O que vocês querem aprender?
Considerada uma das maiores
especialistas na obra de Jean Piaget, a professora Léa da
Cruz Fagundes, do Laboratório de Estudos Cognitivos da Ufrgs,
luta há duas décadas para mudar a concepção
de ensino nas escolas. O seu trabalho pioneiro com a informática
em sala de aula lhe rendeu recentemente uma homenagem da Unesco. “Ensi-nar
não é trans-mitir, e nem condicionar por estímulo
e resposta”, insiste sempre a pesquisadora de 76 anos. E
também não é necessário partir do simples
para o complexo, nem do próximo para o distante. É preciso
deixar a gurizada mergulhar no conhecimento. “Com orientação”,
ela avisa.
Por Roberto Villar Belmonte

som
estridente da sirene avisa que está na hora de começar
a aula. Os alunos falam pelos cotovelos. São todas crianças
curiosas, cheias de interesse pelo mundo. A professora entra e
começa a colocar ordem na sala. Pede silêncio e conduz
todos para os devidos lugares. Calados têm que ficar para
ela uma nova lição transmitir. Com a tropa sob controle,
a mestra vai para o quadro. Escreve algumas frases e manda os pequenos
copiarem. Quem executa com perfeição a ordem é premiado
com palavras de reforço, tais como “ótimo”, “jóia”, “muito
bem”, “continue assim”. Os outros levam frases
punitivas do tipo “tens que caprichar mais” ou “precisa
melhorar”. Na hora da informática, eles brincam com
CDs de joguinhos e digitam – ipsis litteris – os exercícios
do caderno.
Imagine outra escola, onde a sirene também toca e as crianças,
em alvoroço, entram no mesmo turbilhão para a sala
de aula. A professora chega e, ao sentir o clima borbulhante da
criançada, vai logo perguntando: “O que vocês
querem aprender hoje?”. Alguns olham desconfiados, incrédulos
com o convite. “Podemos mesmo aprender o que a gente quiser?”,
conferem. Uma lista de curiosidades emerge. A profe orientadora
organiza uma votação. Os temas mais votados viram
projetos de pesquisa. Grupos são formados, com horário
marcado no laboratório de informática. Os temas vão
do funcionamento da digestão dos alimentos no cachorro à curvatura
do arco-íris. Os trabalhos ganham páginas na internet,
e os alunos a responsabilidade da autoria e autonomia para resolver
problemas.
O nome da segunda professora é Léa da Cruz Fagundes.
Apesar dos 76 anos, ela é superativa. Acho até que
algumas orientadoras pedagógicas a tachariam de hiperativa.
Foi difícil entrevistá-la. Quando ela não
está em sala de aula, está orientando projetos ou
reunida com professores Brasil afora. Consegui conversar com ela
em seu apartamento no bairro Bom Fim, em Porto Alegre, em uma sala
ampla e iluminada, decorada com folhagens. Na estante alta de madeira
bege chama a atenção um livro grande de capa preta
sobre neurociências. Ela recém havia voltado de Brasília,
onde recebeu um prêmio da Unesco, no dia 7 de junho, em reconhecimento
ao seu trabalho pioneiro no uso da informática em sala de
aula que iniciou uma revolução na área da
inclusão digital em escolas públicas.
–
Aprende-se tendo curiosidade, fazendo perguntas. Mas para que a
curiosidade tenha bom resultado, é preciso orientar os alunos.
Este é o papel do professor, orientar o aluno a escolher,
buscar e depois refletir. O mais poderoso no ser humano é a
representação mental, a capacidade de abstração
e reflexão. Na maioria das escolas ninguém reflete,
pois só colocam certo e errado. Os alunos têm que
aprender a buscar informações em diferentes fontes,
comparar os dados divergentes sobre o mesmo tema, complementar
a pesquisa com os livros das bibliotecas e consultas a especialistas.
Eles vão aprender a planejar o projeto, fazer cronograma,
planejar as atividades. Não dá para fazer no computador
o exercício copiado do caderno. Computador é para
hipertexto.
“O professor não pode ensinar o aluno a usar o computador,
porque isso ele não sabe e nunca vai saber. Ele tem que
ser um parceiro para orientar a pessoa a pensar, a descobrir e
experimentar”, adverte a doutora em Psicologia Escolar e
do Desenvolvimento Humano. Segundo Léa Fagundes, os professores
são formados com um analfabetismo digital, pois quando utilizam
o computador nas licenciaturas, usam para um uso burro, limitado,
como digitar texto no Word, fazer planilhas no Excel e apresentações
em Power Point. O computador tem que ser usado para se comunicar
e interagir. “O professor fica em pânico com isso.
Mas o que deixa ele mais atordoado é mudar a estrutura,
a concepção. Ele não é mais quem ensina,
ensinar não é transmitir, ele aprende junto com o
aluno.”
–
Toda a escola está errada. Ela só faz as classes
populares se sentirem desprezadas, derrotadas, fracassadas. Eu
não estou atrás de uma nova maneira de melhorar o
rendimento da escola. Isto não me interessa, pois a escola
quer a resposta certa para uma listagem de coisas específicas.
E não quer ver como o talento funciona, como é que
os estudantes interagem e buscam informação nova.
Nada disso interessa para os que ainda acham que ensinar é transmitir.
O professor deve ser um orientador, e aprender junto. Aprender é pesquisar.
A pesquisa é a fonte da aprendizagem – explica a professora
Léa Fa-gundes, coordenadora do Laboratório de Estudos
Cognitivos (LEC) do Instituto de Psicologia da Ufrgs e presidente
da Fundação Pensamento Digital.
Uma outra estrutura possível
No lugar da estrutura hierárquica das escolas, copiada das
instituições como as Igrejas, as Forças Armadas,
as fábricas e até o Congresso Nacional, Léa
Fagundes defende uma organização heterár-quica
e mais cidadã nas salas de aula para estimular a participação
cooperativa e solidária dos sujeitos que estão se
desenvolvendo. Na Sociedade da Informação, a própria
comunicação está cada vez mais heterárquica. “As
pessoas podem fazer as redes de hierarquia que quiserem. Não
há um poder irradiando e dominando os outros. Em uma rede
tu podes ser autoridade, na outra não. Isto faz com que
cada pessoa possa aprender a negociar, a chegar a consensos”,
destaca.
–
Quando uma pessoa chega a um consenso, tem o seu nível ético
elevado, pois ela está fazendo algo porque quis, porque
aceitou, e não por obrigação, então
se sente responsável. Se um aluno simplesmente copia e a
professora coloca “jóia”, ela desloca o valor
do trabalho; no caderno ele não é o autor. O professor
não pode dizer como é, pois a retenção
não fixa. O aluno tem que resolver o problema sozinho. Assim
ele opera em cima da informação e a reestrutura.
E o que ele lembra é o caminho da reestru-turação.
Tudo é interação, desde que nascemos.
Léa da Cruz Fagundes é considerada uma das maiores
especialistas na obra de epis-temologia sistêmica e cons-trutivista
de Jean Piaget (1896-1980), pesquisador que publicou cerca de 70
livros e, segundo ela, ainda é ignorado no Brasil porque
as pessoas lêem e não entendem. O resultado disso
ela vê nas escolas. “Com todo este condicionamento
nas salas de aula, muitos talentos estão sendo perdidos.
Como o ensino está na mão dos que têm mais
poder, não se concebe que uma pessoa de menor desenvolvimento
possa aprender”, lamenta. Saí da entrevista com duas
perguntas que a professora de 76 anos me fez durante a nossa conversa
de uma hora: Quem diz que tudo o que a gente aprende tem que ser
ensinado? O que aprender, afinal?
Mãe de sete filhos e pesquisadora
Léa Fagundes é mãe de sete filhos, cinco
mulheres e dois homens. Desistiu do curso de Letras por falta
de tempo para estudar, pois dava aulas e tinha que cuidar das
crianças pequenas. Depois do sexto filho, decidiu voltar
aos estudos. Com 38 anos, ingressou no curso de Pedagogia (68-72)
e não parou mais. Fez mestrado em Educação
(75-77) e doutorado em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento
Humano (82-86). Por questões burocráticas da época
(dava aula, mas não podia orientar o estágio),
cursou a graduação em Psicologia (83-88) durante
o curso de doutorado. Ela coordena o Laboratório de Estudos
Cognitivos da Ufrgs. O LEC nasceu nos anos 70 a partir dos cursos
sobre cognição humana e epistemologia genética
ministrados em Porto Alegre pelo professor argentino Antonio
Battro, do Centro Internacional de Epistemologia Genética
da Universidade de Genebra, onde ele estudava com Piaget.
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Prêmio da Unesco
Na comemoração dos 60 anos da Organização
das Nações Unidas para a Educação,
realizada em Brasília no dia 7 de junho, a professora Léa
da Cruz Fagundes foi homenageada. Ela recebeu o Diploma de Reconhecimento
por seu trabalho pioneiro no uso da informática em sala
de aula, que, segundo a Unesco, iniciou uma revolução
na área da inclusão digital em escolas públicas
brasileiras e ajudou a promover mudanças profundas no processo
de aprendizagem.
“Entendemos que as suas pesquisas nas linhas de inclusão
digital, formação continuada de professores em serviço,
fundamentos da psicologia aplicados à informática
na educação sintetizam a essência do que compreendemos
como sendo a melhor mensagem do uso das novas tecnologias para
a educação”, foi a justificativa do prêmio. “Esta é uma
homenagem a milhares de professores brasileiros, educadores corajosos
e sonhadores que acreditam que é possível mudar a
educação brasileira”, disse Léa Fagundes
ao receber a homenagem.
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