me provarem
que é mentira, eu rasgo minha matéria e ponho no lixo.
Se provarem que só uma parte é mentira, eu publico
os dois lados. E depois eles viam a edição na
TV e percebiam que era aquilo mesmo. Mas com o livro não
tinha maneira de ter um resultado logo; no início foi complicado,
pois eu dizia: Eu não posso acompanhar as histórias
de vocês no presente. Eu não quero saber de nada que
esteja ocorrendo agora. Se isso ocorrer, eu terei, por obrigação
profissional, de interferir e denunciar e eu vou ter de abandonar
o livro. E eles me diziam que o passado deles era uma merrrda
(imitando o sotaque carioca do morro) e que preferiam falar do presente,
do que estavam vivendo. Aí eu fui muito chato e persistente
em não querer saber de amanhã ou hoje ... somente
de ontem. Com o tempo eles foram entendendo, embora alguns tenham
se afastado. No fim deu tudo certo. Até porque muitos sabiam
que eu havia ouvido bastante os chefes e isso estava a meu favor.
EC
Além ser uma grande história, qual o teu objetivo
principal com esse livro?
Caco Eu acho que o principal foi acreditar que as pessoas
têm um medo exagerado do tráfico. É evidente
que eles (os traficantes) cometem crimes brutais. E é claro
que isso mete medo. Mas é esse medo que explica muito da
força deles. Mas em geral as pessoas conhecem pouco esse
mundo. Há, sem sombra de dúvida, muita mistificação
a respeito, até porque a imprensa freqüenta pouco este
ambiente e conhece pouco as histórias. Quando isso acontece,
a tendência é do exagero e até de criar fantasias.
Eu acredito na força da informação para vencer
o medo. Isso também vale para a minha vida pessoal. Eu acho
que, por dever de ofício, o repórter deve contar essas
histórias.
EC Que limitações você encontrou na
cobertura dos recentes conflitos no Oriente Médio? Alguma
vez se sentiu limitado pelas condições apresentadas
em mostrar a realidade que presenciou?
Caco De modo geral houve uma cobertura com peso desigual
a favor dos americanos e britânicos. Até mesmo na quantidade
de jornalistas provenientes desses países, acredito que uns
1.600. Isso é um dado que fala por si. Mas uma coisa muito
interessante foi a imprensa ter acompanhado de perto o lado dos
soldados.
EC Mas você crê que o fato de os repórteres,
por estarem lado a lado com os soldados, pode induzir ao comprometimento
da qualidade da informação?
Caco Sim, mas as imagens são tão fortes
que acabam se impondo a essas distorções. Mas é
óbvio que, se você está ali lado a lado com
soldados, você acaba torcendo por eles até para não
morrer e isso pode gerar deformação. Mas a contrapartida
disso é a imagem que fala sozinha. Eu nunca tinha visto algo
assim. Na guerra anterior do Golfo, por exemplo, só tinha
um veículo cobrindo, a CNN, com aquela câmera aberta
registrando os bombardeios luminosos, de longe. Algumas matérias
a que assisti aqui na TV européia eram praticamente apenas
a câmera ligada registrando tudo, a matança de civis,
a ocupação de Bagdá em detalhes. Isso tem uma
força que ainda precisa ser melhor analisada.
EC É verdade que vida de traficante é muito
chata e tediosa?
Caco É um tédio (risos). Acho que só
se compara a de um dono de botequim, só que mais complexo.
Fica ali cuidando da firma (a boca), contratando gente, demitindo,
negociando com a polícia, quando encontra um policial desonesto.
Além disso tem de ser uma espécie de consultor sentimental
das famílias do morro. Afinal, não existe nenhuma
instituição do Estado levando qualquer tipo de apoio
para aquela gente. Não tem correio, não tem hospital,
biblioteca, creche pública, não tem nada. A cidadania
não chega lá. E o tráfico, mal ou bem, dependendo
do traficante, faz esse papel. Os assaltantes, por exemplo, detestam
essa função. Tem de ter esconderijo para guardar o
pó. Tem de cuidar da embalagem. E o assaltante não.
Ele contrata uma quadrilha free-lancer, faz o assalto e acabou.
Cada um para o seu lado. O traficante precisa de uma quadrilha fixa.
De homens de confiança. Já o assaltante, se tem uma
informação de qualidade, organiza a quadrilha, executa
o trabalho, pega a grana e vai gastar com mulheres e desfaz a quadrilha
na mesma hora. Não precisa ter esconderijo fixo e corre menos
riscos.
EC Como se dá o poder paralelo no morro, ocorre
assim como nos presídios?
Caco No morro não é uma coisa consciente.
Já nos presídios é. Até porque alguns
detentos acabam sendo intelectuais. Com 20 anos para cumprir, acabam
lendo muito. No morro o que impressiona é a barbárie.
Isso é o que mais explica a força deles. Nessa luta
as pessoas acabam respeitando as regras até pela proximidade
de convivência com as quadrilhas.
EC A sofisticação atribuída aos criminosos
é mitológica?
Caco Eu nunca acreditei nessa sofisticação.
Qual a organização formal? Nenhuma. Mas eles precisam
cumprir as regras e fazer cumprir para o negócio continuar.
E o componente cadeia é muito significativo, principalmente
se uma ordem vinda do morro não for cumprida. O dia em que
aquele que não seguiu a orientação for preso
o bicho vai pegar. Então é isso. Todo traficante que
está no morro sabe que o dia dele de cadeia vai chegar. Então
esse respeito pela força não traz nenhuma sofisticação
em si. Não é mais complexo que uma facção
de torcidas organizadas de futebol.
EC Depois de tudo que você viu, ouviu e relatou,
o que muda na sua visão com relação a essas
comunidades carentes que possuem ligação com o tráfico
ou vivem em torno deste?
Caco A comunidade ajuda a explicar a força deles,
os traficantes. Um outro mito que foi destruído pela minha
experiência particular. Falo por mim, pelos meus mitos. Eu
costumava acreditar que as quadrilhas impusessem regras que deveriam
ser seguidas pela comunidade rigorosamente. Eu vi justamente o contrário
disso. Presenciei muito mais gente seduzindo o tráfico do
que o tráfico seduzindo as pessoas. Muita mãe batendo
na boca querendo uma vaga para o filho. Menina querendo namorar
com traficante. Se vê muita gente que se considera honesta
e trabalhadora tendo envolvimento parcial, sem achar que está
fazendo algo ilegal. Isso me impressionou muito.
EC Isso acaba criando uma subcultura?
Caco Exatamente. Quer ver um exemplo. Membros da comunidade,
até mesmo senhoras insuspeitas, podem participar de uma operação,
mediante remuneração, pois quem desconfiaria, por
exemplo, de uma vendedora de cachorro-quente. Coisas assim.
EC Cumplicidade?
Caco Cumplicidade remunerada, né? É que
na hora de falar de tráfico ninguém se considera traficante.
Mas, se você vai ver direitinho, lá nos bastidores,
muitos estão envolvidos, pelo menos, indiretamente.
EC Tal situação não se deve ao fato
de para eles isso já ser culturalmente aceito devido à
proximidade com os que convivem com o tráfico?
Caco Claro. Como eles também têm um passado
de ilegalidade. Não de criminalidade. A maioria não
tem título patrimonial dos barracos. Desde a ocupação
dos morros e as derrubadas de árvores protegidas pelo Ibama
e a perseguição da guarda-florestal, essas pessoas
vivem em situação clandestina, à margem. Então
a ilegalidade é uma coisa muito presente e até banal.
EC Isso reforça a tese de que, onde o Estado não
está presente se cria a condição ideal para
a instalação do poder baseado na ilegalidade?
Caco Mas sem dúvida. Esta é uma visão
clássica e perfeitamente aplicada a essa situação
de que falamos.