JOSÉ MIGUEL WISNIK
Futebol,
prosa e poesia
José Miguel Wisnik nasceu em 1948, em São Vicente,
no estado de São Paulo. É professor
de Literatura brasileira na Universidade de São
Paulo (USP), além de
pianista e compositor. É autor de O som e o sentido (Cia.
das Letras), Coro dos
contrários – a música em torno da semana de
22 (Duas Cidades), O nacional e
o popular na cultura brasileira – música – com Ênio
Squeff (Ed. Brasiliense).
Seu novo livro, Veneno remédio – o futebol e o Brasil
(Cia. das Letras, 446 p.) é
o primeiro de três tomos de uma trilogia que pretende analisar
a representação
do Brasil por meio de seus principais ícones culturais:
o futebol, a
música e a literatura. O professor e artista procura desfazer
o nó-cego que
separa a escola formal da cultura de massa, proporcionando um ponto
de
convergência entre ambas para tentar entender melhor o chamado “país
do
futebol”. Como músico, Wisnik colaborou no início
dos anos 80 com o
grupo Rumo e tem três discos solo, com destaque para
Pérolas aos poucos, de 2003, além de ter assinado
a direção
artística do bem-sucedido álbum Do coccix até o
pescoço,
de Elza Soares. A entrevista que segue foi concedida
com exclusividade ao Extra Classe, por telefone, na última
semana de junho, quando Wisnik adiantou que virá à capital
do estado em setembro para participar do Porto Alegre
em Cena.
Por César Fraga
Extra Classe – Em primeiro
lugar, por que um livro sobre futebol
e sua relação com a identidade
e o imaginário do brasileiro se chama
Veneno remédio?
José Miguel Wisnik – Ele faz
parte de um projeto maior em que
eu estou estudando a representação
do Brasil na literatura, na
música e no futebol, vendo como
a imagem que costumamos ter do
país oscila entre uma representação
radicalmente positiva ou radicalmente
negativa. Por um lado,
aparece como um lugar de projeto,
felicidade e alegria e solução
para os problemas humanos. Por
outro, como o beco sem saída de
uma nação que gira sempre em falso
e não vai chegar a lugar algum. É uma
espécie de gangorra imaginária
em que o Brasil é visto de uma
maneira ou de outra. Tanto podemos, às vezes,
oscilar de um lado
ou de outro lado, como tem aqueles
que escolhem seu lado para ficar.
O futebol é um tema privilegiado
para isso. A própria relação que
a torcida brasileira costuma ter
com o futebol brasileiro é a de que
ou ele vale tudo ou não vale nada.
O futebol, ao mesmo tempo em que é
uma realização brasileira para
efeito do Brasil e do mundo, também é
um sinal de que as outras
realizações não se dão. É um
sintoma
de uma não-realização. Eu
acho que o livro propõe uma análise
que permita não ficar nessa
gangorra, mas olhar essas representações
do Brasil fora dessa oscilação
permanente, que são visões
infantis entre tudo e nada.
EC – Chama a atenção no livro
que sua biografia está totalmente
ligada ao centro de interesse do
debate e, ao contrário da opção da
maioria dos intelectuais em descolar
o tema do autor, o senhor faz questão
de, já de início, estabelecer essa ligação.
O que lhe motivou essa escolha?
Wisnik – Eu fiz questão de incluir
no começo do livro um depoimento
sobre minha experiência de
infância na Ilha de São Vicente,
colada na cidade de Santos, no
estado de São Paulo, que mostra
justamente uma pessoa que cresceu
junto com o futebol. Desde o
futebol de praia, várzea e campeonatos “vicentinos” de
todas as divisões
até as estruturas profissionais
existentes em Santos, como o
Jabaquara, Portuguesa Santista e
o Santos Futebol Clube. E foi nessa é
poca que surgiu e cresceu o Santos
de Pelé, que eu acompanhei
durante todo esse período áureo.
Então eu vivi num mundo impregnado
de futebol e privilegiado.
EC – Inclusive quebrando uma
tradição familiar...
Wisnik – Pois é. Minha escolha
pelo Santos ocorreu na hora “h” da final
de um campeonato entre São Paulo e Santos. Meu pai era
são-paulino, e eu optei quase na
hora do jogo pelo Santos e acabei
sendo agraciado depois com uma
seqüência de êxitos, e pude presenciar
o grande futebol que se
jogava ali. Coloquei isso no livro porque
o analista de futebol ou de qualquer
outro assunto se coloca acima
e de fora do tema. Minha idéia neste
livro é falar de dentro e de fora.
EC – O futebol é uma língua
geral, planetária? De que forma esse
mundo futebolístico carrega o conflito
essencial da globalização?
Wisnik – O próprio Hobsbawm
em seu livro mais recente, e que
fala sobre globalização, diz que o
futebol tem essa propriedade de ter
um aspecto local e mundial. Ao
mesmo tempo que as pessoas acompanham
a vida esportiva da sua
região, também têm interesse pelo
que ocorre no resto do mundo. O
futebol pode ser visto como um
campo onde ao mesmo tempo a
globalização está presente,
descaracterizando as nações, mas é
ainda o campo onde também se
dá a representação nacional, o apelo
local. Talvez seja até o lugar no
imaginário dos povos onde as nações
mais se reconheçam representadas.
O futebol é o lugar onde se
encontram essas duas vertentes. É talvez a
atividade humana mais
dividida e mais compartilhada, tendo
essa dupla propriedade de ser
local e mundial. (NOTA DO REDATOR:
ERIC HOBSBAWM É HISTORIADOR
E O LIVRO MENCIONADO É Globalização,
democracia e terrorismo, DE
2007, PP 86-96 – CIA. DAS LETRAS).
EC – Como o império do futebol
foi conquistado pacificamente
em contraponto aos impérios
militares? Como o Brasil se beneficiou
disso?
Wisnik – Me chama a atenção
o fato de que o imaginário mundial é
dominado pelo padrão norteamericano.
A gente toma Coca-Cola, veste calça jeans, escuta
música pop, come fast-food, assiste
filmes produzidos lá. Um império
cultural e bélico. No entanto, no
esporte isso não ocorre. Isso porque
os esportes americanos mais difundidos
são muito americanos e pouco
mundiais. O grande esporte
mundial, por sua vez, não tem expressão
nos Estados Unidos. Esta é uma falha na hegemonia
dos EUA
e foi justamente aí que o futebol
brasileiro ganhou espaço, pois é reconhecido
mundialmente como
uma espécie de símbolo do futebol
em si mesmo. É um fenômeno. O
Brasil se firmou neste cenário por
meio de uma linguagem que ao
mesmo tempo é lúdica e de um
estilo simultaneamente criativo e
eficaz. Algo como se juntar a beleza
e o prazer com a eficácia e a
obtenção da vitória.
EC – Algo como prosa e poesia?
O senhor cita em seu livro um texto
de Pasolini, dos anos 70, que fala em
futebol como narrativa. Como é isso?
Wisnik – Pasolini fez uma observação
muito feliz sobre o fato de
que o futebol pode ser jogado em
diferentes estilos como se fossem gêneros
literários. Ele vê o futebol europeu
como sendo prosa: mais articulado,
linear, de cruzamentos e
conclusão. Enquanto o futebol brasileiro
e sul-americano, ele considerava
mais poético, o que eu vejo
como não-linear: com dribles, passes
de curva, corta-luzes e menos
previsível. Um modo de jogar com
espaço para criação em ato, com
uso do improviso para buscar atalhos
inesperados, inventando gols
do nada a partir de lances criativos.
Esse estilo marcou o futebol
brasileiro principalmente entre os
anos 50 e 70. Além de Pasolini,
Hobsbawm também afirma que nesse
período tudo que era cultura de
massa era americano ou provinciano
e que só o futebol brasileiro era
uma coisa realmente artística, que
não era americana e nem provinciana.
Por isso se fala que esse império
foi conquistado sem que tenha
sido disparado nenhum tiro, apenas
na base da gratuidade e da
ludicidade.
EC – Como vê o futebol brasileiro
nos dias de hoje?
Wisnik – Da copa de 1998 para
cá, já fica bem mais evidenciado o
papel da publicidade, das empresas,
da capitalização do jogo. Dentro
do campo também há uma ênfase
na parte atlética, na ocupação
exaustiva dos espaços. Atualmente
um atleta precisa correr 30 quilômetros
a mais do que corria até a
década de 70 para dar conta dos
modernos esquemas táticos. Isso de
certa forma tomou o lugar dessa
relação poesia e prosa. A rigor, agora é
o império da prosa que rege. Até na
recente Eurocopa, inclusive, apresentou-se belo futebol em prosa.
Até porque prosa ou poesia não
são juízos de valor, mas maneiras de
definir as diferentes maneiras de
jogar. Já o futebol da poesia vive de
relances, de instantes. O que eu
acho é que o Brasil continuou produzindo
craques que representam
essa tradição. Porém, o futebol do
Brasil anda desencontrado de si
mesmo, coisa que não é a primeira
vez que acontece. O livro se chama
Veneno remédio porque o futebol
brasileiro oscila entre o sucesso
e o fracasso, e muitas vezes converteu
o fracasso em sucesso. Aliás, só foi
campeão
quando veio de fracassos. Nesse sentido, o desencontro
no futebol enquanto alegoria da
realidade brasileira mostra o quanto
o país se encontra e desencontra
de si mesmo. O Parreira usou jogadores
de qualidade para fazer um
futebol estático, assim como o
Dunga está fazendo. São cabeças
ligadas a essa idéia de otimização
do rendimento, que seguem um
plano e deixam tudo parado, sem
responder a situações novas. No
futebol você tem de responder a
situações novas no microlance,
quando o jogador deve dar essa
resposta, mas também é preciso ter
respostas para as questões da
macrosituação do jogo, e isso diz
respeito ao técnico.
EC – Isso não tem paralelo também
com a questão estrutural da
organização do país enquanto sociedade?
Wisnik – Acho que sim. Aqui
as instituições são muito menores
do que a complexidade do país. O
Brasil é problemático, porém, tem
mais potencial do que as suas instituições
conseguem dar conta.
EC – O país como um todo seria
mais criativo do que a sociedade
organizada consegue dar vazão?
Wisnik – Exatamente. Eu acho
que existe um potencial de
criatividade que é refreada pela
sociedade organizada. Por exemplo.
Há grandes criações brasileiras
inequívocas como o futebol e a
música popular, que vêm de uma
escola informal. E isso é escola, que
cria gente, estilos, jogadores, músicos
e que têm um alto desenvolvimento à
margem da formalidade.
Portanto, uma escola informal
levou a toda essa excelência e que
resultou em tudo isso que se vê, enquanto
a escola formal pública se
degradou e não tem nem capacidade
de responder nem incorporar
esta vitalidade que existe no futebol
e na música. Precisa existir um
projeto educacional que não tenha
um caráter meramente quantitativo
e que seja capaz de incorporar
essa vitalidade. Seria um salto extraordinário
se isso acontecesse.
EC – Esse sentimento que o senhor
expressa está manifestado no
seu livro, quando o senhor descreve
o desprezo da academia pelo mundo
do futebol e vice-versa. Existe algum
ponto em que esse diálogo encontre
forças? Quanto desse diálogo contribui
para melhorarmos nossa
autodefinição como nação?
Wisnik – Existe esse descolamento
que está muito bem definido
na própria pergunta. Muitas
vezes o discurso universitário em
relação a uma realidade cultural
como essa do futebol é de desprezo
quando, na verdade, é essencial
para o entendimento do país,
historicamente e atualmente. Por
outro lado, há o descolamento do
próprio futebol em relação ao
letramento da disciplina mental
que o livro traz. O letramento é muito baixo
no Brasil. Agora, é preciso se dizer que tudo
de melhor
que houve no Brasil se deu
pela existência de pontos de contato.
Na música popular, por exemplo,
compositores como Chico
Buarque, Caetano Veloso, Arnaldo
Antunes e outros fizeram a cultura
de massa se aproximar da literatura.
No futebol, o grande exemplo
disso é o Tostão. Ele, que foi
um dos grandes craques do futebol
brasileiro, se tornou colunista
e um crítico com uma leitura analítica
apropriada e acessível ao
mesmo tempo. Ele é uma dessas
pontes que permitem a aproximação
desses dois mundos.
EC – Qual a relação entre
Garrincha, Macunaíma, o
Curupira e o Saci-pererê?
Wisnik – O Garrincha está totalmente
ligado a essa cultura popular
que a gente lê em livros como
Memórias de um sargento de milícias,
que foi visto como a essência
da malandragem. O João
Saldanha, quando escreve sobre
Garrincha, parece uma continuação
desse livro. Macunaíma parece
extraordinariamente a biografia
do jogador. Isso tudo faz com
que Garrincha seja quase a
encarnação de um arquétipo. É como
se fosse um modelo na cultura
que se repete, que encarna e
reencarna. Garrincha é uma espécie
de reencarnação de Macunaíma,
e de certo modo cumprindo
um ciclo macunaímico da história
da formação do futebol brasileiro. E
a relação com Curupira (de pés virados)
e Saci-pererê (de uma só perna) é mitologia
mesmo. Ambos possuem suas deficiências e são extremamente á
geis, difíceis de pegar,
como era Garrincha. O próprio
apelido de “anjo de pernas tortas” evidencia
essa ligação no imaginário
das pessoas. O jogador
reencarnou esses mitos.
EC – E como Pelé se encaixa
na mitologia cultural brasileira?
Wisnik – O Pelé é um mistério. É
como se ele representasse um
momento de salto acima. Ele é a
realização do futebol em todas as
suas dimensões possíveis. É como
se tudo que é potencialidade e estigma,
nele, saltasse para um plano
de realização plena. Há poucos
ensaios sobre Pelé. Já, sobre
Garrincha, se escreve muito. Ele
encarna os paradoxos brasileiros,
Pelé não. Ele parece estar acima
de tudo isso. No livro, eu comparo
Pelé às figuras de Machado de Assis
e João Gilberto. Na literatura, na
música popular e no futebol há um
momento em que a formação se completa. É
nesse momento que elas produzem
uma espécie de grande artista,
que paira acima dos outros.
EC – Existe de fato uma democracia
social e racial dentro do campo
consolidada ao longo do século
passado que se desenvolveu com a
própria evolução do futebol? Há um
certo refluxo em relação a isso atualmente?
Como o senhor vê isso
dentro e fora dos gramados?
Wisnik – Vejo como uma coisa
complexa e ambivalente. Essa é uma questão
que está naquela zona
do desencontro de que falamos anteriormente.
O Mário Filho, que
escreveu o famoso Livro Negro do
Futebol Brasileiro, mostrando como
no início do futebol amador e
elitista o negro e o mulato eram
excluídos e depois ganharam lugar
até se tornarem os grandes protagonistas.
Os negros e mulatos, não
tendo oportunidade de realização
em outros planos da sociedade brasileira,
encontraram possibilidade
no futebol e na música também.
Nesse sentido, o Mário Filho tendia
a ver o futebol como um sinal
da democracia racial brasileira.
Anathol Rosenfeld escreveu um
ensaio que dizia uma coisa com a
qual concordo: que o futebol realiza
a democracia racial em campo,
mas não significa que a sociedade
brasileira realize essa democracia do
lado de fora. Do lado de fora existe
uma desigualdade social enorme,
uma concentração de renda campeã mundial,
um país de tradição
escravista que nunca aboliu a escravidão
completamente. Não teve
projeto histórico para os descendentes
dos escravos, que foram lançados à
sua própria sorte e que ainda
hoje vivem nas periferias e favelas. É
preciso uma nova abolição.
Além de ter um peso social e econômico,
há um componente racial
nessa história toda. Há um
confinamento dessa população negra
a essas zonas de pobreza e exclusão.
Ao mesmo tempo, há uma
cultura de permeabilidade. A
mestiçagem no Brasil é um valor e
isso é positivo. Existe uma capacidade
de se lidar com fronteiras culturais
e de combinar múltiplas lógicas
que se tornaram uma característica
cultural brasileira. Isso permite
essa aproximação racial que é muito
singular no país. Sou contra
as visões racialistas que querem
enquadrar o Brasil nos mesmos padrões
raciais norte-americanos. Lá eles pretendem
a existência
de uma separação distinta entre brancos e
negros, onde mestiçagem é mal-valorizada.
Isso deve mudar a partir
de Obama. Eles terão de digerir essa
questão de um eventual presidente
que não é totalmente branco
nem negro. O aspecto simbólico
disso é muito interessante.
EC – E a figura de João
Saldanha, o general de praia, jornalista,
boêmio e técnico comunista
da seleção brasileira no auge da
ditadura militar, um gaúcho que se
tornou carioca, um gremistabotafoguense,
que seria o mentor da
seleção de 70? Que contribuição
deu para esse caldo cultural e futebolístico?
Wisnik – No livro ele tem uma
importância destacada. Aparece
como tudo isso que foi destacado
na pergunta. Ele escreveu um livro
extraordinário sobre a sua experiência
de ser técnico, primeiro
do Botafogo, e depois da Seleção
Brasileira. Ao mesmo tempo, ele
faz uma narrativa dos bastidores,
que mais parece, novamente, Memórias
de um sargento de milícias
redivivo. Ao mesmo tempo é um
narrador saboroso e um pensador,
que foi sujeito importante de um
momento histórico do futebol e do
país, durante a ditadura. Um rebelde
que teve um papel fundamental
naquele time que Zagallo
comandou na Copa de 70. Zagallo
até tentou desfazer a criação de
Saldanha, mas não conseguiu e
acabou sendo dobrado pelos fatos
e pelo time. O time tinha a cara
do João Saldanha apesar de contribuições
táticas de Zagallo.
EC – Qual sua principal conclusão
a partir de Veneno remédio,
sobre a interpretação do Brasil
por meio do futebol?
Wisnik – Tem uma parte final
do livro em que eu discuto autores
como Gilberto Freyre, Sérgio
Buarque de Holanda e Caio Prado,
que escreveram clássicos de
interpretação do Brasil. Esses clássicos,
se olhados separadamente,
podem ser considerados datados e
insuficientes. Mas se percebermos
que cada um deles está focando
um aspecto que é um ponto cego
para o outro, podem ser complementares
se analisados de forma integrada.
Se todos eles forem vistos
juntos, podem ser renovados.