Ano 8 - nº 72
Junho 2003



Luis Fernando Verissimo:
O Lula de barba preta faria o mesmo governo que faz o Lula de barba branca? Não é conjetura vazia, a resposta tem a ver com várias perplexidades do momento. Se o Lula da barba ameaçadora também se...



Nei Lisboa:
Não se mova, não diga nada que chame a atenção dos outros funcionários e não erga os olhos até o término da leitura desta carta. Posso lhe garantir que o Rex foi...



Elisa Lucinda:
É, moça, tenho medo de não ver...é perigoso! Pelo que ouvi falar, posso tomar um veneno pensando que é remédio, posso ver detergente em frasco, que eu penso que é medicamento para tédio. Ando num mundo que...





O pague-e-toque das emissoras

As rádios e TVs brasileiras que tocam música transformaram-se em verdadeiras jukebox do avesso. Uma jukebox é um mecanismo que toca a música escolhida desde que o ouvinte coloque uma moeda e aperte o botão. Maquininha bastante popularizada nos EUA dos anos 60 e que pode ser encontrada, hoje, em qualquer lanchonete brasileira de periferia, ao lado de outros mecanismos caça-níqueis. A grande diferença é que os departamentos de marketing das gravadoras é que colocam as moedas no rádio e na TV. Quem ouve a música e vê o artista, além de não ter a escolha, não sabe de nada sobre esse negócio que movimenta milhões e é responsável por boa parte do faturamento das emissoras. Essa transação já tem nome no meio cultural, o jabaculê, vulgo jabá, mas geralmente é apresentado pelo pomposo nome de campanha promocional, que não passa, na verdade, do “bom” e velho suborno.
Nereida Grabauska

Stela Pastore

Das palavras à imaginação


prática não é nova, já lidera as paradas há mais de três décadas, no Brasil. A novidade é o Projeto de Lei, que será apresentado em junho pelo deputado Fernando Ferro (PT-PE). Se aprovado no Congresso Nacional, pode tornar crime a execução de músicas nas rádios e TVs mediante pagamento. A proposta é inspirada em legislação internacional, sobretudo a dos Estados Unidos, cuja regulação sobre o assunto é da década de 60 e está sendo revista no momento. O projeto conta com o apoio do Ministro da Cultura, Gilberto Gil, e de músicos como Lulu Santos, Lenine e Lobão. Preverá pagamento de multa e até reclusão para infratores. A proposta de Ferro suscitou uma questão importante a ser debatida: o público deve saber sempre se a música que está escutando está sendo paga pra tocar ou não?

“O jabá força o consumo da indústria fonográfica. As rádios deveriam ter a obrigação de deixar claro que a música está sendo tocada por dinheiro. Seria uma maneira de dividir o espaço editorial do publicitário”, propõe o deputado. As rádios afirmam que o jabá incrementa o faturamento e seria muito difícil sobreviver sem ele. “O projeto não proíbe que as emissoras recebam tal pagamento, mas prevê que seja anunciado o patrocínio”, explica o deputado Fernando Ferro.

No Rio Grande do Sul, oficialmente as rádios negam a prática. Gente do setor afirma que ela vigora, porém de difícil comprovação. O jabá é praticado mundialmente. Estima-se que a indústria fonográfica americana tenha gasto US$ 40 milhões com pagamentos a estações de rádio e televisão para promover seus produtos de entretenimento.

O jabá nos pampas
“O jabá existe”, conta Rogério Nunes (nome fictício), que trabalhou mais de 20 anos como divulgador para várias grandes gravadoras no estado. Há uma linha direta entre a indústria fonográfica e os programadores. “Muitas vezes os donos das emissoras nem ficam sabendo”, conta Rogério, que prefere não se identificar, pois ainda atua no mercado. Em outros casos, a rádio tem até tabela e o dinheiro serve para cobrir a folha de pagamento, custear reformas, comprar veículos e bancar outros investimentos da rádio. O valor varia de menos de R$ 1 mil por mês, para tocar a música uma vez por dia, a R$ 5 mil para três rodagens diárias, alcançando valores altíssimos. “Tem rádio que pede R$ 100 mil”, conta Rogério. As práticas estão mais concentradas nas grandes redes de rádio sediadas em Porto Alegre e menos no interior do Estado. Mas as mega operações são mesmo praticadas no Rio de Janeiro, São Paulo e na Região Nordeste. “Lá é institucionalizado. Quem tem bom produto e bons ‘argumentos’, toca nas rádios”. O argumento, neste caso, é o dinheiro, traduz Rogério.
As gravadoras são forçadas a pagar jabá ou seu produto não roda. “Este negócio ficou caro e muitos selos estão quebrando”, diz Rogério, que é contra a lei que criminaliza, mas também é contra a maneira escusa e extorsiva que ocorre hoje. “Teria que ficar claro que isto existe, o dinheiro poderia continuar indo para as emissoras, mas de alguma maneira o ouvinte deveria ser beneficiado e mais respeitado neste negócio”, opina.
A mesma afirmação, de que as músicas tocam “patrocinadas”, foi feita por André Midani, à Folha de São Paulo, do dia 21 de maio. Ele, que, por 30 anos, foi um dos homens mais influentes da indústria fonográfica brasileira, afirmou que já pagou muitos jabás e classificou a prática como suborno.

Ouvinte enganado por tabela
O gerente operacional da rádio Pop Rock, Mauro Borba diz que muitas pessoas sabem que o jabá existe. “Ele começou com presentes para o programador. Depois as empresas passaram a lucrar com isso. Tem emissoras com tabela, por número de execução”, conta. A rádio, da Universidade Luterana do Brasil (Ulbra), é a 8ª no ranking das 22 FMs da região metropolitana, atingindo um público majoritariamente jovem e universitário. “A gente não compactua com isso porque tira a independência. A empresa não aceitaria. Nosso critério é o de atender aos interesses da audiência”, diz o profissional com 22 anos neste meio.

Mauro Borba acha que a lei ajudaria as rádios a não ficar no comando deste esquema. “As gravadoras têm que investir em outras formas de marketing. Com o jabá, as rádios ficam iguais e o público fica sem conhecer a produção nacional. Mas acho que existem emissoras que não querem esta liberdade”, analisa. E apóia a lei: “A questão de ser ilegal e ter penalidade, como multas, já coibiria, daria o exemplo, criaria formas de denúncia”, acredita Borba e relativiza: “No Rio Grande do Sul tem jabá. É menos que no centro do país, mas é proporcional ao tamanho do mercado consumidor”, compara. O comunicador acrescenta que na tevê também é muito comum a prática do jabá. “Há um tipo de pagamento, de troca de veiculação desde o tempo do Chacrinha”, exemplifica.

Para Alemão Vitor Hugo, apresentador da rádio Ipanema FM, há 16 anos, o jabá representa outra fonte de renda para as rádios. “As emissoras tocam direto uma coisa só que é para ‘grudar’ e vender, o que eu acho errado”, opina. Segundo ele, não se pode rodar seis vezes a mesma coisa. “É um saco repetir”. Vitor revelou que o tratamento da gravadoras em relação à rádio Ipanema é diferente. “Pra nós as gravadoras não oferecem nada e ficam de cara com a rádio porque a gente não trabalha assim. Pros outros, já entram com a grana na mão. A gente tem até que comprar CDs pra tocar quando acha que a música tem qualidade e tem o perfil da rádio”, justifica.

Músicos são reféns do esquema
“O jabá é uma merda. O critério deixa de ser a qualidade artística para ser o de quem paga mais”, afirma o baixista da banda Ultramen, Pedro Porto. No início da carreira o músico acreditava que era possível furar o bloqueio do toca quem paga. “Eu achava que podia lutar contra isso. Hoje é inútil. Ser independente é como não existir para o mercado. O esquema tá pronto e quem não tá nele não existe”.

“O jabá alto prejudica porque o trabalho artístico tem que visar ao lucro. O artista tem de produzir o que é comercial”, desabafa o músico. “A exigência da gravadora para a venda é muito forte”, reclama. Mas também compartilha da visão de que as gravadoras chegaram num beco sem saída por fatores como a pirataria de rua e a internet. “As gravadoras criaram um monstro e estão tendo muito prejuízo. A prática está enraizada. É difícil que acabe”. A própria Ultramen começou a obter boa execução de uma música nas rádios de São Paulo. Ele credita o fenômeno a um “pacote-jabá” da gravadora. Com isso, aos poucos, segundo Porto, a banda está emplacando shows no centro do país.

Quanto ao projeto de Lei, o músico pondera que, se for aprovado, vai ser uma daquelas leis “que não pegam”, como tantas no Brasil. “Ninguém denuncia porque tem medo de perder”, desafia. Sobre Lobão estar apoiando o projeto, Porto lembra que a rebeldia do músico virou caso de marketing. “Ele já fez parte deste tipo de prática e talvez por isso mesmo tenha se tornado conhecido. O esquema contra o qual ele luta colaborou para que ele seja isso. Hoje ele tem uma posição privilegiada”, analisa.

Feitiço contra o feiticeiro
O jabá está golpeando duramente as gravadoras: não conseguem mais pagar os valores cada vez maiores exigidos pelas rádios. Muitos atribuem a recente quebra da Abril Music às ostensivas verbas destinadas a esse tipo de “campanha promocional”. “A grana do jabá é a mais importante do processo industrial fonográfico. As gravadoras economizam em produção e gravação e pagam mais pra tocar, com a lógica de que, se não roda na rádio, a possibilidade de sucesso é menor”, analisa a comunicadora Kátia Suman. “Claro que jabá existe e rola em grana. É difícil provar. É preciso lembrar que rádios são concessões públicas e não podem se prestar a isto”, destaca.

A apresentadora acha válida a tentativa de moralizar a atividade. “É difícil combater porque é como o racismo no Brasil. Existe, mas as pessoas negam. Tem muita hipocrisia”, conta em seus 20 anos de carreira “sem jabá”. “No país tem uma especialidade: sempre se dá um jeito de não cumprir a lei”, relata a comunicadora que marcou sua carreira na rádio Ipanema, passou pela Pop Rock, Cultura e agora está na rádio Unisinos. E defende uma tese interessante: o próprio mercado vai acabar com isso. “Só aí Adan Smith acertou”, debocha, lembrando do criador da teoria de mercado no século XIX, origem do capitalismo. Ela lembra que a produção independente hoje é superior a 50% do mercado fonográfico e que este pode ser o diferencial. “Com o tempo os bons artigos vêm à tona e as rádios serão obrigadas a tocar”, acredita. “A diversidade tá gritando porque ninguém quer uma coisa só”, teoriza.


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