Na França, onde estive até a semana passada*, eles
estavam brigando sabe por quê? Reforma da previdência.
Para mostrar que pelo menos esta não é uma desarrumação
endêmica brasileira. A crise da previdência é
geral. É, mesmo, a grande crise niveladora do capitalismo
mundial, afligindo desde sociais-democracias de verdade até
seus arremedos aqui embaixo. Junte-se à falência universal
da seguridade social como existe hoje o fato de que a previdência
privada é o maior negócio ainda subexplorado do planeta,
uma espécie de gigantesco lençol de lucro fácil
só esperando que liberem a prospecção, e está
explicada a confusão.
A crise só muda de estilo, de país para país.
Na França, uma tradição antiga de ativismo
sindical e política de rua, atiçada pela atual ameaça
a direitos conquistados em outras lutas, teve uma razão a
mais para reflorescer com força: a reação dos
sindicatos ao projeto do primeiro-ministro Raffarin é o primeiro
enfrentamento real entre esquerda e governo desde a derrota dos
socialistas nas últimas eleições. Raffarin
tem uma confortável maioria parlamentar para aprovar suas
reformas - inclusive uma reforma do ensino, que também está
sendo combatida - mas a rua francesa n´est pas mole não.
As manifestações contra o governo se repetiam, o lixo
não recolhido por funcionários em greve se amontoava
e o calor não ajudava, as perturbations nas linhas
de ônibus e metrô eram devidamente anunciadas, inclusive
com hora marcada para começar e terminar, mas perturbavam
assim mesmo, e todo mundo se lembrava que o último grande
movimento popular parecido tinha derrubado outro ministro do monsieur
Chirac. Já no Brasil, como se sabe - ou como se sabia quando
eu saí de férias, a perplexidade pode ter tomado conta
desde então e ninguém sabe mais nada - o maior problema
que um governo de esquerda encontra para aprovar suas reformas é
com seu próprio partido e, de certa maneira, com a sua própria
rua. Nosso estilo não apenas é outro. É inédito.
* * *
A caminho de Paris paramos em Roma para uma visita ao amigo Araujo
Netto. Que acabou sendo uma visita de despedida. O Araujo morreu
poucos dias depois, cercado pelo carinho das filhas. Foi um dos
melhores jornalistas, e uma das melhores pessoas, que conheci.
(*o autor refere-se a fatos ocorridos na primeira quinzena de junho).
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