Começa o debate sobre reformas trabalhista e sindical
O
cenário é nebuloso: não há consenso
entre patrões e empregados, nem entendimento entre as principais
centrais de trabalhadores. Os empregadores, igualmente, não
fecharam posição. Após as reformas da Previdência
e Tributária, entra em cena o tema das alterações
que serão promovidas na legislação do trabalho
e no modelo do sindicalismo brasileiro. O presidente Luís
Inácio Lula da Silva pretende enviar o pacote das reformas
trabalhista e sindical ao Congresso Nacional até o final
de 2003. Antes disso, em outubro, será instalado o Fórum
Nacional do Trabalho, com representantes de empresários e
trabalhadores. Já a partir de junho, as delegacias regionais
do Trabalho começam a organizar seminários nos estados.
Ou seja: as reformas trabalhista e sindical estão programadas
para o final do ano, mas o debate começa já.
Paulo César Teixeira
xistem
no país mais de 12 mil sindicatos de trabalhadores. A maior
parte tem pouca representatividade, não está filiada
a nenhuma central nacional e se mantém exclusivamente graças
às verbas do imposto sindical. Cerca de duas mil entidades
são filiadas à Central Única dos Trabalhadores
(CUT), ao passo que a Força Sindical controla 1.810. A Central
Geral dos Trabalhadores (CGT) abriga mais 1.080. Outras três
confederações Social Democracia Sindical (SDS),
CAT (Central Autônoma de Trabalhadores), de orientação
cristã, e Central Geral dos Trabalhadores (CGT), ligada ao
MR-8 marcam posição no movimento sindical.
Para o professor Anselmo Luís dos Santos, do Centro de Estudos
Sindicais e de Economia (Cesit) da Unicamp, as linhas prioritárias
das reformas somente serão visíveis a partir do início
das atividades do Fórum Nacional. Tudo leva a crer
que a legislação trabalhista não terá
alterações substanciais, já que implica direitos
assegurados. A pauta central do debate será a reforma sindical.
(Leia a respeito da reforma trabalhista à p. 20) Neste sentido,
o Fórum será o palco não apenas de um embate
entre capital e trabalho, mas também do confronto entre as
diversas concepções de atuação sindical.
Estarão em jogo a estrutura e o aparato de poder que
sustentam sindicalistas e tendências políticas e partidárias
abrigadas nos sindicatos, afirma Santos.
Unicidade e imposto sindical dividem centrais
No centro da discussão estão duas bandeiras históricas
o fim da unicidade e da contribuição sindical
obrigatória. São temas polêmicos que dividem
as três principais centrais trabalhistas. Na verdade, o Brasil
é signatário da Convenção 87 da Organização
Internacional do Trabalho (OIT) que rompe o conceito de unicidade,
segundo o qual apenas um sindicato pode representar uma categoria
profissional na mesma base territorial, desde 1949; no entanto,
jamais colocou a norma em prática. O pluralismo sindical
é um passo essencial para que os trabalhadores possam organizar
suas entidades com liberdade e autonomia, sem a tutela do estado,
diz o vice-presidente da CUT/RS, Cássio Bessa.
Não é o que pensa o Secretário Nacional de
Relações Sindicais da CGT Hugo Perez para quem a unicidade
faz parte da cultura sindical brasileira. Ele prevê
a pulverização do movimento em milhares de entidades,
quebrando a espinha dorsal da representatividade dos trabalhadores.
Pior: a CGT aposta na criação de sindicatos marionetes,
manipulados pelos empregadores com o fim exclusivo de interferir
nas negociações salariais. A CUT argumenta que, na
prática, a pulverização do movimento já
está em marcha, com a criação de entidades
por ramos ou setores específicos das atividades profissionais.
Neste caso, a camisa-de-força da unicidade contribui para
desmembrar a estrutura sindical, na medida em que retira legitimidade
da representação. Com sindicatos fortes e auto-sustentáveis,
há maior legitimidade para a garantia dos direitos dos trabalhadores,
reforça Bessa.
A Força Sindical defende um modelo intermediário.
Na base territorial, persistiria a imposição de apenas
uma entidade representativa. No plano nacional, vingaria a pluralidade.
Cada central teria suas federações e confederações
afiliadas. A tendência é a de que empresários
e trabalhadores possam fazer um contrato coletivo em nível
nacional, por ramo de produção, afirma o secretário-geral
da FS, João Carlos Gonçalves, conhecido como Juruna.
A FS aceita o fim da contribuição obrigatória
imposta pelo governo, desde que gradativa. Em parte, esta é
a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) do deputado Vicente Paulo
da Silva, o Vicentinho (PT-SP), ex-presidente da CUT . Além
de determinar o fim da unicidade, prevê a extinção
do imposto sindical num prazo de quatro anos. A cada ano, seria
reduzido em 20% até acabar por completo.
CGT teme a invasão de sindicatos
de fachada
A questão é: como os sindicatos vão
sobreviver sem a contribuição obrigatória
dos afiliados? Para o vice-presidente da CUT/RS, as
categorias decidirão democraticamente, em assembléias,
como irão sustentar suas entidades. O representante
da Força Sindical observa que acordos coletivos
poderão determinar o valor e até mesmo
a obrigatoriedade ou não da contribuição
dos associados. Neste caso, o importante é
que a decisão caberá aos trabalhadores,
e não a uma norma legal, ratifica Juruna.
Mas, para o dirigente da CGT, por vezes, a liberdade
escraviza e a lei liberta, filosofa Hugo Perez.
Realmente, muitos sindicatos vivem às custas
da contribuição sem representatividade.
Mas, para as entidades que lutam em favor dos trabalhadores,
o imposto também é importante. Se ele
acabar, não só os pelegos sairão
perdendo, mas também os dirigentes combativos
vão se enfraquecer barbaridade, como vocês
dizem aí no sul, salienta Perez. E aproveita
para desafiar a CUT: Ouso dizer que grande parte
dos sindicalistas da CUT é favorável à
unicidade, apesar da posição contrária
adotada pela cúpula. O juiz Roberto Siegmann,
presidente da Amatra/RS (Associação dos
Magistrados do Trabalho), é outro que teme a
criação de sindicatos de fachada
com o fim da unicidade. O ideal é a mudança
ser aplicada nas regiões industriais mais desenvolvidas,
no primeiro momento, para preservar os locais onde as
relações são mais frágeis
e incipientes.
A posição de cautela frente à pluralidade
sindical e o fim da contribuição é
compartilhada pelo professor Anselmo Santos, da Unicamp.
Setores fortes como metalúrgicos, petroleiros
e químicos não terão problemas.
Mas os sindicatos com pequenas estruturas, como construção
civil, comércio e serviços, sofrerão
um duro golpe. Para ele, a liberdade total de
organização sindical não pode ser
aplicada numa sociedade desigual. A idéia
de seletividade e concorrência entre os trabalhadores,
que passam a competir entre si, tem inspiração
liberal, acusa. Há questões práticas
a serem resolvidas, caso o modelo da unicidade seja
abandonado. Se houver vários sindicatos representando
uma só certa categoria, qual deles sentará
à mesa para negociar com os patrões? Para
os que defendem a pluralidade, a capacidade de mobilizar
e representar a categoria vai fazer a diferença.
Lutamos sempre pela unidade dos trabalhadores,
mas isso tem de ser fruto da discussão política
dos mesmos. Por isso, quem decidirá qual sindicato
irá representá-los serão os próprios
trabalhadores, diz Cássio, da CUT/RS.
Engana-se quem pensa que há consenso entre os
patrões quanto à reforma. No âmbito
da Confederação Nacional da Indústria,
não temos uma idéia definida. Mas existe
uma corrente, que tende a ser predominante, em favor
da pluralidade sindical, por entender que, para haver
negociação, é preciso que as partes
estejam habilitadas. Para tanto, os sindicatos têm
que ser verdadeiramente representativos e se imporem
pelos serviços prestados aos associados, e não
pela reserva de mercado, afirma o presidente do
Conselho de Relações de Trabalho da CNI
e representante dos empregadores no Conselho de Administração
da OIT no Brasil, Dagoberto Lima Godoy. Para ele, os
poucos sindicatos realmente representativos irão
se impor naturalmente. Os demais tenderão a desaparecer
por falta de apoio da classe trabalhadora ou de
sustentação econômica, desde que
o imposto sindical seja abolido.
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