Se a abertura possibilitou a
diversificação da oferta, ela também trouxe,
a partir de 2003, mudanças no ritmo do crescimento. Mesmo
em expansão, o setor começa a dar sinais de desaceleração.
Dados do Relatório Brasil apontam redução
do número de matrículas entre 2003 e 2004. De acordo
com o estudo, havia, em 2004, 2.985.405 alunos matriculados nas
instituições privadas. Em relação a
2003, o acréscimo foi de 8,5%, inferior à taxa média
de expansão verificada entre 1999 e 2003, de 15,6%. Para
Salomão Quadros, os índices estão longe de
indicar uma crise. “No setor econômico, é natural
que aconteça uma desaceleração, principalmente
no segmento que apresenta esse desempenho.” Ele avalia que
o mercado tem potencial para crescer 15%.
Outro dado que demonstra redução na velocidade do
crescimento são as vagas ociosas. Em 2004, das 2.320.421
vagas disponíveis no país, 1.303.110 foram preenchidas,
mas 48% do total permaneceram ociosas, conforme o INEP. Segundo
Ney José Lazzari, reitor da Univates, essa ociosidade pode
ser decorrente da expansão física abalizada no momento
do pico. Outra questão que ele aponta é a crise econômica.
E dados de 2004 do IBGE mostram que, no mesmo período em
que aumentava o número de instituições, a
renda do trabalhador estava em queda. Naquele ano, o rendimento
médio dos trabalhadores foi de R$ 733, mantendo a perda
real de 18,8% em relação a 1996, quando a remuneração
alcançou R$ 903, seu ponto máximo desde o início
da década de 1990.
A Reforma Universitária, que está tramitando no Congresso, é outra
mudança prevista. “Ela trabalha na perspectiva do
fortalecimento da educação como um bem público,
impedindo a mercantilização”, pontua Mário
Pederneiras, da Sesu. O consenso será construído
a duras. Para Jaime Giolo, do Inep, no que se refere às
instituições privadas, o projeto mantém exigências
desiguais entre as universidades e faculdades, sendo que as últimas
têm mais agilidade para operar, podendo restringir seu quadro
a professores graduados e especialistas e montar estruturas mais
baratas.
Com apenas 10,4% dos jovens entre 18 a 24 anos cursando o terceiro
grau, como apontam estatísticas do MEC, o financiamento
dos alunos é um dos entraves. A novidade é o ProUni.
Em 2005 e 2006, 250.943 estudantes receberam o benefício
no país. No RS, foram contemplados 19.959. Mas o tema também
está longe de ser unanimidade. O reitor na Unisc, Valmir
Thomé, afirma que o ProUni não representou mais recursos
para as universidades comunitárias. “É um programa
fantástico de inclusão social, mas não gera
rendimentos.”
Tipos de instituições
de Educação Superior
1. Instituições Universitárias
Podem ser públicas ou privadas. Elas oferecem
cursos de graduação, pós-graduação
lato sensu e stricto sensu (mestrado e doutorado).
Mais do que a formação na graduação,
as universidades oferecem pesquisa e extensão
(programas que devem ser desenvolvidos para e com
a comunidade). As privadas dividem-se em fins lucrativos
e sem fins lucrativos, sendo que estas últimas
podem ser:
a) Comunitárias – Instituídas
por grupos de pessoas físicas ou por uma
ou mais pessoas jurídicas, inclusive cooperativas
de professores e alunos que incluam, na sua entidade
mantenedora, representantes da comunidade.
b) Confessionais – Instituídas por
grupos de pessoas físicas ou por uma ou
mais pessoas jurídicas que atendam às
orientações confessional e ideológica
específicas.
c) Filantrópicas – São as instituições
de educação ou de assistência
social que prestem os serviços para os quais
foram instituídas e os coloquem à disposição
da população em geral, em caráter
complementar às atividades do Estado, sem
qualquer remuneração. Corpo docente: Deve ter um terço composto
por doutores ou mestres e 30% dos professores devem
trabalhar em regime integral. Autonomia: Plena. Não precisam de autorização
do MEC para criar novos cursos, sedes, aumentar
ou diminuir o número de vagas, fechar cursos,
expedir diplomas.
Centros Universitários
Ofertam cursos de graduação, pós-graduação
lato sensu e stricto sensu (mestrado e doutorado).
Elas não precisam investir em pesquisa,
nem em programas de extensão e não
são obrigadas a oferecer pós-graduação
stricto sensu (mestrado e doutorado). Corpo docente: 1/5 deve ter título de doutor
ou mestre e 25% devem trabalhar em turno integral. Autonomia: Têm autonomia restrita à sua
sede, onde podem criar, organizar e extinguir cursos
e programas de Educação Superior.
2.
Instituições não-universitárias
Diferente das universidades, nessas instituições
não há desenvolvimento de pesquisa
e nem de programas de extensão e não
precisam oferecer pós-graduação
stricto sensu. Outra diferença é em
relação à autonomia: qualquer
ampliação na grade de oferta de cursos
deve ser autorizada pelo MEC.
Faculdades Integradas
Devem oferecer cursos em vários níveis
sendo eles de graduação, cursos seqüenciais
e de especialização e programas de
pós-graduação (mestrado e
doutorado). Elas podem ser:
Faculdades Isoladas
Podem oferecer cursos de graduação,
cursos seqüenciais e de especialização
e programas de pós-graduação
(mestrado e doutorado) em uma ou mais áreas
de conhecimento. Corpo docente: Não têm exigências
de titulação.
Institutos Superiores de Educação
Podem oferecer cursos de graduação,
cursos seqüenciais e de especialização,
extensão e programas de pós-graduação
(mestrado e doutorado) em mais de uma área
de conhecimento. Corpo docente: Não têm exigências
de titulação.
Centros Federais de Educação Tecnológica
(Cefets) e os Centros de Educação
Tecnológica (CETs)
Ofertam cursos superiores de educação
tecnológica para os diversos setores da
economia e realizam pesquisa e desenvolvimento
tecnológico de novos processos, produtos
e serviços. Corpo docente: Não têm exigências
de titulação.
Crise nas universidades
O aumento desenfreado da concorrência, inadimplência,
exigências mais rigorosas em relação ao quadro
de pessoal e necessidade de investimentos em pesquisa e extensão
e em equipamentos são fatores levantados para a crise
das universidades. Para Paula Caleffi, da Unisinos, diferente
dos centros universitários e faculdades, as universidades
têm exigências maiores no que se refere ao elevado
percentual de doutores e mestres. Além disso, elas precisam
realizar projetos de extensão destinados à comunidade.
Fatores que aumentam os custos da gestão.
Gilmar Bedin, presidente da Comung, avalia que as universidades
atravessam um período difícil, tendo que se adaptar
a um novo cenário, onde há maior concorrência
com as pequenas instituições, inclusive com o crescimento
da Educação a Distância (EaD). “Um
dos movimentos que as universidades estão fazendo é investir
na abertura de cursos de tecnólogos.” Outra questão
que ele levanta é a crise econômica. “As dificuldades
no setor agrícola também refletem.” Longe
de imaginar um processo de declínio, Bedin acredita que
a regulação e o reforço aos sistemas tradicionais
de crédito educativo são medidas importantes.
Já para Sérgio Franco, presidente da Conaes, as
universidades estão em dificuldade. Segundo ele, embora
ainda haja expansão de vagas, um dado gritante é o
poder aquisitivo. “Esse processo incorporou alunos com
renda mais baixa que têm problemas para pagar”, diz
Franco, acrescentado que ampliar o leque com ofertas de cursos
de tecnólogos e EaD são alternativas para se adaptar
ao novo panorama. “É preciso diversificar a atuação
até que o processo de regulação comece a
funcionar.”
Na contramão da tendência de retração
das universidades, os centros universitários planejam
a expansão. É o caso da Unilasalle, que estabeleceu
a meta de transformar-se em universidade, segundo Vera Lucia
Ramirez, pró-reitora acadêmica. “Estamos reforçando
o número de cursos de graduação e a consolidação
da pesquisa e extensão.” Mesmo sem crescimento de
matrículas, o estabelecimento investe em novos prédios
para a área da saúde e prevê a construção
da nova biblioteca. Autonomia e possibilidade de desenvolvimento
da pesquisa são o combustível do novo desafio.
Ney José Lazzari, reitor do centro universitário
Univates, revela que o projeto é se transformar em universidade
em 2012. “O status de ser uma universidade pesa positivamente
no mercado.” Diferente das demais, a Univates continua
em expansão. Nos últimos dez anos, o número
de alunos pulou de 1,2 mil para 9 mil. Enquanto a inadimplência
na maioria das instituições chega a 20% conforme
a Comung, na Univates não passa de 3%, diz Lazzari. Segundo
ele, o bom desempenho se explica pela atividade econômica
da região, que é de produção de alimentos,
e pelas poucas opções de instituições.
O reitor atribui a crise nas universidades à ampliação
e à conjuntura econômica. “Foram feitos altos
investimentos em obras e muitas recorreram a empréstimos
do BNDES. Agora chegou o momento de pagar a conta.”
EaD. o segundo degrau da expansão
Os números comprovam que o segmento de Educação
a Distância também vivencia um boom tão significativo
quanto o das instituições presenciais, podendo
ser considerado um segundo degrau de expansão da Educação
Superior. De acordo com o Anuário Brasileiro Estatístico
de Educação Aberta e a Distância 2006, entre
2004 e 2005 o número de alunos quase dobrou, passando
de 159.366 para 300.826. E a tendência é de expansão
ainda maior para o setor. A partir deste ano, as instituições
de EaD também podem ofertar mestrados e doutorados. O
crescimento também vem sendo estimulado pelo setor público
com o Programa Universidade Aberta, do MEC, cuja meta é incluir
100 mil alunos na Educação Superior a Distância
a partir de 2007.
O fato preocupante é que, como nas presenciais, brechas
na legislação e a carência de fiscalização
têm propiciado a atuação, em todo o território,
de instituições com idoneidade duvidosa. A permissão
para os estabelecimentos credenciados fazer parcerias em outros
estados aumenta o raio de atuação na mesma proporção
em que facilita o funcionamento dos que têm intuito meramente
mercantilista, sem preocupação em oferecer infra-estrutura
básica, como biblioteca e computadores. A reportagem “EaD
fora de controle”, publicada na edição
de janeiro do Extra Classe
denunciou o caso de uma instituição de Porto Alegre
que, em uma única sala, sem divisória, onde também
funcionava o setor de vendas e a secretaria, ministrava cinco
cursos de graduação e 10 de pós. Detalhe:
os cursos eram reconhecidos e o estabelecimento cre-denciado
pelo MEC.
Waldomiro Loyolla, diretor científico da Associação
Brasileira de Educação a Distância (Abed),
acredita que a possibilidade de ofertar mestrados e doutorados
vai aumentar a demanda e a oferta. Mas alerta que é necessário
agilidade da Coordenação de Aperfeiçoamento
de Pessoal de Nível Superior (Capes) para ditar as normas
para a criação desses cursos. O prazo estipulado
era 20 de junho, mas até o final do mês a resolução
ainda não tinha sido publicada. “Isso pode trazer
transtornos e não impedirá que as instituições
comecem a ofertar os cursos”, pondera Loyolla.
Desaceleração afeta docentes
Se as situações
de desempenho financeiro
das instituições
são diferentes, no
que diz respeito à política
salarial, elas parecem caminhar
na mesma direção.
Em nome de ajustes necessários,
os docentes foram os primeiros
a entrar na fila. Somente
de dezembro de 2005 a junho
deste ano, foram demitidos
973 professores. Em nome
da crise, estão sendo
projetadas medidas como a
reformulação
nos planos de carreira, prevendo
equiparação
de salários, com cortes
para os que têm doutorado
e mestrado. Além disso,
está havendo redução
de carga horária e
não estão sendo
pagos os avanços e
nem o aprimoramento acadêmico.
Independente de crise, tanto
os centros universitários
quanto as universidades estão
implementando modificações
no plano de carreira. “Com
certeza terão mudanças
na política de salário.
A realidade em que se contratava
um doutor hoje não é mesma.
A tendência é diminuir
o salário”,
pontua Ney Lazzari. Na Unisinos
está sendo discutida
a reformulação
do plano de carreira, medidas
estudadas também na
Unilasalle e na Unisc, onde
há debate sobre equiparação
de salários.
A corrida pela titulação
para que as instituições
se adequassem às exigências
da LDBEN, que estipulava
o prazo até final
de 2006 para cumprimento
das normas, estimulou os
professores na busca do aprimoramento
e fez aumentar consideravelmente
o número de mestres
e doutores. No entanto, há situações
de professores optando por
não apresentar a titulação
por receio de uma demissão,
como revela um docente que
pediu para não ser
identificado.
Marcos Fuhr, diretor do Sinpro/RS,
pontua que essa realidade
não pode ser, de modo
simplista, transferida para
os professores na forma de
arrocho salarial ou frustração
de uma perspectiva de carreira
profissional. “Os docentes
investiram na sua qualificação
e não é aceitável
a recente tentativa do Sinepe/RS
de não repor a inflação
aos salários da categoria”,
ressalta. Ainda, segundo
ele, foram as grandes universidades
que lideraram o Sinepe/RS
na negociação
coletiva deste ano. O dirigente
ressalta que o Sinpro/RS
considera fundamental a legalização
dos planos de carreira através
de acordos coletivos das
instituições
com o Sindicato dos Professores,
permitindo desta forma sua
revisão periódica. “É fundamental
que as instituições
garantam a perspectiva de
carreira a partir da qualificação
dos docentes, porque isso
influencia diretamente na
qualidade do ensino”,
avalia Fuhr.
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