Com o aumento do desemprego e a recessão, cresce também
a informalidade. A face mais visível deste fenômeno
pode ser vista nos centros das grandes cidades brasileiras pelo
número de camelôs. Muitos deles são ex-metalúrgicos,
motoristas, professoras, desempregados e jovens que nunca conseguiram
acesso ao seu primeiro emprego. Em Porto Alegre, por exemplo, o
número de camelôs é de mais de sete mil. Desses,
apenas 490 estão regularizados e mais de 1.800 atuam irregularmente
na região central da cidade. Eles estão inseridos
em uma estatística cruel que não justifica, mas explica
o crescimento de uma atividade que muitas vezes incide na ilegalidade
devido ao comércio de contrabando, pirataria e produtos não
permitidos pela Legislação Brasileira.
Márcia Camarano e César Fraga
Quadrilhas usam camelôs como fachada
ados
da OIT para a América Latina mostram que, entre 1990 e 2001,
de cada 100 novos postos de trabalho, 69 são informais. O
Ministério do Trabalho estima que cerca de 40 milhões
de brasileiros atuem no setor informal. Entre 1930 e 1970, o trabalho
informal representava 20% da População Economicamente
Ativa (PEA) e havia uma expansão da condição
de trabalhador assalariado com carteira assinada. Hoje a situação
é inversa. Conforme o gerente de Pesquisa do IBGE, Cimar
Azeredo, com base na análise do emprego informal em seis
regiões metropolitanas Recife, Salvador, Belo Horizonte,
Rio de Janeiro, São Paulo e Porto Alegre apontam que, a cada
100 trabalhadores ocupados, 42 são informais, podendo chegar
a 45 em algumas capitais, como é o caso do Rio de Janeiro.
Não por coincidência, no meio desse bolo estão
os camelôs. Neste caso específico também é
preciso somar a esse cenário a omissão da institucionalidade
(Estado e Município) na gênese histórica de
fenômeno que vem crescendo nas últimas décadas
e que tem gerado tensionamentos e até mesmo confrontos violentos
entre os vendedores e fiscais, inclusive, com a própria polícia.
A necessidade de trabalho dessas pessoas os torna presas fáceis
para o aliciamento à contravenção. É
o caso de Jilmar, 25, que admite ter consciência de que os
produtos que comercializa na Praça XV são ilegais
e que está cometendo um crime, podendo até ser preso.
Mas o que vou fazer? Estou aqui desde os treze anos, já
tive outros empregos com carteira assinada e tudo, mas nenhum cobriu
o que ganho aqui. Tenho mulher e dois filhos para criar. Sou funcionário
do ponto, que nem é meu. Não tenho estudo. Sair daqui
só se for para assaltar. Isso eu não vou, justifica-se.
Desde o ano passado, a Polícia Federal está investigando
a rede de ilegalidade que envolve os camelôs no Centro da
cidade. Conforme o chefe da Delegacia de Prevenção
e Repressão aos Crimes Fazendários, Sérgio
Felipe Day Barreto, há fortes indícios de que, pelo
menos três artigos do Código Penal, podem estar sendo
infringidos: o art. 288 (formação de quadrilha) que
pode dar pena de um a três anos; art. 334 (contrabando) com
pena de um a quatro anos; art. 184 (violação de direito
autoral) com pena de três meses a um ano. De acordo com o
delegado, os camelôs são a ponta do iceberg;
por trás deles existiriam verdadeiras quadrilhas montadas
por empresários informais, cujo poder financeiro
advém de práticas ilícitas, que utilizam o
esquema para colocar produtos de origem duvidosa no mercado com
baixo custo e garantia de lucro sem pagar impostos. Poucas
pessoas dominam uma grande quantidade de bancas. Os camelôs,
por sua vez, trabalham como se fossem funcionários, mas na
verdade são cúmplices remunerados, garante.
Apesar de ainda não haver nada de concreto a respeito, ele
não descarta a possibilidade de também estarem sendo
comercializados produtos de roubo de cargas, uma prática
que já foi denunciada em São Paulo e outras capitais.
Barreto aventa a hipótese de o comércio de parte das
bancas estar servindo como fachada para uma grande lavanderia
de dinheiro proveniente do crime organizado. No momento
estamos fazendo um mapeamento dos depósitos, o que é
muito difícil, pois eles mudam de local constantemente. Queremos
identificar quem trabalha de forma legal e quem não trabalha,
explica o delegado. A maioria dos depósitos de produtos ilegais
estaria localizado nas proximidades da rua Voluntários da
Pátria e galerias do Centro da cidade. Somente em um
segundo momento poderemos realizar uma ação policial
mais efetiva, mas para isso é preciso que as polícias
fazendárias Federal e do Estado atuem juntas, com apoio da
Brigada e da Prefeitura. Não podemos transformar Porto
Alegre em uma praça de guerra, por isso estamos tendo cautela,
adverte. Admite não querer repetir experiências consideradas
desastrosas como as ocorridas em Santana do Livramento
e Belém do Pará. O delegado prefere não revelar
mais dados sobre o assunto para não atrapalhar as investigações
e uma possível ação em breve poderá
resultar de prisão dos envolvidos e apreensão de produtos,
mas isso ainda dependeria, segundo ele, da adesão do Estado.
Smic
fecha o cerco
Desde janeiro deste ano, a Secretaria
Municipal de Produção, Indústria
e Comércio (Smic) mexe com um dos principais
problemas enfrentados nas grandes cidades brasileiras:
o combate à venda de produtos ilegais, frutos
de contrabando, receptação e falsificação.
Junto com o Ministério Público e Polícia
Federal, a secretaria ainda apura denúncias
de que o comércio informal em Porto Alegre
tem ligação direta, em muitos casos,
com o tráfico de drogas. De acordo com informações
da Smic, 50% das mercadorias vendidas na capital gaúcha
são provenientes de pirataria, contrabando
ou mesmo do crime organizado. Esse levantamento foi
feito com base nas apreensões feitas nos últimos
seis meses. Se, em grandes capitais, como São
Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte, o problema
ficou tão grande a ponto de fugir ao controle
do poder público, em Porto Alegre, o secretário
da Smic, Adeli Sell, afirma procurar manter o controle
da situação, contando com isso com o
amparo de outras esferas de governo, como receitas
Federal e Estadual, Polícia Federal e Brigada
Militar.
No último dia 24 de junho, na praça
XV, nossa reportagem presenciou o confronto entre
camelôs irregulares e fiscais da Smic. No final
do tumulto cinco fiscais e um policial militar do
90 º BPM ficaram feridos. O episódio ocorreu
durante uma apreensão de óculos HB,
de venda proibida. Dois vendedores foram detidos em
flagrante e conduzidos à Área Judiciária.
Mais de 30 PMs foram mobilizados para controlar a
situação e socorrer os fiscais, que
ficaram cercados pelos camelôs. A Smic garantiu
que apesar do ocorrido a rotina de controle sobre
os ambulantes irregulares continuará.
Na mira da Smic estão produtos como CDs, óculos,
relógios, cigarros, fichas de transporte, roupas
e calçados pirateados, entre outros. Em apenas
uma ação, foram apreendidos 80 mil óculos
de grau e de sombra. Em outra, foram destruídos
25 mil CDs. A apreensão de vales-transporte
e bilhetes do metrô, vendidos cedo da manhã
e no final da tarde, tem dado mais trabalho, pois
o fornecedor faz ameaças, anda armado e costuma
se esconder nas imediações do Mercado
Público e da Estação Central
do Trensurb. Conforme Adeli, 90% desse material é
proveniente de assalto. Somente em uma loja
do centro o assaltante levou 40 mil VTs. A venda
de cigarros adquiriu tamanha sofisticação
que já não são mais encontrados
em depósitos. O produto chega em pontos específicos
da região metropolitana por ônibus ou
caminhão e, em poucos minutos, é feita
a distribuição para a periferia da capital.
Praça XV é o ponto crítico
Conforme o secretário da Smic, os maiores problemas estão
concentrados na Praça XV de Novembro, um local regulamentado,
que hoje é o foco dos produtos irregulares. Grande parte
dos pontos foram vendidos e muitos que trabalham ali são
laranjas. Agora que a Smic está dando um
duro, muita gente está voltando aos postos em que foram licenciados.
Uma mulher havia repassado seu ponto por R$ 10 mil e está
tentando voltar, exemplifica Adeli. Na Praça XV, a
Prefeitura cassou o alvará de quatro bancas, suspendeu de
duas e de mais três na Rua Vigário José Inácio,
por venda de produtos proibidos e excesso de mercadorias. A penalização
prevista pela Smic é de três suspensões, de
sete dias cada. Na quarta visita se dá a cassação.
Outra forte intervenção vem se dando no Hortomercado
da Praça Parobé. Conforme Adeli Sell, 53 das 86 bancas
estão com problemas. Muitos produtos vendidos ali são
de origem duvidosa, que não passam pela Ceasa. Não
posso assegurar que todas as bancas problemáticas serão
cassadas, mas muitas sim, informa. A Smic fornece licença
para um titular e um auxiliar por banca. Por conta do cerco, um
permissionário que, segundo informações coletadas
na Smic, controla 26 das 86 bancas do local, fez ameaças
à fiscalização: Avisa o teu secretário
que o que acontece no Rio de Janeiro pode acontecer aqui também.
AMEAÇAS Por esse exemplo, percebe-se que esse
trabalho não está sendo feito de maneira tranqüila.
Fiscais da Prefeitura são ameaçados e o próprio
secretário, desde abril, só sai com seguranças.
Temos apenas 140 fiscais, isso não dá nem para
o cheiro, disse Adeli. Em 30 de junho, terminou o convênio
feito com o Governo do Estado para que a Brigada Militar dê
cobertura às ações do Município. A partir
daí, o trabalho será feito pela Guarda Municipal.
De posse dessa informação, grupos considerados mais
barra-pesada, como os que vendem óculos HB, vêm
dando seus recados: Eles já avisaram que, assim que
o convênio terminar, vão nos pegar. Por causa da venda
ilegal dessa marca de óculos, o dono da empresa, que é
brasileira, está falindo.
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