Em pauta,
a pobreza
Montreal, sede do Grande Prêmio de Fórmula 1 do Canadá e
de um festival internacional de jazz, cidade que tem um shopping
subterrâneo para a população enfrentar o frio
do inverno, foi palco de um encontro sui generis sobre pobreza.
A 11ª Conferência da Rede Internacional de Pu-blicações
de Rua (INSP – International Network of Street Papers), realizada
de 8 a 10 de junho, reuniu jornalistas, ex-moradores de rua, psicólogos,
artistas, sociólogos e tra-balhadores sociais para discutir
alternativas a milhares de pessoas em todo o mundo excluídas
do direito à moradia, à saúde, à educação
e ao respeito da sociedade em geral.
Por Clarinha Glock*
especial do Canadá
O encontro mostrou que a desigualdade social não tem fronteiras
e o título de “país desenvolvido” não é garantia
de bem-estar para todos. Estavam lá representantes de revistas
e jornais vendidos por pessoas em situação de rua
ou de pobreza dos mais diferentes lugares, desde Namíbia,
Macedônia até Escócia, Estados Unidos, Áustria,
Inglaterra, Holanda, Itália, Suíça, Argentina.
Do Brasil, participaram os integrantes da revista Ocas, que circula
em São Paulo e no Rio de Janeiro, e do jornal Boca de Rua,
de Porto Alegre.
No Brasil, a rua é uma opção desde muito cedo – crianças
com menos de 10 anos saem de casa fugindo da violência e
do abuso sexual. Em São Paulo, estatísticas indicam
que os migrantes também contabilizam uma boa parte dos moradores
de rua. Mas, na maioria dos países ricos, geralmente é o
desemprego que faz jovens e adultos perderem casa, família,
dignidade.
Tudo é pobreza, a diferença é a forma como
ela se apresenta. Em São Paulo e em Porto Alegre, os representantes
da Ocas e do Boca de Rua articulam a participação
do povo da rua com as políticas públicas na forma
de seminários e fazem denúncias freqüentes de
violação aos direitos humanos. Ainda lutam para conseguir
se auto-sustentar e sobrevivem com a ajuda de voluntários
e algumas entidades. Na Alemanha, o processo está mais adiantado.
Os vendedores da revista Biss contam com um sistema de moradia
popular e 35 deles são empregados efetivamente da própria
revista, com contrato e todos os direitos trabalhistas e de aposentadoria
garantidos.
“São os vendedores o objetivo maior da revista. É neles
que devemos pensar”, explicou Hildegard Denninger, da Biss.
A
revista oferece aos jovens uma espécie de ponte para que
possam retomar suas vidas e conseguir um emprego. A venda sob contrato
fica reservada para os mais velhos, que têm dificuldade de
conseguir outro trabalho.
Na Biss não se pensa em recuperar a dignidade apenas em
vida, mas até na morte. Doadores contribuem para um fundo
que permite comprar flores, pagar a sepultura e render homenagens
aos vendedores que morrerem. Através de seus doadores, a
Biss contribui também com outras publicações
da rede, como o Boca de Rua, que mantém assim um projeto
de comunicação com crianças e adolescentes.
No Japão, a situação é mais preocupante,
conta Miku Sano, da revista The Big Issue Japan, criada em setembro
de 2003. As estatísticas apontam para 8 mil sem-teto em
Osaka e cerca de 25 mil em todo o país, onde começa
a preocupar a prostituição de adolescentes. A maior
parte dos japoneses se tornou sem-teto porque perdeu o emprego
devido à recessão econômica. O governo do Japão
reconheceu oficialmente os moradores de rua como um problema social
e aprovou uma lei em 2002 para dar suporte, mas não houve
grandes avanços, a não ser em iniciativas locais
paliativas. Em junho, o governo de Tóquio ofereceu ajuda
de três anos de moradia aos sem-teto para tirá-los
dos parques próximos à área metropolitana,
e 1.190 pessoas foram alojadas em apartamentos.
INDIFERENÇA – “O principal obstáculo
que separa os países ricos e os pobres é a indiferença”,
acredita Miku. Por isso, um dos objetivos da revista é chamar
a atenção sobre o problema social que vive o Japão.
The Big Issue Japan tem 150 vendedores, cuja média de idade é 54
anos. Como acontece com outras publicações integrantes
da INSP, ela funciona como um projeto de geração
de renda e é um passo para a reconquista da auto-estima
e da esperança para quem perdeu tudo ou quase tudo.
Jo Rogge, diretora da The Big Issue Namíbia, lembra que
a sua revista é também uma referência para
que a população em situação de rua
tenha acesso a outros serviços. The Big Issue Namíbia
existe desde 2002, tem 40 vendedores e tiragem de 3 mil exemplares.
Há cerca de 400 pessoas em situação de rua
na Capital, Windhoek. “A ajuda dos países ricos enviada à África
não chega à população”, observa
Jo. “Existem 250 mil órfãos da Aids/HIV nas
comunidades pobres”, calcula. Na Namíbia, cada vez
mais crianças vão para as ruas por causa da pobreza,
do desemprego e do HIV/Aids. Os pais não podem pagar por
uma escola e muitas famílias têm problemas com o consumo
de álcool.
ÁFRICA – Em Cape Town, na África do Sul, a situação é semelhante. “Muitos
não têm outra chance, vão para as ruas porque
perderam seu emprego”, observa Richard Ishmail, da revista
The Big Issue South Africa. Entre os vendedores, há desde
adolescentes de 16 anos até veteranos de 75 anos. O país,
que vai sediar de 24 a 30 de setembro deste ano o Campeonato Mundial
de Futebol dos Sem-Teto (veja mais em
http://www.streetsoccer.org/),
está apostando no interesse da mídia no evento para
chamar a atenção sobre a falta de chances para quem
vive nas ruas.
Criatividade é a principal arma
Na batalha contra a pobreza, a criatividade é a principal
arma. A revista L’Itinéraire, de Montreal, tem um
grupo de jovens produzindo uma espécie de “vídeo-revista” sobre
arte e temas sociais. A “Mag DVD” (magazine DVD) será vendida
da mesma forma que as demais publicações de rua,
com o objetivo de incentivar a inclusão destes jovens na
sociedade. A primeira edição, chamada “Third
eye to see things differently” (O terceiro olho para ver
as coisas de forma diferente), vai ser lançada no final
de agosto.
Os vendedores da L’Itinéraire têm, em média,
entre 35 e 55 anos. Serge Lareult, um dos responsáveis pelo
projeto, explica que muitos vão para a rua porque usam drogas,
têm dificuldade de se manter no emprego, são excluídos
pelo resto da população, ou acabam desenvolvendo
alguma doença mental. Além disso, os aluguéis
são muito caros na cidade. Em Montreal há pelo menos
18 mil pessoas em situação de rua, das quais 5 mil
com menos de 30 anos de idade. “A cada ano há mais
jovens nas ruas”, informa. Eles começam a sair de
casa aos 15 anos de idade. Cerca de 50% não concluem o ensino
secundário e não conseguem uma colocação
no mercado de trabalho. “São jovens destruídos
por dentro, sem objetivo na vida nem esperança no futuro”,
diz Lareult.
O que é a INSP
A Rede Internacional de Publicações
de Rua (International Network of Street Papers – INSP)
reúne jornais e revistas vendidos nas ruas por
pessoas sem casa, excluídas ou marginalizadas.
O dinheiro da venda reverte para os vendedores e o trabalho é uma
oportunidade de reinserção na sociedade.
A partir da união com a Associação
Norte-Americana de Publicações de Rua (North
American Street Newspaper Association), este ano, a rede
totaliza mais de 80 publicações em 28 países,
com uma circulação anual de aproximadamente
35 milhões de exemplares.
A rede mantém um serviço de notícias
que permite o intercâmbio de reportagens e fotos
entre as publicações. E tem uma preocupação
política de se fazer ouvir: quando, em agosto
de 2004, sete moradores de rua foram assassinados em
São Paulo, a INSP ajudou a denunciar o fato em
nível mundial. |
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