
Aurelião
de orelha

uem
tem dicionário leva uma vida bastante segura e ordenada. É
como se o volumão na estante influísse nos fluidos
do
indivíduo e a vida fluísse na confluência das
certezas. Algo
parecido com andar em montanha-russa plana.
Sem o livrão na prateleira, o cotidiano se torna cheio de
transtornos
no entorno. É o que acontece com quem leva para casa
palavras ouvidas a esmo, como gatos extraviados. Em vez de formar
uma gataria, vira um vocabulário estropiado. Como a sala
de espelhos
nos parques de diversões, onde os sons e os sentidos se
entortam.
Por causa de pontos volumosos na sola dos pés, o sujeito
liga
para uma pedicure:
–
Queria marcar uma hora. Tenho calopsitas nos pés.
A profissional logo se livra do engraçadinho:
–
Senhor, seu caso é para atendimento especializado na Austrália.
Na loja macrobiótica, ele solicita um quilo de açúcar
mascate.
Um risinho disfarçado percorre o balcão. Assim que
sai porta fora
com sua doçura escura, a gargalhada ressoa no templo natureba.
Em meio a uma discussão sobre o sexo dos anjos, ele argumenta
que pode muito bem haver uma diferença entre ourelas angelicais.
Ao redor, seus interlocutores se indagam sobre a grife grafada
nas auréolas das cuecas dele.
Uma linda mulher de cabelos negros cruza com os instintos dele
na calçada, que sussurra um galanteio na direção
dela:
–
Que morena cor de tambo!
Transformada em albina pela expressão, a moça dardeja
um olhar
de rejeição. Ele volta à vaca fria.
Ao assistir na tv um programa sobre o mundo animal, onde esclarecem
que antas e elefantes são proboscídeos, conclui:
–
Ah, então os homens probos não descendem dos primatas!
Quando o maitre o consulta sobre o vinho para acompanhar o
jantar a dois, seu domínio da enologia transparece na escolha.
Não quer nem riesling nem sauvignon:
–
Traga um clarinete, por favor.
Para prevenir e combater resfriados com vitamina C, recorre
a certas bancas do Mercado Público, onde costuma pedir as
melhores frutas cínicas. O pessoal até dá desconto
para tão bemhumorado
cliente.
Difícil haver alguém mais involuntariamente engraçado:
para
ele, batique é um ritual de tambores na Índia; elipse é quando
a
Lua tem nuvens na frente; enxaimel é uma colméia
de abelhas
alemãs; gáudio é o nó górdio
depois de desatado; corruptela é uma
propina insignificante. Etc.
Não vivo sem estes ensinamentos. Muito dos meus conhecimentos
lingüísticos adquiri através dos tímpanos.
Sou um alto ditado.
