Ano 8 - nº 72
Junho 2003



Luis Fernando Verissimo:
O Lula de barba preta faria o mesmo governo que faz o Lula de barba branca? Não é conjetura vazia, a resposta tem a ver com várias perplexidades do momento. Se o Lula da barba ameaçadora também se...



Nei Lisboa:
Não se mova, não diga nada que chame a atenção dos outros funcionários e não erga os olhos até o término da leitura desta carta. Posso lhe garantir que o Rex foi...



Elisa Lucinda:
É, moça, tenho medo de não ver...é perigoso! Pelo que ouvi falar, posso tomar um veneno pensando que é remédio, posso ver detergente em frasco, que eu penso que é medicamento para tédio. Ando num mundo que...





O divertimento do jovem Cortázar

César Fraga

Quando Julio Cortázar (1914-1984), nascido em Bruxelas, mas educado em Buenos Aires, escreveu seu primeiro livro de ficção longa, aos nove anos de idade, seus pais duvidaram da autoria. Embora não se credite a isso, o escritor buscou, ao longo de sua vida, a síntese do romance cujo grau de perfeição entre forma e conteúdo fosse máxima, condição a qual se impunha ferozmente, chegando ao ponto de atear fogo às seiscentas páginas do que seria seu primeiro romance, Solilóquio. Em 1947, concebeu a Teoria do Túnel, em que conceitua o romance enquanto modalidade literária e expõe suas idéias sobre o tema, e, praticamente planifica o que seria a bússola de seus projetos para o gênero.

Embora sua aspiração só tenha sido alcançada com o atordoante Jogo da Amarelinha, em 1963, foi com Divertimento (Civilização Brasileira, 144 págs. – R$ 20), lançado agora, pela primeira vez no Brasil, que o escritor dá começo a uma série de tentativas para alcançar seu intento. Obviamente, desta vez, ainda não conseguira, talvez por isso, essa nouvelle só tenha sido publicada dois anos depois de sua morte, embora, escrita no verão de 1949. Mas isso, de forma alguma, diminui o interesse sobre esse livro, redigido por um Cortázar ainda jovem e não menos irônico. Os atores da trama são, como ele, jovens da comunidade intelectual e artística da Buenos Aires do final dos anos 40. Ali está a gênese do que, mais tarde, o autor desenvolveria com maestria e deixa à vista as ferramentas e escolhas estéticas, as quais seguiria utilizando em sua trajetória como ficcionista e que o tornaram um dos maiores escritores da língua espanhola no século XX.

Em Divertimento, um grupo de jovens intelectuais reúne-se em uma casa de campo, onde ficam expostos a experiências sobrenaturais. Os diálogos, por vezes desconcertantes, são intercalados por poemas de autoria de uma das personagens. Abundam referências literárias e estéticas, não raro na forma provocações, uma característica que também se tornaria marcante no autor.

Antes de se consolidar como escritor, Cortázar trabalhou durante algum tempo como professor em áreas rurais do país. Em 1951, mudou-se definitivamente para Paris, onde desenvolveu sua carreira literária, iniciada com a publicação de Os reis. Entres suas principais obras destacam-se ainda Bestiário, Octaedro e 62 Modelo para armar. Julio Cortázar morreu em Paris, em 1984, de leucemia.



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