Os softwares livres (programas de computador com código-fonte
aberto) devem ganhar um grande impulso no Brasil, a partir do governo
Lula. Em maio, foi anunciada pelo Instituto Nacional de Tecnologia
da Informação (ITI) a criação de uma
câmara especial para tratar do assunto, vinculada à
Casa Civil. Isso porque o ministro José Dirceu é um
dos políticos da nova configuração do poder
no País que estão enxergando os softwares livres como
uma porta de entrada do Brasil no mundo dos que detêm o conhecimento
em informática. Em seis meses, cerca de R$ 100 milhões
podem estar sendo poupados em licenças de softwares, número
que pode subir para bem mais caso todos os computadores passem a
operar em GNU Linux.
Jéferson Assumção
não
é só o Brasil que pensa nos livres como alternativa
para inclusão digital de superpopulações pobres.
Recentemente, o presidente da Índia, Abdul Kalam, surpreendeu
o mundo digital ao defender a adoção de SL em seu
país. Foi a primeira vez em que um chefe de estado falou
abertamente sobre o uso desses programas. E é emblemático,
por se tratar da Índia, um dos países que mais produzem
softwares no mundo.
Nos Estados Unidos, o assunto vem ganhando espaço na mídia.
A revista Business Week fez, há pouco tempo, uma matéria
de capa intitulada A rebelião Linux. Prometia
aos seus leitores revelar como um grupo ralé de geeks
(supernerds) do software está ameaçando a Microsoft
e a Sun e virando o mundo dos computadores de cabeça
para baixo. O caso é citado pelo antropólogo
Hermano Viana, no prefácio do livro Software Livre
e Inclusão Digital (Editora Conrad), lançado
dia 6 de junho, no 4º Fórum Internacional de Software
Livre (5 a 7 de junho) e que teve repercussão na última
bienal por ser publicado em regime de copyleft. (sem direitos autorais).
No Brasil, há algum tempo, essa rebelião já
vem acontecendo, inclusive, no Rio Grande do Sul. Aqui surgiu o
Programa Software Livre RS, que, com o novo governo federal, inspirou
o Programa Software Livre BR. Durante o governo Olívio Dutra,
o Estado passou a ser conhecido como um oásis do software
livre, com programas usados em escolas, universidades (Ufrgs,
PUC, La Salle, Univates e outras) e por empresas públicas
e privadas. O Banco do Estado do Rio Grande do Sul (Banrisul) é
um dos mais bem-sucedidos exemplos. Instalou em cerca de 1.700 caixas
eletrônicos duas mil estações de trabalho e
350 servidores programas livres no sistema operacional GNU/Linux.
Desde o início da implantação, em 2000, os
cofres públicos gaúchos economizaram R$ 9,6 milhões.
É o equivalente ao que precisaria ser gasto de dois em dois
anos para a renovação das licenças dos softwares
proprietários. Trocou o governo, mas o programa de instalação
de softwares livres continua. Presente à abertura do 4º
Fórum Internacional, o governador Gemano Rigotto destacou
a importância desse tipo de programa. Essa tecnologia
aponta para maior independência, redução de
custo e segurança e é uma possibilidade de avanço
na socialização do conhecimento, falou. O Fórum
reuniu três mil participantes de diversas partes do Brasil,
América Latina e Europa.
Um conceito mais amplo
Porto Alegre é pioneira em se tratando de legislação
desses programas, aprovando no ano passado a primeira lei brasileira
que prioriza o uso de softwares livres. Atualmente cerca de 80 escolas
municipais trabalham com plataforma GNU/Linux, mas há um
projeto para se atingir 91. Os 14 telecentros espalhados pela cidade
- cada um com 12 computadores também utilizam essa
plataforma, levando um conceito bem mais amplo de inclusão
digital do que apenas oferecer computadores a 11 mil jovens porto-alegrenses.
Marcelo Branco, um dos coordenadores do projeto Software Livre RS,
explica que no mundo do software livre inclusão digital
não é apenas acessar computador à população,
mas possibilitar às pessoas que os usem da melhor maneira,
inclusive aprendendo a programar.
É esse o conceito de inclusão que vem sendo trabalhado
em Porto Alegre. No 4º Fórum de SL, o prefeito João
Verle salientou a importância de levar a informática
aos lugares mais distantes da cidade. Muitas pessoas moram
em vilas da capital em ruas sem nome e casas sem número,
mas hoje, graças aos telecentros, têm um endereço
eletrônico, exemplificou. Verle também tratou
da inversão de prioridade de investimento já que,
com esses programas, deixamos de remeter milhões de
reais ao exterior e os direcionamos ao combate à miséria.
Brasil
gasta R$ 1 bi por ano em licenças
O presidente da Companhia de Processamento
de Dados do Município de Porto Alegre (Procempa),
Joel dos Santos Raymundo, lembra que o Brasil tem
um custo muito alto com as licenças de computador
cerca de R$ 1 bi por ano se somarmos
os computadores das esferas federal, estadual e municipal.
E isso tudo sem licitação. Usa-se
o Windows como padrão e não temos concorrência.
Agora, deveremos ter uma diminuição
nessas licenças e um uso maior de softwares
livres com o novo governo, aposta Raymundo.
Segundo ele, só para instalar uma máquina
com o sistema operacional Windows e programas básicos,
se gasta em torno de R$ 1.400,00 em licença.
Multiplica-se esse valor pelo número de computadores
de que se necessita no País e as somas se tornam
exorbitantes. Só na Prefeitura de Porto
Alegre usamos cerca de seis mil máquinas que,
com o básico, somam um custo de 3,4 milhões
em licenças, revela. A intenção
agora é passar o que puder para rede livre.
No entanto, a migração tem
que ser feita da maneira mais cautelosa possível,
para não trazer prejuízos ao serviço
prestado à população. Isso porque
muitas vezes esses programa ainda estão em
fase de testes. Temos que analisar o ambiente.
Ver o que já há de software à
disposição para aquela necessidade e
definir uma boa solução, com testes
de ferramentas etc, explica.
Para Raymundo, no entanto, o mais importante não
é a economia com licença, mas a possibilidade
de adaptação desses programas e de desenvolvimento
intelectual, já que eles podem ser melhorados
permanentemente, o que não acontece com os
proprietários. Nesse caso, se é apenas
usuário do programa. Raymundo afirma que outras
vantagens são a estabilidade e a segurança.
Podemos afirmar que são melhores que
os da Microsoft, diz.
A catedral e o bazar
Ao sacar dinheiro no caixa, o cliente Banrisul é recebido
por um pingüim tão simpático quanto revolucionário.
É o Tux, mascote do Linux, hoje fonte de dor de cabeça
para algumas das maiores empresas de informática do mundo.
Tudo porque seu criador, Linus Torvalds, desenvolveu, segundo conta
o hacker Eric Raymond, em A Catedral e o Bazar, uma
maneira nova de fazer programas de computador. No início
dos anos 90, ele começou a disponibilizar partes de um sistema
operacional para que outros ajudassem a fazê-lo.
O esquema, semelhante a um bazar, deu tão certo
que até hoje não parou de crescer o número
de programas feitos livremente por milhares de programadores ao
redor do mundo. É um sistema contrário ao das grandes
empresas, chamado pelos hackers, de catedral, e que
trabalha com base no copyright.. Na catedral, uma empresa como a
Microsoft desenvolve programas em sigilo absoluto, longe dos olhos
e ouvidos do concorrente. Pagam-se fortunas para manter o produto
às escondidas, preço que depois será cobrado
do usuário por meio do copyright.
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