
O mistério do interregno

gora começa a fase forense. A fase em que se examina os vestígios
do desastre atrás da sua causa, se peneira as cinzas tentando
identificar a origem do incêndio, se busca impressões
digitais e pistas que incriminem um culpado. Enfim, se procura uma
explicação e se prepara um julgamento.
Se fosse uma história policial, um bom título seria “O
mistério do interregno”. Pois o que está exigindo
elucidação, acima de qualquer outra coisa, é o
que aconteceu no período entre a vitória brasileira
na Copa das Confederações e a derrota brasileira na
Copa do Mundo. Entre o evento que criou todas as expectativas de
um sucesso brasileiro na Copa e o evento que frustrou estas expectativas
e deprimiu uma nação inteira. O que foi que aconteceu?
Os times de um evento e do outro eram mais ou menos os mesmos. Ninguém
envelheceu mais do que os poucos meses que se passaram entre um torneio
e outro. Ninguém teve problemas físicos ou psíquicos,
que se saiba, que justificasse a mudança entre os que jogaram
então e jogaram agora. O técnico e a comissão
técnica eram os mesmos. Não há notícia
de uma reversão do pólo magnético da Terra no
período, o que poderia explicar o desaparecimento do futebol
de uma hora para outra. O que foi então?
As investigações devem se concentrar no interregno.
O que aconteceu, aconteceu no interregno. Foi no interregno que os
brilhantes perderam o brilho e o quadrado perdeu a mágica.
A derrota na Copa nasceu e se criou no interregno – é preciso
agora destrinchar o seu DNA.
O interregno, de certa forma, absolve o Parreira. Depois do que jogou
na Copa das Confederações, ele seria louco de mudar
o time? Como ele iria adivinhar que algo sombrio e indefinível
aconteceria com o time no interregno, e o time não era mais
o mesmo? Mas, outro mistério: se Parreira reconheceu os estragos
feitos pelo interregno e mudou o time, por que voltou atrás
depois da vitória sobre o Japão e escalou o time amaldiçoado
pelo interregno? Talvez o interregno o tenha amaldiçoado também.
Investigue-se o interregno. A própria palavra já é intrincada
e feia, sugerindo coisas subterrâneas e obscuras. A solução
do mistério está no interregno.
