LIVRO
Sobre
perdas, humor e andorinhas
Por José Weis

m
seu mais recente livro, Adeus às andorinhas
(Editora AGE, 190 páginas R$
32,00), o poeta, ensaísta e professor
Armindo Trevisan divide com seus leitores
lições de poesia. Este é o primeiro livro
de
poemas nestes últimos quatro anos. Ele diz que
passou por um período em que achou que não
iria mais escrever. “Mas, de repente, como a
poesia depende fundamentalmente de um gatilho
emocional, comecei a me perguntar: o
que estamos fazendo neste mundo”?, questiona.
A morte da avó de uma amiga da neta
dele, confidencia, foi o episódio que desencadeou
o estado emocional para voltar a escrever.
Adeus às andorinhas também representa
uma renovação na própria poética de
Armindo
Trevisan. São poemas que alternam lirismo,
humor, cotidiano, e uma transcendência de
quem tem fé. “É uma coisa séria. Não é banal
nem literariamente defeituosa”, vai descrevendo
o ex-patrono da Feira do Livro de Porto
Alegre. Ele diz que esse é um livro que exige “um
outro tipo de reflexão”, pois trata das
perdas. Da memória, de pessoas queridas. “E é
também um livro sobre o amor”.
Professor aposentado de História da Arte
e Estética, no Instituto de Artes, da Ufrgs, o
autor fala sobre o que tem observado no universo
dos livros e dos leitores, na tevê, na
internet. E confessa que está preocupado com
o “analfabetismo cultural” decorrente do “analfabetismo
funcional” (como são enquadradas
as pessoas que lêem sem compreender
o que está escrito). Armindo atribui essa
disfunção, no plano da cultura em geral, ao
excesso de informação proporcionado especialmente
pela Internet.
Ao mesmo tempo em que se tem acesso
irrestrito a todo tipo de informação, “há uma
diminuição de leitores qualificados. O poeta
se sente numa diáspora, numa espécie de exílio”,
desabafa. Outra contradição que o autor
percebe é a falta de incentivo à leitura. “Hoje
em dia, quem é que lê um poema com
clareza, com dicção? Uma frase é uma entidade
viva...”, repara.
COTIDIANO – Neste seu novo trabalho,
desde as epígrafes – que vão de William
Shakespeare a Manuel Bandeira –, percebe-se uma aproximação
com o cotidiano,
onde o autor “explora o caminho difícil da
linguagem coloquial”, conforme escreve Ivo
Barroso na apresentação. É o caso de Cesta
Básica, um das partes do livro. Ainda há um
espaço para “os amantes e loucos têm mentes
tão febris” (Shakespeare), em Amores,
Amores, que aparece como “uma profunda
crítica às relações amorosas atuais”.
Isso sem
deixar de lado o humor. “A diferença entre o
humor e ironia é que esta adota um ar superior
e crítico. Tu julgas o outro. E, no humor,
não. Tu te incluis dentro, quer dizer, estamos
todos nessa, o que vamos fazer”?, faz questão
de explicar.
É
com o recurso do humor que a poesia
em Adeus às andorinhas toma o leitor pela mão
e o leva ao encontro de grandes questões. A
celebração do amor, da arte, do vinho ou dos
cafés, aos amigos e às perdas, como no caso
de dois belos poemas do livro: Requiem por
meu pai e Despedida. O próximo livro de
Armindo Trevisan, Vamos Aprender Poesia?,
será lançado no início de setembro, às
vésperas
de seu 75° aniversário e no mês em que
o autor completa quatro décadas de uma carreira
literária que se afirmou no terreno do
ensaio e da poesia.
Mais Cultura:
LIVROS/LANÇAMENTOS
Quadrinhos
- Rango - Edgar Vasques