Aos
primeiros dias de junho de 2003, os 558 professores da Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí),
mais uma vez, assistem a um ritual já conhecido. Como tem
sido a rotina mensal dos últimos anos, não recebem
seus salários. Desta vez, apenas uma pequena parte dos vencimentos
foi paga, ainda assim, referente ao mês de abril. É
desesperador chegar ao início de um mês e não
poder contar com o salário para cumprir as obrigações
financeiras e assistir à família passando por uma
série de necessidades, constrangimentos e limitações,
o que dificulta até mesmo o desempenho profissional,
lamenta o professor Rosalvo Luis Sawitzki, que atua em vários
campi da Unijuí. Ele, assim como seus colegas, também
não recebeu as multas correspondentes aos atrasos ocorridos
de janeiro de 2000 a janeiro de 2003, que nunca chegaram aos seus
contracheques. Sobre as multas do período que vai de 2000
a 2002, a Vara do Trabalho de Ijuí já deu êxito
do processo aos professores, porém os mesmos aguardam julgamento
de recurso da Fidene/Unijuí no Tribunal Regional do Trabalho,
em Porto Alegre. Esses fatos mostram a ponta de um iceberg, que
tem na sua base um histórico de medidas administrativas não
tomadas a seu tempo e que agora penalizam os professores. Cresce
a insatisfação interna, atmosfera que pode acelerar
o processo de mudanças e reformas institucionais necessárias
ao saneamento das finanças.
Da redação
Unijuí: crise atinge salários dos professores

Unijuí
vive uma crise estrutural, uma crise de sustentabilidade. Precisamos
repensar o modelo de universidade. Nós construímos
um projeto ambicioso, eu diria, dentro de um contexto histórico
que se modificou. Um projeto ambicioso no sentido da qualidade,
da responsabilidade social, da forma e da condução
democrática, que precisa ser repensado sem trair os princípios
sobre os quais a instituição foi construída.
Com essas palavras o vice-reitor administrativo da Unijuí,
Dilson Trennepohl, admite a necessidade de mudança no modelo
administrativo e da própria Universidade. A instituição
se encontra em uma crise financeira crescente, que tem se manifestado
nos constantes atrasos de salários dos professores e cortes
nas folhas de pagamento.
Se, por um lado, essa síntese é precisa, por outro
a fórmula para buscar as soluções é
bastante complexa. Do ponto de vista político, a forma como
a Universidade está organizada, com seus departamentos autônomos,
se apresenta como uma virtude. No entanto, sob uma ótica
econômico-administrativa, torna-se o principal complicador
de um projeto de reforma ágil. O processo de discussão
interno acerca das mazelas que consomem os recursos da instituição,
cada vez mais escassos, está lento. Por muitas vezes tem
esbarrado na disputa de interesses entre os departamentos e no próprio
corporativismo de professores que não querem abrir mão
de privilégios adquiridos graças a um plano de carreira
considerado, por muitos, como insustentável.
A Unijuí, mãe das universidades comunitárias,
como é carinhosamente referida no meio educacional, atende
atualmente 12,3 mil alunos no noroeste do estado. Originada a partir
da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijuí
Fafi, fundada em 1956, a Universidade possui hoje, além
do campus de Ijuí, campi em Santa Rosa, Panambi e Três
Passos.
Segundo a reitoria, a principal fonte de recursos, cerca de 90%
da receita, é advinda das mensalidades dos alunos, cuja inadimplência
varia ao longo de cada semestre entre 23% e 30%. Em 2002 as contas
fecharam no vermelho e a dívida de curto prazo para 2003
pode chegar a R$ 9 milhões. Como medida emergencial, endossada
pelo Conselho Universitário (Consu) a reitoria propôs
corte linear de 10% nos gastos de todos os departamentos indiscriminadamente.
As iniciativas adotadas para alcançar este índice
são várias, mas a principal delas é a diminuição
de carga horária dos professores, medida que, mesmo acordada
com os docentes, acumula passivos trabalhistas, podendo gerar processos
futuros. O fato de a reitoria jogar para os departamentos
o enxugamento financeiro da Universidade é preocupante; além
de possibilitar a leitura de que existe insegurança na implementação
do seu projeto administrativo, também coloca numa situação
delicada e defensiva cada departamento frente aos outros, constrangendo
o grupo de professores pondera Cecília Bujes,
diretora do Sinpro/RS. Nos últimos anos o sindicato tem feito
reuniões com a reitoria para discutir o tema. Até
o momento, como resultado desses encontros, ficou acordado que os
sindicatos participarão do debate de forma propositiva, antes
da aprovação final no Consu.
Esquenta o debate na busca de soluções
Embora a adesão à proposta de cortes salariais tenha
ocorrido, houve chiadeira dos chefes de departamentos no que se
refere ao fato de um mesmo remédio amargo ser
aplicado tanto para os centros de custo superavitários quanto
para os deficitários. Inclusive, alguns chefes apresentaram
intrincados cálculos para demonstrar quanto significa em
receita a quantidade de horas/aula dedicadas por cada professor
a atividades de ensino. Ou seja, os docentes que atuam em sala de
aula se sentem com o ônus de sustentar as atividades consideradas
deficitárias. Essa visão contrasta com idéia
de Universidade, argumenta José Pedro Bouflauer, chefe
do departamento de Pedagogia (DePe). Há um certo descontentamento
dos professores, em geral, porém também há
uma disposição de contribuir para a construção
de um conjunto de medidas de saneamento, argumenta. Já
Dieter Siedenberg, chefe do departamento de Estudos da Adminsitração
(Dead), acredita que a linearidade das medidas pode cristalizar
para o futuro as berrantes discrepâncias do presente.
As atividades de ensino consomem 77,8% do total de créditos,
22% para pesquisa, 7% para extensão, 8,4% para setores administrativos,
4% para bolsas e o restante para cedências e demais fins.
Conforme dados do sistema interno de informações gerenciais
da instituição, há departamentos cujo número
de créditos atribuídos para atividades de pesquisa,
por exemplo, apresentam uma diferença de até 357%
(a maior) com relação ao total de créditos
totais de matrículas dos alunos de outros departamentos.
Em miúdos, o que o professor Dieter quis dizer com discrepâncias
refere-se ao fato de a receita da Unijuí estar atrelada às
mensalidades dos alunos, por conseqüência, às
atividades em sala de aula; como muitos docentes têm boa parte
de suas horas/aula dedicadas a atividades de pesquisa e administrativas,
oneram a receita e os que trabalham direto com os alunos. Some-se
a isso, uma gráfica que opera no vermelho há anos
e um número de funcionários acima da quantidade de
professores. Atualmente a Universidade conta com 558 professores
e 715 funcionários, a maioria com 40 horas semanais.
A Unijuí, que nas últimas duas décadas chegou
a contar com cerca de 30% de sua receita proveniente de recursos
públicos, teve esta fonte reduzida a menos de 2%. Outro
fator é a capacidade de pagamento dos alunos. Também
é verdade que nós temos uma estrutura pesada, que
tem um custo igualmente pesado e isso nos coloca muito próximos
a estruturas como a PUC, Unisinos, a própria Unisc ou mesmo
UPF, mas sem a capacidade de pagamento dos alunos dessas instituições,
argumenta Dílson Trennepohl.
| Professores
discutem repactuação |
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Em assembléia de professores
realizada no campus de Santa Rosa, na segunda quinzena
de maio, os professores avaliaram a situação
e consideraram paliativas as medidas tomadas pela
reitoria. Durante o encontro, vários docentes
demonstraram preocupação quanto à
legalidade dos procedimentos adotados. Na ocasião,
também foi discutida a possibilidade de uma
repactuação das relações
de trabalho na instituição com ampla
participação de todos os envolvidos,
o que inclui os sindicatos que representam professores
e funcionários. Foi consenso entre os presentes
que a situação chegou ao limite do que
a comunidade universitária pode suportar. Conforme
a diretora do Sinpro/RS, caso não haja saída
para a crise financeira e conseqüente cumprimento
da legislação, os reflexos poderão
atingir à qualidade dos serviços oferecidos
pela Unijuí à sociedade.
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ENSINO MÉDIO
CEED invalida cursos intensivos
O Conselho Estadual de Educação do Rio Grande
do Sul (CEED), por meio do Parecer 630/2003, declarou sem validade
as atividades escolares do ensino médio desenvolvidas em
regime intensivo pelo Colégio Saint-Exupéry e pela
Escola de Ensino Médio Monteiro Lobato, ambas em Porto Alegre.
As instituições ofereciam uma espécie de recuperação
de segunda época, considerada irregular pela
legislação educacional. No mesmo documento o CEED
declara também sem validade os respectivos históricos
escolares dos alunos que cursaram este tipo de curso entre o ano
letivo de 2001/2002. A Secretaria de Educação (SE)
terá de regularizar a situação escolar dos
alunos informando-os da invalidade dos estudos realizados. Deverão
ser aplicadas provas que mensurem o efetivo grau de conhecimento
alcançado e as competências desenvolvidas. A SE deverá
organizar um cronograma para a realização das respectivas
provas, chamando os alunos envolvidos, inclusive, por meio de editais.
O CEED encaminhou cópia do parecer ao Ministério Público
para que o mesmo acompanhe o caso.