Ano 8 - nº 73
Julho 2003



Luis Fernando Verissimo:
Na França, onde estive até a semana passada*, eles estavam brigando sabe por quê? Reforma da previdência. Para mostrar que pelo menos esta não é uma desarrumação endêmica brasileira.



Nei Lisboa:
O governo Lula é apenas vinte dias mais velho que a Maria Clara, minha linda rebenta, então achei que viria bem aqui fazer algumas comparações. Por exemplo, tal qual o governo, ela estabeleceu como prioridade um programa Fome Zero desde o...



Elisa Lucinda:
“É o verdureiro!.” Aqui tem ele vendendo almeirão, coentro, cebolinha, taiobas, couvezinha fresca, alface com gosto de horta e outras verduras na porta da gente. Pregão delicioso das manhãs. Eu atravesso o lago dourado que aparece no meio da travessia, quente como...





Falta fiscalização

Outra ilegalidade apurada pela Smic é a venda avulsa de cosméticos, miudezas e produtos de higiene em geral, como lâminas de barbear, xampus e cremes. São produtos oriundos de roubo de cargas e depósitos de supermercados. “O índice de roubos a supermercados é de 2,5%”, calcula Adeli. O diretor de fiscalização da Smic, Neivaldo Cassiano, informou que muitos produtos, como CDs e cigarros, são oriundos do Paraguai, o grande centro de distribuição, “mas as fábricas, a origem disso, não se sabe ao certo de onde são”. Quase 100% dos óculos de grau vêm do Paraguai, já os de sol possuem várias origens, uns são nacionais, outros paraguaios. No caso dos VTs, Cassiano explica que parte é produto de roubo, outra grande parte é fruto de falsificação, tendo sido identificadas pessoas de outros estados, principalmente São Paulo, trazendo o material de ônibus em malas. “A polícia já fez apreensões assim na rodoviária”.

Conforme Cassiano, galerias, lojas e depósitos no centro de Porto Alegre são os grandes distribuidores de contrabando. “O pessoal se abastece nesses locais e vende “pingado”. São pontos autorizados, com alvará, mas não para essa atividade”. Ele informa que a competência para verificar notas fiscais é das Receitas Federal e Estadual, porém está faltando uma parceria mais efetiva com a Smic. “Na visão deles, estourar uma loja com 50 mil óculos não significa nada, mas para nós é importante”. Ele sabe que o camelô é só a ponta de todo o processo, pois “por trás disso está a grande distribuição a partir dessas lojas, que chegam a avisar que não vendem produtos por unidade, apenas por lote. Aí, como a coisa está frouxa nas Receitas, fica difícil”.

Mais de U$10,5 bi em prejuízos

Mas do que adianta agir nas bancas se não há fiscalização suficiente nas fronteiras e alfândegas brasileiras? A falta de fiscais facilita o contrabando, a fraude, a sonegação. “Está em curso um sensível e notório esvaziamento da Secretaria da Receita Federal”, denunciou Tadeu Matosinho, diretor do sindicato dos Auditores Fiscais (Unafisco Sindical), em matéria publicada no jornal Brasil de Fato. Essa política, segundo ele, já causou um rombo de mais de R$ 10 bilhões por ano, apenas em função do contrabando e descaminhos de mercadorias. A falsificação de produtos – que deveria ser coibida pela Receita – causa um rombo anual de 10,5 bilhões de dólares em impostos, conforme estimativas da indústria. Matosinho destacou ainda que a sonegação desvia dos cofres públicos, no total, um real para cada outro arrecadado, cerca de R$ 250 bilhões por ano. “Os cálculos não levam em conta os prejuízos causados pelo desemprego e na área de segurança pública”, acrescentou.

O sindicalista informou que, nos anos 70, a Receita empregava 12,5 mil auditores fiscais e, atualmente, esse número está limitado a 7,5 mil profissionais. Significa um terço dos 20 mil que o próprio órgão considerou, em 1995, o mínimo ideal para promover a fiscalização e arrecadação de impostos no Brasil. Para comparar, a França, com 550 mil quilômetros quadrados, 15,5 vezes menor do que o Brasil, tem dez vezes mais fiscais nas fronteiras e alfândegas. “São 20 mil auditores instalados nas aduanas, diante dos meros dois mil em nosso país”, apurou Matosinho.
Na Assembléia Legislativa do Estado foi instalada, em maio, uma sub-comissão sobre Pirataria, Contrafação, Contrabando, Descaminho e Sonegação para apurar as irregularidades no Estado. “Não adianta reprimir somente a ponta do sistema, mas desenvolver ações coletivas que possam coibir essa faceta do crime organizado, que atualmente tem um crescimento econômico sem precedentes”, informou o deputado Luiz Fernando Schmidt (PT), relator da comissão, que tem um prazo de 120 dias para concluir o trabalho.

 Ilegalidade a olhos vistos
Nossa reportagem esteve durante um dia inteiro acompanhando as atividades de comércio de camelôs na Praça XV. Foi possível observar e comprovar a oferta descarada de produtos proibidos. Com o impedimento da venda de CDs, jogos de vídeogame e diversos produtos eletrônicos, os vendedores passaram a utilizar alguns artifícios para não interromper a prática. Quando surge um cliente para algum desses produtos, é feito um contato com alguém no depósito por meio de um rádio portátil ou aparelho celular (walk-talk). Os clientes são levados aos depósitos no Centro ou alguém leva o produto até o ponto de venda, onde é concluído o negócio. Outro recurso presenciado por nossa reportagem foi a utilização de um restaurante localizado na esquina da Otávio Rocha, de frente para a praça. Ali mesmo, no segundo piso, alguns homens, entre 19 e 35 anos, com sacolas cheias de produtos passam as tardes comunicando-se por rádio com os vendedores que ficam nas bancas ou circulando entre elas com os rótulos dos produtos. Quando surge um comprador, essas pessoas são acionadas e levam a mercadoria até o local da venda. Alguns negócios são fechados dentro do restaurante mesmo, na maioria jogos eletrônicos, CDs e softwares piratas. Um dos vendedores garantiu à reportagem que, sob encomenda, também disporia de lançamentos em DVD, citando o filme Matrix 2 (recém-lançado nos cinemas). Na mesa localizada atrás da ocupada por nossa reportagem, foi possível testemunhar o comércio de cocaína. Embora não tenha sido possível estabelecer se havia relação entre o traficante e os camelôs, ficou evidente a atmosfera de ilegalidade e crime que habita o local.

Também foi possível flagrar a ação de um dos “empresários informais” que fornecem produtos para as bancas. Um homem alto, bem-vestido, portando um aparelho celular Motorolla, perguntava aos camelôs: “–Vai precisar de alguma coisa hoje?”. Conforme relato do ex-metalúrgico Adão, 47, que atua como camelô na Praça XV, o esquema do empresariado informal realmente existe. “Eles lucram cerca de 25% em cima de cada produto”, diz. Outro camelô, que prefere não ser identificado explica que muitas vezes são feitos rateios para ir até o Paraguai buscar mercadorias. “Um de nós arrecada o dinheiro de todo mundo e busca, aí a margem de repasse fica em torno de 10%, mas sempre corremos o risco de ter a mercadoria apreendida”. Em geral todos reclamam da ação da Smic; alguns, inclusive, acusam parte dos fiscais de serem autoritários em demasia. Outros garantem ter consciência do que estão fazendo, de ser crime, mas argumentam não ter outra via de sustento.

Profissionalização da categoria

Se, de um lado, a SMIC elegeu como prioridade o combate ao comércio ilegal, há também um trabalho paralelo com camelôs e lojistas sobre o que pode e o que não pode ser comercializado. “Muita gente precisa sustentar a si e sua família e nós respeitamos isso. Mas alertamos: há muitos inimigos entre vocês”, disse Adeli Sell. A Smic já reuniu quem trabalha nas áreas de Ipanema, Azenha e Assis Brasil para conversar sobre o assunto.

Os camelôs que atuam na Osvaldo Aranha, Protásio Alves e adjacências também querem um diálogo com a Secretaria. O grupo iniciou em junho uma série de reuniões com vistas à formação de uma Associação, que tem como principal meta a profissionalização da categoria. Na pauta há outros objetivos, como representatividade, defesa dos interesses da categoria, ajuda mútua, formação humana e profissional. “Temos que começar quebrando a disputa e a concorrência que existe entre nós, pois estamos na mesma luta”, afirmou Paulo André Maia, um dos integrantes do grupo.
“A gente tem que ter consciência do que pode e do que não pode vender. Eu vendia fitas. Apreenderam, tive prejuízo, então, não coloquei mais. Cigarro não pode? Não vendo”, ensinou o camelô Francisco Paulo da Silva. Ele a esposa, Marisa, sustentam a casa e dois filhos com o que vendem em sua banca. “Os produtos são considerados descaminhos porque não pagam impostos. Mas por que não cobram? Eles têm que começar o trabalho pela fronteira, com a fiscalização”, observou Marisa.

Marisa disse ainda que “tem gente que está enriquecendo e nisso eles têm que dar um basta”. Ela contou que, quando vai para a estrada, se sente injustiçada, “porque vou por questão de sobrevivência, mas tem gente que vai com tudo e aí vira patrão, ficam nos melhores hotéis ... a fiscalização sabe direitinho quem passa pesado (portando contrabando)”. Marisa lembrou que, antigamente, os ônibus lotavam de sacoleiros rumo ao Paraguai. “Hoje eles vão vazios, porque a maior parte é patrão”.
Na última reunião do grupo, compareceram 16 pessoas. Elas avaliaram os dois sindicatos existentes (apenas um possui Carta Sindical). “Essas entidades não lutam pelo principal, que é o reconhecimento da profissão e o direito ao trabalho”, comentou Francisco.

Um dos organizadores da Associação é Rubens Antônio da Silva. Ele tem esperanças na recém-criada comissão nacional para organizar microempresários e trabalhadores informais. Junto com os colegas, ele quer estimular o trabalho autônomo organizado. “Queremos nos organizar junto à economia popular solidária”. Rubens diz que a maior parte dos camelôs é contra o contrabando e critica a conduta do poder público. Para ele, não existe o mercado irregular e, sim, uma situação de irregularidade” e afirma que “quando o poder público não age diretamente, dá chance a que as relações se corrompam”.


 

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Mais Especial:
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José Luis Fiori

Notas para um debate democrático sobre o “Plano Plurianual 2004 -2007”
Construir uma sociedade dinâmica e moderna, tirar o país da letargia, gerar empregos e riquezas e estabelecer justiça social são objetivos que só serão alcançados com um crescimento firme e duradouro e não se faz uma mudança deste porte sem planejamento.





Uma ponte sobre o Atlântico
Tratar das diferenças filosóficas entre americanos do norte e europeus é certamente uma tarefa árdua. Coube à filósofa italiana Giovanna Borradori, professora do Departamento de Filosofia do Vassar College, em Poughkeespie, Nova Iorque, a missão de...

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