Procura-se um inimigo
“Em termos geográficos, a Europa
não tem fronteiras orientais, e o continente, portanto,
existe exclusivamente como um constructo intelectual… só que
se trata de um conceito mutável, divisível e flexível.”
Eric Hobsbawm, História, págs. 233 e 234.
José Luis Fiori*

rimeiro, foi a França, e depois a Holanda que disse
não à nova Constituição Européia. Agora, foi
a Inglaterra que disse não ao novo Orçamento Europeu, proposto
por Bruxelas no dia 17 de junho, com os recursos para ajudar os 10 novos sócios
que entraram na UE em 2004. Como resultado, neste momento, a Europa não
tem mais nem Constituição, nem Orçamento. Em poucas semanas,
o projeto de expansão da UE explodiu, e como disse o seu presidente, Jean-Claude
Juncker, “a Europa entrou numa crise profunda”, talvez a maior crise
de sua história. Só um cego não vê que na origem desta
crise existe uma divergência radical de concepções entre
seus principais estados e seus principais atores sociais. Mas, apesar disso,
pouco a pouco, de forma sinuosa, quase envergonhada, vai se espalhando pelo Velho
Continente a versão de que a Turquia deve pagar a “conta” desta
crise. O problema mais geral começou com a expansão da comunidade
para a Europa Central e agora está focado na próxima inclusão
dos países “balcânicos”, mas é a Turquia que
acaba sempre como “bode expiatório” de toda a história.
Na Alemanha e na França inclusive, Angela Merkel e Nicolas Sarkozy – prováveis
sucessores de Gerard Schroeder e de Jacques Chirac – já estão
propondo a criação de um estatuto especial para a Turquia, que
se transformaria em “parceiro especial” da UE, sem os mesmos direitos
e poderes dos demais membros da comunidade. Todos parecem temer a entrada de
um novo país – com 80 milhões de habitantes – que seria
capaz por si só de “enviesar” todas as decisões democráticas
da UE. E os trabalhadores, em particular, estão com medo de que a imigração
desta população afete os seus empregos e seus níveis de
salário e proteção social. Por trás desta preocupação
política e econômica, entretanto, estão escondidos uma pergunta
e um problema muito mais complexos e sem resposta: afinal, o que vem a ser a
Europa? Quem são os europeus e qual é a sua verdadeira identidade?
E além disso, quais são as suas verdadeiras fronteiras físicas,
culturais e estratégicas?
Olhando do “ocidente”, todos estão de acordo que o território
europeu começa no Cabo da Roca, a ponta extrema da Península Ibérica,
onde “acaba a terra, e começa o mar”, como disse Camões,
o poeta português. Mas ninguém sabe, nem nunca foi possível
definir com precisão até onde se estende o território europeu,
na direção do “oriente”, onde a fronteira foi sempre
instável e variou através dos séculos, segundo o ritmo das
guerras e das invasões “bárbaras”. O historiador francês,
Fernand Braudel, chegou a dizer uma vez “que, no fundo, foram os muçulmanos
que converteram os europeus ao cristianismo”, e que, além disso,
foram as guerras entre cristãos e muçulmanos que definiram de fato
as fronteiras mediterrâneas da Europa. E é provável que o
cardeal Joseph Ratzinger estivesse pensando neste longo conflito e na necessidade
da reconstituição da identidade cristã da Europa quando
propôs a exclusão da Turquia da UE, antes de ser escolhido como
novo papa.
Mas esta história está mal contada – por Braudel e por Ratzinger – porque
não esclarece quem foi que tomou a iniciativa das guerras nem se preocupa
muito com suas conseqüências dentro do mundo muçulmano. Na
verdade, esta é uma história muito antiga e começou no momento
em que Constantino, o imperador Romano, se converteu ao cristianismo e utilizou
pela primeira vez as bandeiras e insígnias cristãs para mobilizar
seus soldados na batalha de Milvius, em 312 d.C., contra os “pagãos” da Ásia
Menor. Muito antes, portanto, do nascimento de Maomé e do início
da expansão territorial islâmica, no século VIII d.C. Foi
neste exato momento que começou na Europa esta grande confusão
entre poder, império e religião: quando Constantino descobriu a
eficácia do cristianismo para conquistar novas terras e escravos, e os
cristãos descobriram a importância do poder e das armas para conquistar
novas almas e pagãos. Mais tarde, na hora das Cruzadas, de novo, a iniciativa
da guerra foi tomada pelos “europeus” cristãos. A primeira
Cruzada foi organizada em 1095, por uma aliança entre o papa Urbino II
e o imperador Alexis I, de Bizâncio, e tinha como objetivos conquistar
Jerusalém e tomar a Ásia Menor das mãos do Império
Turco Seljuk. E hoje os historiadores estão de acordo que esta aliança
e este ataque “cristão-bizantino” foram absolutamente decisivos
para reacender o fanatismo e soldar a fé muçulmana com o Império
Turco. Muitos séculos mais tarde, depois da tomada de Constantinopla pelos
turcos em 1453, esta mesma “guerra santa” reapareceu nos Bálcãs,
na Europa Central e em todo o Mediterrâneo, agora entre os cristãos
do Império Habsburdo e os muçulmanos do Império Turco Otomano.
Mas este segundo capítulo da história ficou ofuscado pela expansão
da Europa na direção da Ásia e da América e pela
lenta decadência do Império Turco, até o momento em que foi
expulso definitivamente da Europa e dos Bálcãs, na segunda metade
do século XIX.
Resumindo o conto, ao contrário do que diz Braudel, os cristãos
e os muçulmanos se “converteram” mutuamente ao fanatismo e à guerra,
e se transformaram durante muitos séculos numa espécie
de “inimigos necessários” para a reprodução
de suas identidades “imperiais” e para a expansão dos seus
territórios e do seu comércio. Mas o cardeal Ratzinger está completamente
enganado se pensa que isso possa voltar a acontecer no início do século
XXI, porque nem o Islã nem a Turquia têm mais a menor possibilidade
de ajudar a reconstruir a união e a identidade dos europeus. A religião
muçulmana está crescendo mais do que as igrejas cristãs,
e, no momento, o “terrorismo is-lâmico” é o que mais
assusta o “ocidente”, mas nenhum dos dois tem a base territorial
e o poder econômico e militar indispensáveis para ameaçar
a Europa e devolver-lhe a “vontade de poder” que ela perdeu depois
do fim dos seus impérios, na segunda metade do século XX. Por isso,
muitos conservadores europeus já estão apontando de novo para a
Rússia, porque, em vários momentos do século XIX, e durante
todo o século XX, foi ela, e depois a União Soviética, que
cumpriu o papel de “inimigo necessário” da Europa. Mas, neste
momento, a Rússia está transformada num “anão econômico”,
incapaz de utilizar com eficiência sua enorme capacidade militar instalada,
sem a ajuda dos próprios europeus. Finalmente, os tecnocratas de Bruxelas
estão insistindo cada vez mais na tecla de que os verdadeiros concorrentes
da Europa estão na Ásia, e que a China será o “inimigo
necessário” do futuro. Mas a maioria dos líderes políticos
europeus vem mantendo uma posição muito cautelosa sobre o assunto.
Sabem que as “Índias” já cumpriram este papel no passado
durante os 500 anos de predação econômica e dominação
colonial da Europa na região.
Em toda esta discussão, o que ninguém diz é que a fronteira
oriental da Europa já está traçada, e que ela não
foi definida pelos próprios europeus. Ela foi definida, num primeiro momento,
logo depois da II Guerra Mundial, quando os Estados Unidos intervieram na Grécia
e na Turquia, e em seguida incluíram estes dois países na estrutura
estratégica da OTAN. E novamente, depois do fim da Guerra Fria, foram
os Estados Unidos que decidiram trazer para dentro da OTAN os países da “Europa
Central”, e agora a Ucrânia, contra a opinião dos líderes
políticos da UE.
Deste ponto de vista, os gaullistas franceses têm razão quando dizem
que em última instância o “inimigo necessário” da
Europa são os Estados Unidos. O problema é que já faz mais
de meio século que a Europa está sob a “proteção” atômica
dos norte-americanos e, além disso, foram os próprios europeus
que colocaram os Estados Unidos nesta posição hegemônica
dentro do seu continente. A soma de tudo isso parece estar indicando que só resta à Europa
tomar o caminho dos grandes poderes vitoriosos do passado, que perderam sua “energia” política
e se instalaram confortavelmente numa espécie de planície da auto-satisfação
e do lento crescimento. Como foi o caso, por exemplo, da Holanda, depois da sua “gloriosa
invasão” da Inglaterra, em 1688, e durante o governo conjunto de
Guilherme de Orange, que promoveu a fusão política e financeira
dos dois países. Se esta for a solução, de novo, agora no
início do século XXI, aos europeus só resta fundir-se com
o projeto global dos Estados Unidos. Esta opção já foi feita
pela Grã-Bretanha, e é isto que ela está propondo que façam
os demais membros da União Européia. Neste caso, só cabe à França,
e sobretudo à Alemanha, retirar-se da UE e refundar o seu projeto de poder,
a partir do eixo Berlim-Paris-Moscou.
*
Professor titular de Economia Política Internacional do Instituto de
Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Atualmente, professor convidado
da Faculdade de Economia e Política da Universidade de Cambridge.