Tetas ocupadas
O governo Lula é apenas vinte dias mais velho que a Maria
Clara, minha linda rebenta, então achei que viria bem aqui
fazer algumas comparações. Por exemplo, tal qual o
governo, ela estabeleceu como prioridade um programa Fome Zero desde
o primeiro dia. Está certíssimo o Lula em dizer que
a fome não pode esperar, e ela nos confirma em alto e bom
som a cada vez que o mamar se atrasa uns minutos. Não dá
pra se fazer de surdo. Então não sei como o Lula se
vira com tantas reuniões e cronogramas experimentais antes
de implementar nem que seja uma papinha decente para a Paraíba.
Claro que as tetas do governo, sei, sei, já estão
ocupadas. Tem gente mamando ali desde antes de eu nascer.
A Maria Clara ainda nem engatinhou, o que talvez seja injusto dizer-se
do governo, que em tempo recorde movimentou o projeto de reforma
da previdência. E parece que vai aprová-lo, apesar
da gritaria de boa parte dos eleitores e da bancada do próprio
PT. Algo assim fantástico como engatinhar de barriga pra
cima, sem usar os membros. Ou melhor, usando as mãos para
afastar quantas Heloisas se atravessarem no caminho e os pés
pra chutar a CPI do Borhausen pra fora do Senado, por exemplo. Será
que a apuração de uma lavagem de trinta bilhões
de dólares teria de esperar, em nome de não atrasar
a votação da reforma? Em todo caso, o PT na Câmara
dos Deputados rolou sobre a barriga e conseguiu aprovar a CPI. Vá
entender quem é governista e quem é oposição.
Com o Palocci, acontece algo muito curioso. Cada vez que ele aparece
falando de juros e metas inflacionárias, superávit
fiscal, relação dívida/PIB ou sei lá
que outro quesito macroeconômico desses nos quais a mídia
decidiu que devemos ser todos compreensivos especialistas ,
a Maria Clara franze o cenho, faz um biquinho igual ao do ministro
e... Pronto, lá vamos nós trocar uma fralda recheada
de superávit. Pra falar a verdade, a minha reação
é bem parecida. Andando estou para esse economês com
cara de justificativa fatal e inevitável para a mesma situação
de sempre. Quero é saber quando é que vamos tirar
de quem tem muito e distribuir para quem tem pouco ou nada. Quando
é que a primazia do lucro financeiro vai dar lugar ao trabalho
e à justiça social. Até lá também
franzo o cenho e faço bico, é isso aí, dá-lhe,
minha filha.
Outra comparação possível entre o governo e
a Maria Clara é a de que os dois exigem muita paciência.
Bom, estamos tendo, estamos todos sendo muito pacientes e otimistas,
quando não deslumbrados. Basta ver os índices de aprovação
e de confiança na gestão do Lula, sempre altíssimos
e quase inalterados depois de seis meses. Não é pra
menos. Depois de vinte anos com os milicos, depois de mais vinte
com a direita travestida de várias formas mas sempre refestalada
no poder, é muito bom saber que quem está lá
é aquele metalúrgico com um sorriso tão lindo
e franco como de uma criança, de quem só se pode pensar
que vai nos levar pelo rumo certo da felicidade. Como tu, Maria
Clara, minha filhinha querida, que só não precisava
ter sujado a fralda de novo. Vamos lá, Lula, estamos todos
contigo. Mas vê se não exagera nos superávits.
