BAGÉ
Ex-reitor da Urcamp responderá por apropriação indébita
Por César Fraga
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Bagé, no último dia 28 de junho, imprensa, judiciário
e comunidade bageense aguardavam ansiosos o interrogatório
do ex-reitor da Urcamp e ex-presidente da Fundação Átila
Taborda (FAT), Morvan Meirelles Ferrugem, na Justiça. Para
frustração dos que esperavam algum esclarecimento
sobre a denúncia do Ministério Público sobre
apropriação indébita de valores da Universidade
durante sua gestão, Ferrugem não compareceu e justificou-se
por um atestado médico. O interrogatório foi adiado
para 10 de julho.
Morvan já cumpre pena por motivo semelhante ao das atuais
acusações. Ele foi condenado no ano passado pelo
crime de apropriação indébita por não
ter repassado à Previdência Social, no período
em que era reitor, valores descontados dos salários de seus
funcionários. Inicialmente sua pena foi de três anos
de reclusão e 580 dias de multa (equivalente a um terço
do salário mínimo vigente ao dia). O ex-reitor conseguiu
a substituição da pena original por uma mais branda,
porém a Justiça manteve a restrição
de direitos e a multa. Atualmente, o ex- reitor cumpre pena alternativa
prestando serviços à comunidade em uma entidade beneficente
de Bagé. As informações são da Justiça
Federal do RS, em Bagé, confirmadas pela vara de execuções.
A nova denúncia foi apresentada em 30 de março deste
ano pelo promotor estadual André Borba. Segundo foi apurado
pelo MP, o ex-reitor teria feito sucessivos adiantamentos salariais
para si próprio e pagamentos de despesas pessoais, que totalizam
R$ 843 mil em valores corrigidos. As retiradas teriam ocorrido
entre 1995 e 2004. “O MP partiu de informações
repassadas pela fiscalização da Previdência
Social, que constatou estas retiradas durante uma fiscalização
na instituição. Posteriormente foi enviado um relatórioà Promotoria e a partir disso foi instaurado um inquérito
civil, seguido de um processo criminal. Conforme Borba, a pena
para esse tipo de crime é de 1 a 4 anos, “mas nesse
caso foram várias apropriações efetuadas de
forma sucessiva e sistemática. Além disso, a sentença
dependerá do juiz caso haja um julgamento futuro”.
Consta em levantamentos da Urcamp que, somente no mês de
junho de 2001, foram retirados pelo ex-reitor R$ 38.767,12. Destes,
R$ 26 mil teriam sido sacados de uma só vez dos caixas da
Universidade. Curiosamente, nesse período, os professores
estavam com seus salários atrasados em mais de três
meses, e a alegação do reitor, na ocasião,
era falta de receita.
Perguntado por nossa reportagem sobre o assunto, Morvan Ferrugem
restringiu-se a dizer que não sabia nada sobre o caso e
que sequer teria um advogado para tratar do assunto, uma vez que
não teria sido informado tampou-co notificado pela Justiça.
Comentou apenas que a ação trabalhista de meio milhão
de reais que move contra a Urcamp estaria em fase de perícia
técnica.
Polêmica na imprensa local
Uma polêmica na imprensa local marcou as vésperas
do interrogatório que não houve. Tão logo
foi publicada matéria sobre o assunto no Jornal Correio
do Sul, de Bagé, no dia 26 de junho, o ex-reitor emitiu
nota pública em que se dizia triste pela situação. “Fiz
muito por Bagé, pela região, pela população”,
disse ao Jornal. Alegou também que o promotor faltou com
a verdade em relação aos fatos, contrapôs os
argumentos apresentados por Borba e diz que saiu da direção
da Fundação Áttila Taborda (FAT) porque não
agüentava o ódio que alguns administradores passaram
a devotar-lhe. O ex-presidente da FAT disse ainda que, além
de uma ação anterior, está ajuizando outras
duas ações contra a Fundação.
Na mesma nota, Morvan afirma que o promotor André Borba
teria faltado com a verdade e que estava querendo “aparecer”.
Além disso, acusou o juiz Edon Franco de não ter
lido a denúncia ao expedir o mandado para seu interrogatório.
O promotor, por sua vez, emitiu nota lamentando as afirmações
de Morvan e destacou que a atuação do MP se “baseia
na isenção e independência funcional”,
e cravou: “Ataques pessoais não apagam crimes, tampouco
repõem recursos mal-havidos”.
O promotor considerou previsível a atitude de Morvan diante
das acusações. Depois foi a vez do juiz Edon Franco
pedir o afastamento do processo, alegando ter se sentido profundamente
ofendido por Morvan e que estaria providenciando medidas de responsabilização
criminal contra o ex-reitor e justamente por isso estaria impedido
de atuar no processo.
Morvan processa advogados da Urcamp
Conforme os advogados Valdir Gomes e Sérgio Luiz de Castilhos,
que prestam assistência à Urcamp neste caso e representam
a Universidade na defesa da causa trabalhista movida por Morvan,
trabalha-se para tentar assegurar que, ao final destes processos,
sejam restituídos à instituição os
valores que, segundo as investigações do Inquérito
Civil, lhe foram retirados, com a responsabilização
legal de quem tenha praticado atos indevidos para este fim. Isto
inclusive foi objeto de um Termo de Ajustamento de Conduta com
a FAT, para que fossem adotadas as medidas judiciais próprias
neste sentido, de modo que nos cabe o acompanhamento dos processos
que tratam daqueles cuja prova tem conexão com estes fatos.
O ajustamento de conduta foi solicitado pelo MP e impede qualquer
tipo de acordo entre as partes sem anuência da promotoria.
Os advogados defendem a atuação do MP. “Nós
temos acompanhado todos os encaminhamentos processuais desse
caso, por sermos procuradores da FAT/Urcamp nesta questão,
e temos certeza de que o Ministério Público está agindo
no estrito cumprimento dos seus deveres legais, e não
como tem afirmado o prof. Morvan Ferrugem. O MP ofereceu sua
denúncia exclusivamente de acordo com as provas documentais
existentes sobre os fatos denunciados. O mesmo também
pode ser dito em relação ao magistrado que recebeu
a denúncia, Dr. Marcos Danilo Edon Franco.” Para
os advogados, essa é uma estratégia de defesa do
ex-reitor e uma forma de se justificar para a sociedade. “Prof.
Morvan ajuizou uma ação trabalhista, onde alega
o descumprimento do seu contrato de trabalho, decorrente da redução
do valor do seu salário e dos atrasos dos seus pagamentos.
No entanto, a redução salarial ocorreu porque ele
deixou de exercer o mandato de reitor, que tinha uma função
gratificada, no início da sua gestão, e os atrasos
salariais foram causados por ele, pois também ocorreram
na sua gestão, nos últimos seis anos”, explicam.
Eles acrescentam que, diante disso, a Urcamp se viu obrigada
a se defender e a promover a cobrança do reembolso dos
valores que o Ministério Público entendeu devidos.
Para pedir judicialmente a devolução, na esteira
da investigação ministerial, foi feita alegação
referente aos valores retirados, para serem reembolsados, e foram
obtidos os documentos comprobatórios correspondentes,
em procedimentos referentes à gestão da FAT/Urcamp,
pelo prof. Morvan.
O ex-reitor ingressou com queixa crime contra os advogados representantes
da FAT/Urcamp, alegando ter sido caluniado e vítima de
quebra de sigilo de documentos. Porém, os advogados alegam
que os documentos em questão versam sobre atos de gestão
da própria instituição contra a qual move
processo trabalhista.
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