A moral e o limite da filosofia
Embora
tenha nascido em Brno, na antiga Tchecoeslováquia, de família
alemã, Ernst Tugendhat é considerado um dos maiores
filósofos alemães contemporâneos e o mais citado
em sua área depois de Jürgen Habermas. Ele foi professor
catedrático de Filosofia nas universidades de Heidelberg
e de Berlim, depois de ter trabalhado ao lado do próprio
Habermas, no Instituto Max Planck, de Starnberg. Segundo ele, a
moral é um sistema de obrigações intersubjetivas.
E foi partindo dessa idéia que Tugendhat, proferiu a palestra
O problema da moral, realizada em maio, na PUCRS. Na sua produção
filosófica figuram obras que se tornaram clássicas,
como as lições introdutórias à filosofia
analítica da linguagem, autoconsciência e autodeterminação,
que tratam de problemas ligados à filosofia teórica.
Entre as obras do filósofo estão a mais recente Egocentricidade
e mística (2003), Não somos de arame rígido
(2002), Problemas (2001), O livro de Manuel e Camila (2000) e Diálogo
em Letícia (1997), cujo conteúdo trata de questões
abordadas na palestra, como a fundamentação da moral.
Ao falar para estudantes e professores da PUC, o filósofo,
que está no Estado como professor visitante do Pós-Graduação
em Filosofia da Universidade, citou a moral como um conjunto de
regularidades do comportamento que se baseiam na pressão
social. Tugendhat, que contraria a concepção de Kant
da obrigação moral sem reciprocidade, destacou que
a mesma se estabelece dentro de um sistema de exigências recíprocas,
sem o qual sociedades humanas não poderiam sobreviver. Existem
somente dois tipos de justificação recíproca
de normas: o religioso (vertical) e o relacionado aos interesses
dos membros da sociedade (horizontal). Nietzsche e Dostoiewski pensavam
que, quando a justificação vertical se tornasse impossível,
a moral simplesmente não seria justificável,
declarou.
Momentos antes da palestra, Tugendhat, concedeu esta entrevista
ao Extra Classe, na qual falou sobre temas considerados fundamentais
da filosofia, como moral, ética, solidão e felicidade,
e fez considerações sobre os direitos humanos, o Fórum
Social Mundial e a guerra no Iraque.
Da redação
Extra Classe Poderia se dizer que a moral está
em crise?
Ernst Tugendhat É um problema puramente filosófico.
Não é a moral moderna que está em crise. O
que está em crise para mim é a teoria de que a filosofia
faça uma boa teoria da moral. E não temos uma. Então,
tenho discussões com Kant, com o contratualismo, composições
filosóficas, com o utilitarismo. Eu desenvolvo uma teoria
que é perto do contratualismo, mas, por isso, tenho que dizer
como eu me distingo do contratualismo normal. Mas tudo isso é
complicado para uma entrevista.
EC Existe diferença entre moral e ética?
Tugendhat Em princípio, não. Isso é
um problema puramente verbal. Os latinos traduziram a palavra ética
dos gregos como moral. Na filosofia brigamos muito com esta diferença,
problemas que são puramente problemas de palavras, quer dizer,
de convenções: que coisa você quer denominar
com que palavra. A diferença entre ética e moral é
um problema puramente convencional. Há filósofos que
fazem essa diferença e outros que não. Mas você
tem razão. Eu posso de alguma maneira relacionar o que eu
estou dizendo com o que você poderia chamar a crise da ética.
Essa crise se pode caracterizar pelo fato de que, nos tempos anteriores,
a moral foi justificada por autoridade religiosa. Então,
desde mais ou menos duzentos anos, mais fortemente neste último
século, sabemos que não podemos em geral, justificar
a moral, mesmo que muita gente ainda tenha uma concepção
moral e religiosa. Por isso, temos este problema filosófico,
mas que é relacionado a um verdadeiro problema. Eu tomo como
exemplo uma criança que pergunta aos pais: Por que existem
essas regras, por que eu tenho que me habituar a elas? Isso é
o problema da justificação. Então, quando eles
não podem dar uma justificação religiosa, eles
têm um problema em como justificar isso à criança.
EC No livro Manuel e Camila, o senhor escreve sobre ética
para crianças, poderia falar um pouco sobre isso?
Tugendhat Escrevi este livro no Chile, juntamente com
um casal de amigos. Em contraste com tudo o que escrevi até
então, não é um livro filosófico, mas
pedagógico para que todos possam usar nas escolas, porque
hoje se quer falar em moral nas escolas. Não nos referimos
explicitamente a nenhum filósofo. O livro consiste em discussões
entre os alunos mesmos, grupos de alunos entre si e com seus pais
e professores sobre problemas morais.
EC Seria a construção de um entendimento,
seria um manual ou trabalho?
Tugendhat Não é um manual, seria mais como
uma pequena novela, porque as crianças têm suas aulas,
depois saem das aulas, têm algum problema, vão ao bibliotecário,
falam com ele. Falamos para crianças de 13, 14 anos, mais
ou menos, sobre em que consiste a moral e como se pode justificá-la.
Me refiro à regra que fala que, assim como você quer
que as pessoas atuem com você, você deve atuar com os
outros, e essa é a questão central do livro. O problema
da justificação naturalmente tem que ver também
com a concepção cotidiana da moral assim como temos
visto com uma criança e também em todas as questões
concretas, se pergunta como se pode justificar e como se justifica.
A minha posição é de que o núcleo de
uma moral, que não é religiosa, é uma justificação
recíproca.
EC A justificativa se dá de acordo com o que se
quer para si?
Tugendhat Isso seria pragmático. Estamos num sistema
de exigências recíprocas. A pergunta é como
estão justificadas essas exigências. Eu vou atuar assim
ainda que os outros não atuem assim. Mas concretamente se
diria que uma pessoa que atua normalmente só para que o outro
faça a mesma coisa, não atua por razões morais,
mas atua simplesmente por troca. A moral tem algo que ver também
com reciprocidade, claro.
EC O senhor também tem trabalhado com questões
relacionadas aos direitos humanos. Como vê essa movimentação
para a construção de um mundo mais justo?
Tugendhat Esse talvez seja o maior problema concreto
que temos: o da justiça social e o problema ecológico.
A dificuldade está naturalmente em como se pode fazer justiça
inserido num sistema mundial capitalista. Trata-se de um problema
grave e que deve ser enfrentado.
EC Tem surpreendido o movimento pela paz no mundo, agora
principalmente em função da guerra dos Estados Unidos
contra o Iraque. Como o senhor vê isso?
Tugendhat Eu fiquei muito impressionado com tanta gente
indo para as ruas, especialmente em relação à
guerra contra o Iraque. Isso significa que a gente tem mais consciência,
isso é muito bom. Tem gente que diz que o mundo está
em baixa, mas por outro lado há esses movimentos.
EC Por outro lado, tem surgido outros movimentos, como
o Fórum Social Mundial, manifestações contra
o cerceamento intelectual, discriminação racial, sexual.
As pessoas estão indo para as ruas, dizendo a minha
verdade não é essa.
Tugendhat Naturalmente, é muito mais fácil
mudar a opinião da sociedade sobre a homossexualidade e também
mudar os preconceitos sociais, do que chegar a uma boa concepção
da justiça social. Faria isso, precisamente, dentro de um
país só, então, tudo seria muito mais fácil.
Mas, como hoje todos os países estão economicamente
conectados a tal ponto que você introduz leis em favor de
mais justiça social, a competição com os estrangeiros
é mais difícil. Por exemplo, hoje na Europa, na Alemanha,
na França, tira-se uma parte da legislação
social porque as pessoas estão incapazes de competir. A realidade
do Brasil, me parece absolutamente terrível pela grande pobreza
e por esta situação econômica de viver com juros
muito altos.
EC A felicidade é possível numa sociedade
cheia de normas morais, com tantas contradições?
Tugendhat Todo o preconceito deveria ser erradicado.
Agora, a felicidade depende de muitas coisas, especialmente psicológicas.
Você tem razão, nós queremos construir uma sociedade
que seja mais feliz. Eu já estou velho demais e cético
demais. Eu creio que o mundo está em baixa, especialmente
com os problemas ecológicos, com o grande crescimento da
população. Eu creio que virão problemas dos
quais nós hoje nem temos idéia. Eu, ao contrário,
me surpreendo quando eu passo na rua, seja aqui no Brasil, na Alemanha,
e vejo que as pessoas estão felizes apesar de tudo. Na Alemanha
é interessante. Eu moro numa cidade pequena, universitária,
relativamente rica. Eu estou surpreso com as pessoas. Se vê
muita satisfação. Aqui no Brasil também. Os
brasileiros têm mais capacidade de estarem satisfeitos do
que qualquer outra nação que conheço. Essa
é uma característica do povo. Os brasileiros são
bem menos ansiosos do que os europeus, especialmente nas regiões
tropicais.
EC A solidão humana se esconde nesta satisfação?
Tugendhat É verdade, se esconde. A gente sai na
rua, então não está sozinho. Ao final, quando
a gente está confrontado com a morte, sempre vai estar sozinho.
Então, por isso você tem toda a razão de dizer
que a solidão se esconde na satisfação.
EC São os problemas da existência humana,
a dor de existir, são difíceis de dissimular.
Tugendhat Em comparação com outras nações,
os brasileiros são mais satisfeitos. A gente também
pensa que a razão é porque no Brasil nunca houve uma
revolução.
EC Satisfeito ou resignado?
Tugendhat Satisfeito, facilmente satisfeito nas coisas
pequenas. Você acha que eles são muito resignados?
EC Carregam um sentimento de impotência.
Tugendhat Isso é uma coisa muito universal hoje.
É interessante que a gente não se resigne completamente
e faça estas demonstrações nas ruas. Mesmo
assim eles vêem que podem fazer grandes demonstrações,
mas, para o Bush, isso não significa nada.