O poder da retórica e a retórica do poder
Poder e retórica são duas palavras indissociáveis.
Se política é a arte de conquistar e de se manter
no trono, como dizia Nicolau Maquiavel (1469 - 1527), o político
só consegue seu intento com retórica, muita retórica.
Aliás, ninguém vive sem ela. Sendo um ser de linguagem,
o homem movimenta-se no mundo envolto em palavras, faladas ou não.
Faz retórica, aonde quer que vá. É o que afirma
o professor Pedrinho A. Guareschi, filósofo, sociólogo,
doutor em psicologia social, professor de Pós-Graduação
da Faculdade de Psicologia da PUC-RS, ao explicar como a retórica
se relaciona com o poder. A intenção foi analisar
questões da recente política nacional e internacional.
Guareschi tratou da ascensão de Lula, George Bush e a guerra
do Iraque, e o naufrágio de Carlos Menem na Argentina, mostrando
que por trás de todo ato humano há sempre um discurso,
mesmo quando não dito.
Jéferson Assumção

egundo
o professor, três dimensões (ética, emoção
e razão) estão sempre presentes no caso de um bom
retórico, o que teria ajudado o presidente Lula a chegar
lá. Pelo menos na campanha (diriam seus opositores), ele
passou a imagem de uma pessoa coerente, séria, compromissada.
Mas a diferença com os outros candidatos seria a manutenção
da coerência entre ethos (costume), pathos (paixão)
e lógos (razão) em seu discurso e atos. Todos
os gestos dele são retóricos. Mas você vê
que ele não sofistica. Ele trata uma pessoa assim, com informalidade,
quer dizer, não como algo que foi agregado de fora, mas que
vem de dentro dele, que está convencido dessas coisas. Por
isso ele age de uma maneira ou outra: os gestos, as falas são
algo coerente com a sua vida, com a sua ética, com a sua
virtude, pra falar como Platão, afirma o professor.
E se tudo é retórica, é possível um
político se eleger sem esta arte? Não, diz Guareschi.
Por isso, Lula precisou entrar no discurso para conseguir falar
com o povo brasileiro. Segundo o professor, havia uma época
em que o partido de Lula, o PT, era muito purista, só se
interessava pelas idéias e quase caiu numa simples burocracia,
o que dificultava as coisas na hora das eleições.
O que valia era o argumento racional, o lógico, uma dimensão
que teria sido exagerada. Além de razão, a retórica
política exige a capacidade de emocionar. Não
dá para ficar só na razão, é preciso
entrar um pouco de emoção, um pouco de Dionísio,
essa dimensão afetiva. Eu acho que o PT, sem abandonar exatamente
a coerência, conseguiu incorporar essa dimensão da
paixão, da retórica, do afeto, da emoção,
opina. Assim, o líder petista teve que se dobrar ao terno
Armani, aos cabelos e barba bem aparados para ganhar o poder.
O grande problema, no entanto, é o risco que se corre, entrando
num jogo retórico. Não há dúvida de
que as pessoas querem ver as coisas envoltas numa bela embalagem.
Agora, se ele só fica no retórico, sem trazer
conteúdo, corre o risco de trazer manipulação,
adverte. Política, como alertou Maquiavel, não é
ética, mas uma arte, quase que apenas retórica. Lula
incorporou esta dimensão e conquistou o poder, precisará
continuar sendo retórico para se manter lá? Guareschi
responde: Acho que ele deve manter a boa retórica,
aquela que não deve viver separada do seu conteúdo.
Separados, há discursos políticos que são pura
mentira, mas são ditos de uma maneira bonita. Se você
pergunta para uma pessoa: O que ele falou? Não sei, mas falou
de uma maneira tão bonita!. A sociedade brasileira
vê esta distinção cada vez mais claramente nos
discursos, por exemplo, do senador Antônio Carlos Magalhães.
Sua reconhecidamente brilhante arte retória tem se chocado
escândalo após escândalo, com fatos estampados
nos jornais. O último é o dos grampos telefônicos
e poderia servir de exemplo de retórica como arte, como embalagem,
mas que parece se distanciar da ética. É o uso de
apelo retórico, como têm feito alguns políticos
cuja mensagem vem numa embalagem, e se usa a embalagem para
esconder a mensagem, alerta Guareschi.
Essa retórica, no mau sentido, também poderia estar
sendo praticada pelo governo federal, ao focar em determinados pontos,
agora que está poder, e não em outros, como uma forma
de distrair. Mas o teórico não concorda com esse ponto
de vista. No caso do Lula, seria, segundo Guareschi, uma postura
retórica boa, cuidando que a estética
não venha derrubar a ética, tônica da política
atual.
Estética est ética
Hoje se é mais estética do que ética,
o que é a grande diferença e vem a derrubar o próprio
conteúdo de verdade que tem a ética e o lógico
da questão, é um predomínio que não
é fácil de ser traçado, lembra. Guareschi
acha que Lula não está sendo maquiavélico,
no sentido de usar a arte política para se manter no poder,
porque não exagera no estético, agora, Lula
não teria ganho se ele de fato não tivesse um esteta
ao seu lado. Também não teria ganho se fosse um falso,
se fosse puramente blá-blá-blá. A autenticidade,
a credibilidade, o ethos têm que ir junto com a emoção.
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Guareschi:
"A autenticidade, a credibilidade, o ethos têm
que ir junto com a emoção"
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E é exatamente o que está faltando no momento ao governo,
segundo alguns jornalistas do centro do País, que criticam
o Presidente por beneficiar-se da concessão de exclusividade
a determidados veículos de comunicação para
o exercício de sua retórica. Ou seja, o Governo escolhe
com quem e quando vai falar favorecendo redes de comunicação
em detrimento de outras. Para se ter uma idéia, no centésimo
dia de seu primeiro governo, período equivalente ao que Lula
se encontra hoje, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso já
havia reunido cerca de 100 profissionais de imprensa em entrevistas
coletivas, quando tentou sustentar com palavras o que vinha fazendo
até então. Há poucos dias, o dia 100 de Luiz
Inacio Lula da Silva no poder resultou em apenas uma declaração
em cadeia de rádio e televisão nacional, sem entrevista.
O fato contrastou com o aparecimento diário em todos os meios
de comunicação nos dias que antecederam o segundo
turno das eleições, e tem rendido críticas
duras ao governo que se elegeu como democrático e popular.
Desde 1º de janeiro, Lula só concedeu entrevistas a
dois programas da rede Globo, ao jornal Washington Post e à
revista Time. Mas não é por acaso que isso acontece.
Essa atitude faz parte de uma estratégia que se utiliza dessa
arte ou ciência que tem suas origens ainda no século
IV a. C. Ela se chama retórica. E intercala coisas ditas
e não-ditas.
Mais Especial:
Perda
de credibilidade e de "capital simbólico"
A
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