Urcamp não será encampada pelo MEC
Motivo
de intensa mobilização social na Metade Sul do Estado,
desde março, a proposta de federalização da
Universidade da Região da Campanha (Urcamp) está imersa
num mar de incertezas e questionamentos. Não faltam dúvidas
para pautar o debate: qual o formato jurídico da instituição
que sucederá a Urcamp? Quem serão seus docentes?
Os atuais professores da Universidade manterão seus empregos?
Como se dará o processo de transição da Instituição
da iniciativa privada para o setor público? Quem ficará responsável
pelo pagamento dos salários atrasados e pelos encargos sociais
que não foram depositados?
Paulo César Teixeira

o
conceder audiência à comissão multicampi, for
mada por 20 professores da Urcamp e a direção do Sinpro/RS, em
Porto Alegre, no dia 2 de julho, o ministro da Educação, Tarso
Genro, esclareceu que não está em cogitação a encampação
da Universidade pelo poder público. “Trata-se, isto sim, de expandir
as vagas da Educação Superior pública na Metade Sul para
atender uma demanda da região, e não de federalização
de uma instituição específica”, afirmou Tarso. O ministro
adiantou que, a partir de 2006, oito novos cursos universitários serão
dis-ponibilizados através de extensões das universidades federais
de Pelotas e Santa Maria, na região da Campanha e Fronteira Oeste.
Na reunião realizada na sede estadual do Sinpro/RS, Tarso reiterou a intenção
de “incorporar” a Urcamp no processo de expansão de vagas
públicas na Metade Sul. Entretanto, para que isso ocorra, observou que
a Instituição terá que cumprir pré-requisitos, entre
eles, uma mudança estatutária que reflita a alteração
de suas relações internas de poder. “O conselho administrativo
da Urcamp precisará ter maioria pública, com participação
de representantes do poder público local, do MEC, da comunidade e dos
professores”, disse Tarso. Segundo ele, a mudança do estatuto deve
acontecer no segundo semestre do ano e já conta com o consentimento prévio
da direção da Universidade (leia entrevista do ministro).
Conforme Amarildo Cenci, diretor do Sinpro/RS, o papel do Sindicato será o
de estimular a organização dos professores para que tenham efetiva
participação no processo de transformação da Urcamp. “Por
sugestão do próprio ministro da Educação, constituímos
um Grupo de Trabalho, formado por docentes da Universidade e a direção
do Sinpro/RS, que acompanhará as tratativas entre o MEC e a comissão
pró-federalização e discutirá, desde já, a
alteração estatutária da instituição”,
afirma Cenci.
Professores exigem garantia de seus direitos
Sem receber até agora nenhuma garantia de preservação de
seus direitos, os professores da Urcamp estão mobilizados e atentos ao
desdobramento da crise da Urcamp. Em 11 de junho, a comissão multicampi
indicada por assembléias dos docentes reuniu-se, em São Gabriel,
com a diretoria do Sinpro/RS. Na reunião, ficou consolidado o entendimento
de que o Sinpro/RS é o legítimo representante dos professores,
seja qual for o desdobramento da questão.
No que diz respeito aos atrasos salariais, os professores da Urcamp decidiram
intensificar a ação jurídica, através do Sinpro/RS,
no sentido de minorar os prejuízos da categoria. Até 15 de junho,
os docentes do campus de Bagé não haviam recebido 50% dos salários
de março e nem a totalidade dos vencimentos de abril e maio. Em Dom Pedrito,
Santana do Livramento e Alegrete, os atrasos variavam entre 50% e 30% dos salários
de maio. Na reunião de São Gabriel, os professores decidiram ainda
rejeitar a proposta da reitoria da Urcamp, que pretende reduzir em 30% os salários
dos docentes de Bagé e, nos demais campi, não aplicar os 5,91%
de reajuste da data-base da categoria, recentemente negociado com o sindicato
patronal.
Outra preocupação dos professores é ter acesso a informações
que possam traduzir com transparência a real situação financeira
da Universidade, até mesmo para poder avaliar qualquer proposta que implique
a alteração de seus contratos. Na primeira quinzena de maio, a
Patrimonial Assessoria Contábil – após solicitação
do Sinpro/RS – formulou um roteiro de quesitos, encaminhado à reitoria
no dia 17 daquele mês, a fim de apresentar um diagnóstico da Instituição
aos professores. Entretanto, a reitoria recusou-se a atender à solicitação,
alegando que as informações “pertencem ao âmbito da
autonomia e independência de nossa gestão administrativa”,
não havendo, assim, razão para serem fornecidas.
Norte do Estado também quer universidade federal
Com o debate público acerca da federalização da Urcamp,
outras comunidades passam a reivindicar a implantação de universidades
federais. É o caso do noroeste do Estado, onde o movimento é liderado
pelo vereador João Pedro Fagundes (PT), de Ijuí. “Não
vamos deixar por menos. Há 20 anos reivindicamos a criação
de uma universidade pública e gratuita, que possa bloquear a evasão
da juventude causada pelo empobrecimento e pela falta de acesso à Educação
Superior em nossa região”, afirma ele.
Conforme Fagundes, “a Metade Norte tem 4 milhões de habitantes e
nenhuma universidade federal, enquanto a Metade Sul já conta com três
instituições federais (em Pelotas, Rio Grande e Santa Maria). Se
essa universidade vier, tem que ser para cá”, diz o vereador.
O reitor da Unijuí, Gilmar Antonio Bedin, entende que o tema da federalização é relevante,
mas ressalta que “uma proposta como esta, se mal interpretada, pode desorganizar
as instituições existentes”. Como alternativa para a ampliação
do acesso à Educação Superior, Bedin propõe a federalização
de alguns cursos, mediante convênio entre o governo federal e as universidades
comunitárias. “Este talvez seja o caminho mais rápido e mais
adequado. As comunitárias têm estrutura qualificada e relação
estreita com as comunidades. Talvez a grande questão não esteja
em mudar sua natureza jurídica, mas sim constituir políticas públicas
de educação, garantindo a presença de parceiros estratégicos,
a exemplo do governo federal.”
Comunitárias pedem apoio desconcentrado
O presidente do Consórcio das Universidades Comunitárias Gaúchas
(Comung), Alencar Proença, entende que seria “mais justo e mais
social” que a União investisse no conjunto das instituições
comunitárias, em vez de destinar recursos específicos para a Urcamp. “Dessa
forma, atenderia um universo de 300 mil alunos no Estado, em lugar de contemplar
apenas 8,3 mil estudantes”, sustenta Proença, que é reitor
da Universidade Católica de Pelotas.
Ele destaca que, do ponto de vista geográfico, a Metade Sul não é a
mais necessitada de uma universidade federal. “Acima de Porto Alegre, não
existe uma só instituição federal no Estado.” Quanto
ao argumento de que a região Sul enfrenta grave processo de empobrecimento,
ele rebate: “No Brasil, existem regiões extremamente pobres, principalmente
no Norte e Nordeste, onde não há universidades federais”.
O presidente do Comung adverte que, “se a moda pegar, quem tiver dificuldades
financeiras vai querer ser federalizado. Neste caso, vai faltar verba pública”.
Ele ressalta que, até o momento, o Comung não foi chamado para
participar do debate acerca do futuro da Urcamp, embora a Universidade faça
parte da entidade. “Não fomos consultados, não fomos ouvidos.
O tema não chegou até nós, nem por iniciativa do MEC, nem
da Urcamp, que não nos pediu apoio.”
| Futuro da Instituição está
em aberto |
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Em entrevista
ao Extra Classe, o ministro da Educação afirma que
a estatização da Urcamp está fora de cogitação
e explica as alternativas estudadas pelo MEC para definir o futuro
da Universidade.
Extra Classe – Quantas novas vagas a União pretende
abrir para a Educação Superior pública?
Tarso Genro – Temos um programa de expansão em pleno
andamento, que já garantiu a criação de
três novas universidades e mais de dez extensões
de campi no país. O presidente Luiz Inácio Lula
da Silva autorizou o início dos trabalhos para que tenhamos
mais 21 extensões. Com isso, estaremos criando cerca de
350 mil novas vagas.
Extra Classe – De que forma a Urcamp se vincula ao programa
de expansão de vagas?
Tarso – O programa não tem como objetivo resolver
o problema da Urcamp, e sim oferecer vagas públicas de
Educação Superior para comunidades que delas estão
necessitadas, como é o caso da Metade Sul. Entretanto,
pode haver vínculo se levarmos em conta que a Urcamp é uma
instituição com ativo importante, que tem estrutura
material e experiência no Ensino Superior. Então,
as coisas podem ser combinadas.
Extra Classe – Quais as condições
para que a Urcamp seja incorporada ao programa de aumento de
vagas?
Tarso – O requisito que nós temos para que a Urcamp
seja aproveitada nesse programa – e que, inclusive, já relatamos à direção
da Universidade – é o de que o conselho administrativo
tenha maioria pública. Se a Urcamp não fizer a
mudança estatutária, não há como
a União ajudá-la. Só podemos ajudar com
uma engenharia nova, que seja formulada com a colaboração
dos trabalhadores, professores e comunidade. Aí, sim,
será possível criarmos algo novo.
Extra Classe – Qual é a possibilidade de estatização
da Urcamp?
Tarso – Todos nós sabemos que não existe
possibilidade jurídica de encampação ou
estatização, principalmente sendo uma fundação.
Se fosse empresa privada, ainda haveria a hipótese de
a União desapropriar as ações, o que não é o
caso.
Extra Classe – Então, qual será o
futuro da Urcamp?
Tarso – É uma questão em aberto. Estamos
trabalhando com três possibilidades. A primeira é a
absorção progressiva da Urcamp pela União.
A segunda é a criação de uma relação
consorciada atípica através de convênios,
que não estaria baseada na Lei Federal 11.107 (Lei dos
Consórcios Públicos Privados). Neste caso, uma
estrutura federal se articularia com a estrutura fundacional,
que teria maioria pública, com a presença dos trabalhadores.
A União poderia, inclusive, pagar à Urcamp para
que ela abrisse cursos gratuitos, como faz a Uergs em relação à Unijuí.
Aí haveria o convívio das duas instituições
por um período de cinco a dez anos, até que fosse
definida a nova engenharia institucional. A terceira possibilidade é a
formação efetiva de um consórcio público
privado, o que resultaria na criação de uma nova
universidade.
Extra Classe – Como fica a situação dos professores
após a formação da estrutura conveniada?
Tarso – Aqui, temos um problema, que é a convivência
no mesmo âmbito de dois regimes diferentes de relações
trabalhistas – a CLT e o regime do servidor público.
Para que não haja colisão, uma solução é a
lenta expansão dos cursos federais dentro da Urcamp, com
a progressiva abertura de concurso público para a contratação
de novos professores. Na minha opinião, esta é uma
questão que deve ser equacionada através de um
processo de diálogo, engenharia política e negociação,
no qual os trabalhadores da Urcamp deverão ter um papel
decisivo.
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