
A pausa das palavras

ltivo
e altaneiro, o alfabeto alojou-se nas almofadas e ali, de alpercatas,
alumiou a alameda:
–
Alguém aí almeja aliterar alegremente?
Palradoras e parladeiras, as palavras propuseram um porém.
Pleiteavam, primeiro, as prerrogativas das provocações:
–
Peraí, pessoal, podemos prosear perigosamente ou parodiar
prolongadamente.
As letras, letradas e literais, ligaram-se livremente:
–
Legal! Logo levaremos o louvor da lavra, as láureas e loas!
Os termos, que trocavam truques truncados e tontos de tantos trocadilhos,
tremiam de torpe torpor torpedeando a trupe. Tripudiavam o torneio,
todos tentados a ter o troféu:
–
Tão tá. Teremos da tolice à tagarelice total,
do tête-à-tête à trela trivial.
As sílabas, sibilinas, silvaram sinônimos e suaves
sutilezas, sempre sossegadas na selva de sentenças. Sábias
e soberbas, salientaram:
–
Será simples sair soprando sonoros sons...
Veementes, os verbetes vociferaram:
–
Vamos variar a verbalização!
Os fonemas, falantes e falastrões, formaram frases fantásticas,
falácias floreadas e finas firulas.
Algazarra e algaravia, além de alentadas, alardearam em
aluvião:
–
Alinhadas ou alteradas, alcançaremos o alarido!
Os termos torciam-se em tremendas trovas e tonitruantes textos.
Soou a sofisticação silábica, sedutora, sem
sequer sensibilizar simpatizantes.
O palavreado se pronunciou:
–
Parece patente a pobreza dos principais participantes. Peço
o prêmio para a própria proeza particular.
Ferozes, os fonemas finalmente falaram francamente:
–
Fiquem firme, façam fila, o fraseado fica na frente.
Ora lerdas ora lépidas, as letrinhas loquazes largaram-se
no lazer lúdico, uma lufa-lufa no lero-lero leviano. Liam
lívidos livros, loucos letreiros, letárgicas lápides.
Vigorosamente, verbetes valendo-se da verborragia vaiavam os vizinhos.
Os termos, teimosos e tranqüilos, trinavam:
–
Teremos típicas tertúlias, tópicos tradicionais,
tergiversações tediosas, talvez truculências.
Pensando no poder da persuasão, palavras prolixas proferiam
preâmbulos patéticos, pronunciamentos proféticos,
palestras pernósticas, profusão de pensamentos paulatinos.
Férteis na forma e feitio, fonemas festejavam, fazendo farra
frasística.
Letras litigantes e lampeiras lustravam lendas laudatórias
e legendas lógicas em luminosas lousas.
As sílabas, sobejamente sintéticas, soletravam sinais
simétricos, sussurrantes sumários.
Alheio às aleatórias aliterações alhures,
o alfabeto alertou:
–
Alegorias alucinadas.
Finalmente, os fonemas finalizaram:
–
Fim!
