Ano 8 - nº 72
Junho 2003



Luis Fernando Verissimo:
O Lula de barba preta faria o mesmo governo que faz o Lula de barba branca? Não é conjetura vazia, a resposta tem a ver com várias perplexidades do momento. Se o Lula da barba ameaçadora também se...



Nei Lisboa:
Não se mova, não diga nada que chame a atenção dos outros funcionários e não erga os olhos até o término da leitura desta carta. Posso lhe garantir que o Rex foi...



Elisa Lucinda:
É, moça, tenho medo de não ver...é perigoso! Pelo que ouvi falar, posso tomar um veneno pensando que é remédio, posso ver detergente em frasco, que eu penso que é medicamento para tédio. Ando num mundo que...





CUT quer a redução da jornada de trabalho

A reforma da legislação trabalhista também não é unanimidade. CUT e CGT não admitem mexer nos direitos sociais como férias, 13o, FGTS, etc. “A CUT nasceu para romper com a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho), em 1983, por discordar do modelo corporativo de sindicatos comprometidos com o estado. Nem por isso aceita qualquer retrocesso nas conquistas históricas da classe trabalhadora”, diz Bessa, vice-presidente da CUT/RS. Neste ponto, a CGT está de acordo: “Os empresários estão doidinhos para quebrar cláusulas pétreas. No dia em que o empregador puder negociar o que hoje é lei, não tardará a eliminar direitos”, afirma Perez. Entretanto, a Força Sindical tem posição favorável à flexibilização da legislação. Admite até o parcelamento de 13o ou férias. “Isso é bobagem. Se quiser receber em três parcelas, é problema do cara. Já está acontecendo”, assinala Juruna.

Uma das principais bandeiras da CUT na reforma trabalhista é a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. “A medida serviria para aumentar a oferta de emprego”, diz Bessa. Para o dirigente da CUT, a previsão da maior parte dos economistas é de que o PIB voltará a crescer, o que permitirá o aumento da massa salarial. A idéia é defendida também por Almir Pazzianoto, ex-ministro do Trabalho: “40 horas é um limite razoável, correspondendo a 5 dias de 8 horas. Numerosos países adotam esse sistema e em lugar algum contribui para o insucesso da economia.”
O dirigente da CNI observa que a classe empresarial não prega mudanças para retirar direitos constitucionais. “Apenas vemos a necessidade de atualizações para viabilizar a materialização desses direitos que, em muitos casos, ficam só na expectativa ou para inglês ver”, diz Lima Godoy. Para ele, a informalização das relações de trabalho está diretamente ligada à fuga das obrigações impostas pela Constituição Federal. Alega que a possibilidade de o trabalhador questionar o cumprimento do contrato de trabalho na Justiça cria um “passivo oculto, intangível e imprevisível, que representa incentivo para o empresário investir mais em máquina e menos em gente”.

Uma das idéias em estudo pelo governo é a desoneração de micro e pequenas empresas com o objetivo de combater a informalidade das relações trabalhistas, que compreende hoje 40 milhões de brasileiros. O ministro do Trabalho Jacques Wagner negou que a intenção seja flexibilizar direitos como 13° ou férias, mas não explicitou quais itens da CLT seriam alterados. “Defendo que essas empresas tenham menos obrigações. Não estou falando em precarizar o mundo do trabalho. Se for para fazer leilão de escravos, não contem comigo.” Para o juiz Roberto Siegman, entretanto, a idéia do ministro abre perigoso precedente. “Trazer os trabalhadores para a formalidade à custa da eliminação de direitos não dá. O governo precisa ser mais claro”, afirma.

 Proposta de reforma do CDES
Principais pontos da proposta do Conselho de Desenvolvimento Social e Econômico (CDES) para as reformas trabalhista e sindical, apresentada no final de maio ao Ministério do Trabalho, que deverá ser levada pelo Ministro Jacques Wagner ao Fórum Nacional do Trabalho. O CDES é órgão consultivo do Presidente Lula, vinculado à Secretaria Especial do Conselho do Desenvolvimento Econômico e Social.

1. Adotar regime de liberdade de organização sindical com base na convenção 87 da OIT – significa fim da unicidade (mais de um sindicato poderá representar a categoria na base territorial.

2. Extinguir gradualmente, num prazo de cinco anos, as contribuições sindicais obrigatórias e confederativas da taxa assistencial.

3. Garantir tratamento diferenciado para micro e pequenas empresas que não comprometa os direitos indisponíveis, adotando-se mecanismos de compensação.

Poderão faltar papel, tinta e caneta na Justiça

O secretário-geral da Força Sindical critica o modelo de organização que – segundo ele – tem por objetivo dirimir os conflitos entre patrões e empregados. “O sistema incentiva o trabalhador a procurar a Justiça do Trabalho, após a demissão, e não o sindicato. No tribunal, os conflitos são resolvidos individualmente com o fechamento de acordos. O Poder Judiciário funciona para segurar avanços e conquistas, e não garantir direitos”, afirma Juruna. Em parte, o professor José Márcio Camargo, de Economia do Trabalho, da PUC/RJ, concorda: “A Justiça é o lugar onde ocorre a negociação a posteriori do contrato de trabalho. Ora, se o empresário sabe que poderá obter vantagens com um acordo judicial, não se sente motivado a cumprir a Lei.”

O presidente da Amatra/RS rebate as críticas: “A Justiça trabalhista brasileira é a que mais julga no planeta (700 mil processos por ano) e cumpre importante papel na redistribuição da renda. Os acordos não chegam a 30% do casos.” Siegman condena o desmonte da estrutura de fiscalização trabalhista e cobra do Congresso uma legislação de execução mais eficaz. “Nos países europeus, quem deve na Justiça do Trabalho não consegue cadastro nem para tomar um cafezinho na esquina.” Defende a redução do número de recursos para que os ritos previstos em lei se tornem mais “céleres e rápidos”. O juiz reclama ainda do corte de 60% no orçamento da Justiça do Trabalho este ano. “Faltarão papel, tinta e caneta para trabalhar.”


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José Luis Fiori

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