Ano 10 - nº 93
Julho 2005



Luis Fernando Verissimo:
Uma vez perguntaram ao James Joyce por que estava escrevendo Finnegans Wake e ele respondeu: “Para manter os críticos ocupados por trezentos anos”. Poderia ter dito o mesmo de Ulisses, que nos 83 anos desde sua publicação tem mantido ocupados críticos, acadêmicos, explicadores – e tradutores.




Nei Lisboa:
Agora também ando malhando, pra não deixar que a adiposidade tome conta, e bem entusiasmado, aliás, entre esteira, musculação e alongamentos, aprendendo tudo sobre tríceps e tibiais. Nada como um banho restaurador depois da academia, a alma da gente fica nova e perfumada. Por outro lado...



Elisa Lucinda:

Era um programa bonito sobre esse Dorival.
Eu almoçava vendo televisão.
Fascinada.
Aqueles versos, aquelas redes
aquele cardumes de liras,
aquela música amorosa limpa
apimentada e mágica
brotando daqueles lábios carnudos daquela boca coração dele...





Tríceps

gora também ando malhando, pra não deixar que a adiposidade tome conta, e bem entusiasmado, aliás, entre esteira, musculação e alongamentos, aprendendo tudo sobre tríceps e tibiais. Nada como um banho restaurador depois da academia, a alma da gente fica nova e perfumada. Por outro lado, quando já se está pronto para ele, suado, pelado e de sabonete na mão, e se descobre que faltou água, aquela mesma alma fica assim meio arroxeada, meio belzebu de tão tiririca. Sendo a segunda vez no mês que isso acontece, tanto pior.

Nenhum panfleto de notificação prévia, nenhuma linha nos jornais avisando que ia faltar água, nada? “Saiu no Diário Oficial”, foi o que consegui apurar da primeira vez com a atendente do órgão público responsável, e ela não estava brincando. Ligo novamente, para ter certeza de que devo assinar o Diário Oficial do município, mas parece que dessa vez nem ali foi publicado. “Com até quatro horas de interrupção no abastecimento, a lei não obriga a publicação. A previsão inicial era das oito às onze da manhã. Lamentamos que tenha se estendido, a água só volta no final do dia.”

A lei não obriga. É de se lamentar, mesmo, que se dediquem ao cumprimento estrito de tal lei a partir de uma previsão, coisa que a realidade costuma desmentir. A atendente concorda comigo, simpática, parece também estranhar o que tem acontecido. Ainda mais simpática, se despede. Pena que não possamos estender o assunto, baby. Já que não tenho como tomar banho, pelo menos poderíamos bater um papinho amigo. Sabe, não posso viver sem a sua água, ficar assim de torneiras vazias. Principalmente quando chego da academia com meus tríceps suados. E os tibiais também. Venha aqui pra casa, vamos tomar uma mineral on the rocks.

Ou então posso fantasiar numa linha mais investigativa. O serviço de abastecimento de água da cidade nunca teve problemas, ao contrário, sempre foi exemplar, então o que é que está havendo? Alguém aí já ouviu falar em privatização? Vou ligar para a rádio e denunciar que está em curso uma campanha de desqualificação do atendimento com o objetivo de dilapidar o patrimônio público. Só pode ser isso. Não tenho como provar, mas isso hoje em dia é detalhe.

Tanta sujeira por aí, não é? E veja só, eu sem água em casa. E a cabeça, não sei se deu pra notar, cheia de endorfina, que academia também tem disso.




André Marenco

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