Ouvi falar
É,
moça, tenho medo de não ver...é perigoso! Pelo
que ouvi falar, posso tomar um veneno pensando que é remédio,
posso ver detergente em frasco, que eu penso que é medicamento
para tédio. Ando num mundo que risca coisas nas ruas e eu
não vejo, placas me anunciando perigos a que eu desobedeço
porque não decifro. Sei apenas que se está escrito
deve ser certo. Errado sou eu, bobo, que não decodifico o
mal nem a raiz, o anúncio nem o aviso, muito menos o que
ele me diz. Sigo coisas que vejo mas nem sei, posso até,
sem saber, desobedecer à lei. Meu filho me leu uma carta
dizendo que sua madrasta queria voltar. Mas sei lá, será
mesmo que ela quer? Ou meu filho inventa essas frases pra me agradar?
Meu chefe me mostrou um papel, onde ele diz que ali diz que não
tenho nada, nenhum dinheiro pra me assegurar. Será que é
isso mesmo? Ou eu não recebo o que o trabalho me dá?
O moço do ministério disse que não tenho data
pra me aposentar. Será que ele é sincero? Ou sou eu
que não sei contar? Ou todo esse inferno eterno de só
trabalhar? Tem outro inferno eterno pra fazer serão sem descansar?
É, moça, quem é cego não tem escolha,
quem é cego tem que ver as coisas com os olhos dos outros,
do ponto de vista do outro. E por não poder ver, por ser
cego da luz do saber, não pode ser nem querer, tem é
que se deixar levar. Decidir, nem pensar! Tem sempre alguém
pra dizer: Não tá vendo lá? Tá
dizendo aí: é proibido passar. Às vezes
desconfio mas obedeço, sei lá, vou eu provar que não
é? Assim vou levando sem ver nada direito, e ainda tendo
uma família pra guiar. Existe, é certo, um outro mundo,
um que eu deduzo, um que eu imagino, um que eu arrisco e nem tenho
firma pra afirmar. Mas é o mundo que eu vejo, tem cor esse
mundo, tem cara, tem feição, tem cheiro, tem calor,
tem beiço, tem palavra, tem dor, tem alegria, tem mágoa.
Mas se botar em livro, quem sou eu pra adivinhar? O moço
do cartório, quando eu ia me casar, mostrou-me um documento,
perguntou se eu sabia assinar. Fiz mais que um x, botei
meu nome desenhado lá. Riu de mim, eu vi, eu senti; depois
me deu um papel pra ler, eu fingi, eu menti, sussurrei baixo e nada,
como eu fazia de pequeno, pra na igreja com a bíblia rezar.
Sei soletrar, você pode até me dar em separado algumas
palavras pra eu brincar, mas se juntar tudo numa folha, fico tonto,
pra mim não dá. É muita coisa pra encaixar!
Se o que vejo pode estar escrito não sei como relacionar,
uma coisa é outra coisa, e outra coisa é uma coisa,
sem eu poder provar. Sou cego, moça, e por isso não
gosto daquele pano verde e amarelo, daquela cortina esticada nas
ocasiões que têm até banda militar. Tenho ódio
dela, moça, tripudia de mim, aquela, metida que só
ela. Grandes coisas! Hum... Bandeira Nacional, e daí, se
eu não sei o que está escrito nela?
É, moça, é, professora, eu sei lá se
sou brasileiro... você vai me olhar e dizer:
Não sabe se é brasileiro? O senhor tá
falando sério? Ah, não acredito, duvido! Eu
vou responder: se sou, eu nunca vi. Posso até ser brasileiro,
mas por enquanto, sou brasileiro de ouvido.
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