O pague-e-toque das emissoras
As rádios e TVs brasileiras que tocam música transformaram-se
em verdadeiras jukebox do avesso. Uma jukebox é um mecanismo
que toca a música escolhida desde que o ouvinte coloque uma
moeda e aperte o botão. Maquininha bastante popularizada
nos EUA dos anos 60 e que pode ser encontrada, hoje, em qualquer
lanchonete brasileira de periferia, ao lado de outros mecanismos
caça-níqueis. A grande diferença é que
os departamentos de marketing das gravadoras é que colocam
as moedas no rádio e na TV. Quem ouve a música e vê
o artista, além de não ter a escolha, não sabe
de nada sobre esse negócio que movimenta milhões e
é responsável por boa parte do faturamento das emissoras.
Essa transação já tem nome no meio cultural,
o jabaculê, vulgo jabá, mas geralmente é apresentado
pelo pomposo nome de campanha promocional, que não passa,
na verdade, do bom e velho suborno.
Nereida Grabauska
Stela Pastore
Das palavras à imaginação

prática
não é nova, já lidera as paradas há
mais de três décadas, no Brasil. A novidade é
o Projeto de Lei, que será apresentado em junho pelo deputado
Fernando Ferro (PT-PE). Se aprovado no Congresso Nacional, pode
tornar crime a execução de músicas nas rádios
e TVs mediante pagamento. A proposta é inspirada em legislação
internacional, sobretudo a dos Estados Unidos, cuja regulação
sobre o assunto é da década de 60 e está sendo
revista no momento. O projeto conta com o apoio do Ministro da Cultura,
Gilberto Gil, e de músicos como Lulu Santos, Lenine e Lobão.
Preverá pagamento de multa e até reclusão para
infratores. A proposta de Ferro suscitou uma questão importante
a ser debatida: o público deve saber sempre se a música
que está escutando está sendo paga pra tocar ou não?
O jabá força o consumo da indústria fonográfica.
As rádios deveriam ter a obrigação de deixar
claro que a música está sendo tocada por dinheiro.
Seria uma maneira de dividir o espaço editorial do publicitário,
propõe o deputado. As rádios afirmam que o jabá
incrementa o faturamento e seria muito difícil sobreviver
sem ele. O projeto não proíbe que as emissoras
recebam tal pagamento, mas prevê que seja anunciado o patrocínio,
explica o deputado Fernando Ferro.
No Rio Grande do Sul, oficialmente as rádios negam a prática.
Gente do setor afirma que ela vigora, porém de difícil
comprovação. O jabá é praticado mundialmente.
Estima-se que a indústria fonográfica americana tenha
gasto US$ 40 milhões com pagamentos a estações
de rádio e televisão para promover seus produtos de
entretenimento.
O jabá nos pampas
O jabá existe, conta Rogério Nunes (nome
fictício), que trabalhou mais de 20 anos como divulgador
para várias grandes gravadoras no estado. Há uma linha
direta entre a indústria fonográfica e os programadores.
Muitas vezes os donos das emissoras nem ficam sabendo,
conta Rogério, que prefere não se identificar, pois
ainda atua no mercado. Em outros casos, a rádio tem até
tabela e o dinheiro serve para cobrir a folha de pagamento, custear
reformas, comprar veículos e bancar outros investimentos
da rádio. O valor varia de menos de R$ 1 mil por mês,
para tocar a música uma vez por dia, a R$ 5 mil para três
rodagens diárias, alcançando valores altíssimos.
Tem rádio que pede R$ 100 mil, conta Rogério.
As práticas estão mais concentradas nas grandes redes
de rádio sediadas em Porto Alegre e menos no interior do
Estado. Mas as mega operações são mesmo praticadas
no Rio de Janeiro, São Paulo e na Região Nordeste.
Lá é institucionalizado. Quem tem bom produto
e bons argumentos, toca nas rádios. O argumento,
neste caso, é o dinheiro, traduz Rogério.
As gravadoras são forçadas a pagar jabá ou
seu produto não roda. Este negócio ficou caro
e muitos selos estão quebrando, diz Rogério,
que é contra a lei que criminaliza, mas também é
contra a maneira escusa e extorsiva que ocorre hoje. Teria
que ficar claro que isto existe, o dinheiro poderia continuar indo
para as emissoras, mas de alguma maneira o ouvinte deveria ser beneficiado
e mais respeitado neste negócio, opina.
A mesma afirmação, de que as músicas tocam
patrocinadas, foi feita por André Midani, à
Folha de São Paulo, do dia 21 de maio. Ele, que, por 30 anos,
foi um dos homens mais influentes da indústria fonográfica
brasileira, afirmou que já pagou muitos jabás e classificou
a prática como suborno.
Ouvinte enganado por tabela
O gerente operacional da rádio Pop Rock, Mauro Borba diz
que muitas pessoas sabem que o jabá existe. Ele começou
com presentes para o programador. Depois as empresas passaram a
lucrar com isso. Tem emissoras com tabela, por número de
execução, conta. A rádio, da Universidade
Luterana do Brasil (Ulbra), é a 8ª no ranking das 22
FMs da região metropolitana, atingindo um público
majoritariamente jovem e universitário. A gente não
compactua com isso porque tira a independência. A empresa
não aceitaria. Nosso critério é o de atender
aos interesses da audiência, diz o profissional com
22 anos neste meio.
Mauro Borba acha que a lei ajudaria as rádios a não
ficar no comando deste esquema. As gravadoras têm que
investir em outras formas de marketing. Com o jabá, as rádios
ficam iguais e o público fica sem conhecer a produção
nacional. Mas acho que existem emissoras que não querem esta
liberdade, analisa. E apóia a lei: A questão
de ser ilegal e ter penalidade, como multas, já coibiria,
daria o exemplo, criaria formas de denúncia, acredita
Borba e relativiza: No Rio Grande do Sul tem jabá.
É menos que no centro do país, mas é proporcional
ao tamanho do mercado consumidor, compara. O comunicador acrescenta
que na tevê também é muito comum a prática
do jabá. Há um tipo de pagamento, de troca de
veiculação desde o tempo do Chacrinha, exemplifica.
Para Alemão Vitor Hugo, apresentador da rádio Ipanema
FM, há 16 anos, o jabá representa outra fonte de renda
para as rádios. As emissoras tocam direto uma coisa
só que é para grudar e vender, o que eu
acho errado, opina. Segundo ele, não se pode rodar
seis vezes a mesma coisa. É um saco repetir.
Vitor revelou que o tratamento da gravadoras em relação
à rádio Ipanema é diferente. Pra nós
as gravadoras não oferecem nada e ficam de cara com a rádio
porque a gente não trabalha assim. Pros outros, já
entram com a grana na mão. A gente tem até que comprar
CDs pra tocar quando acha que a música tem qualidade e tem
o perfil da rádio, justifica.
Músicos são reféns do esquema
O jabá é uma merda. O critério deixa
de ser a qualidade artística para ser o de quem paga mais,
afirma o baixista da banda Ultramen, Pedro Porto. No início
da carreira o músico acreditava que era possível furar
o bloqueio do toca quem paga. Eu achava que podia lutar contra
isso. Hoje é inútil. Ser independente é como
não existir para o mercado. O esquema tá pronto e
quem não tá nele não existe.
O jabá alto prejudica porque o trabalho artístico
tem que visar ao lucro. O artista tem de produzir o que é
comercial, desabafa o músico. A exigência
da gravadora para a venda é muito forte, reclama. Mas
também compartilha da visão de que as gravadoras chegaram
num beco sem saída por fatores como a pirataria de rua e
a internet. As gravadoras criaram um monstro e estão
tendo muito prejuízo. A prática está enraizada.
É difícil que acabe. A própria Ultramen
começou a obter boa execução de uma música
nas rádios de São Paulo. Ele credita o fenômeno
a um pacote-jabá da gravadora. Com isso, aos
poucos, segundo Porto, a banda está emplacando shows no centro
do país.
Quanto ao projeto de Lei, o músico pondera que, se for aprovado,
vai ser uma daquelas leis que não pegam, como
tantas no Brasil. Ninguém denuncia porque tem medo
de perder, desafia. Sobre Lobão estar apoiando o projeto,
Porto lembra que a rebeldia do músico virou caso de marketing.
Ele já fez parte deste tipo de prática e talvez
por isso mesmo tenha se tornado conhecido. O esquema contra o qual
ele luta colaborou para que ele seja isso. Hoje ele tem uma posição
privilegiada, analisa.
Feitiço contra o feiticeiro
O jabá está golpeando duramente as gravadoras: não
conseguem mais pagar os valores cada vez maiores exigidos pelas
rádios. Muitos atribuem a recente quebra da Abril Music às
ostensivas verbas destinadas a esse tipo de campanha promocional.
A grana do jabá é a mais importante do processo
industrial fonográfico. As gravadoras economizam em produção
e gravação e pagam mais pra tocar, com a lógica
de que, se não roda na rádio, a possibilidade de sucesso
é menor, analisa a comunicadora Kátia Suman.
Claro que jabá existe e rola em grana. É difícil
provar. É preciso lembrar que rádios são concessões
públicas e não podem se prestar a isto, destaca.
A apresentadora acha válida a tentativa de moralizar a atividade.
É difícil combater porque é como o racismo
no Brasil. Existe, mas as pessoas negam. Tem muita hipocrisia,
conta em seus 20 anos de carreira sem jabá. No
país tem uma especialidade: sempre se dá um jeito
de não cumprir a lei, relata a comunicadora que marcou
sua carreira na rádio Ipanema, passou pela Pop Rock, Cultura
e agora está na rádio Unisinos. E defende uma tese
interessante: o próprio mercado vai acabar com isso. Só
aí Adan Smith acertou, debocha, lembrando do criador
da teoria de mercado no século XIX, origem do capitalismo.
Ela lembra que a produção independente hoje é
superior a 50% do mercado fonográfico e que este pode ser
o diferencial. Com o tempo os bons artigos vêm à
tona e as rádios serão obrigadas a tocar, acredita.
A diversidade tá gritando porque ninguém quer
uma coisa só, teoriza.
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