O divertimento do jovem Cortázar
César Fraga
Quando Julio Cortázar (1914-1984), nascido em Bruxelas,
mas educado em Buenos Aires, escreveu seu primeiro livro de ficção
longa, aos nove anos de idade, seus pais duvidaram da autoria. Embora
não se credite a isso, o escritor buscou, ao longo de sua
vida, a síntese do romance cujo grau de perfeição
entre forma e conteúdo fosse máxima, condição
a qual se impunha ferozmente, chegando ao ponto de atear fogo às
seiscentas páginas do que seria seu primeiro romance, Solilóquio.
Em 1947, concebeu a Teoria do Túnel, em que conceitua o romance
enquanto modalidade literária e expõe suas idéias
sobre o tema, e, praticamente planifica o que seria a bússola
de seus projetos para o gênero.
Embora sua aspiração só tenha sido alcançada
com o atordoante Jogo da Amarelinha, em 1963, foi com Divertimento
(Civilização Brasileira, 144 págs. R$
20), lançado agora, pela primeira vez no Brasil, que o escritor
dá começo a uma série de tentativas para alcançar
seu intento. Obviamente, desta vez, ainda não conseguira,
talvez por isso, essa nouvelle só tenha sido publicada dois
anos depois de sua morte, embora, escrita no verão de 1949.
Mas isso, de forma alguma, diminui o interesse sobre esse livro,
redigido por um Cortázar ainda jovem e não menos irônico.
Os atores da trama são, como ele, jovens da comunidade intelectual
e artística da Buenos Aires do final dos anos 40. Ali está
a gênese do que, mais tarde, o autor desenvolveria com maestria
e deixa à vista as ferramentas e escolhas estéticas,
as quais seguiria utilizando em sua trajetória como ficcionista
e que o tornaram um dos maiores escritores da língua espanhola
no século XX.
Em Divertimento, um grupo de jovens intelectuais reúne-se
em uma casa de campo, onde ficam expostos a experiências sobrenaturais.
Os diálogos, por vezes desconcertantes, são intercalados
por poemas de autoria de uma das personagens. Abundam referências
literárias e estéticas, não raro na forma provocações,
uma característica que também se tornaria marcante
no autor.
Antes de se consolidar como escritor, Cortázar trabalhou
durante algum tempo como professor em áreas rurais do país.
Em 1951, mudou-se definitivamente para Paris, onde desenvolveu sua
carreira literária, iniciada com a publicação
de Os reis. Entres suas principais obras destacam-se ainda Bestiário,
Octaedro e 62 Modelo para armar. Julio Cortázar morreu em
Paris, em 1984, de leucemia.