Obediência
em pílulas
A
era superlativa em que vivemos não poupa sequer as crianças e adolescentes
em idade escolar de serem rotuladas como hiper-alguma-coisa.
Criança arteira é coisa do passado. Agora elas são hiperativas.
A medida do excesso pode ser os quase mil porcento de aumento no
uso de Ritalina no Brasil nos últimos seis anos, medicamento que
só pode ser adquirido nas farmácias mediante receita, e que tem
sido consumido a rodo por estudantes em todo o país com e sem acompanhamento
médico. Surge o fenômeno da medicalização, ou seja, comportamentos considerados
impróprios são encarados como patologias e tratados como doença.
Como distinguir um problema de comportamento de uma doença de comportamento?
O segredo pode estar em um diagnóstico confiável, isento. Eis um
desafio para médicos, professores e pais. Nunca esquecendo que
por trás das doenças da moda sempre há uma indústria que fatura
alto, a farmacêutica. Levantamento realizado com estudantes das
redes estadual, municipal e privada de Porto Alegre mostra que
83% das crianças encaminhadas para diagnóstico com suspeita de
hiperatividade não possuem a doença. Na maioria das vezes, os distúrbios
comportamentais tem origem familiar.
Por Clarinha Glock
stá em
andamento um novo e perigoso processo de terceirização:
o das crianças e dos adolescentes. Pais sem tempo ou capacidade
de cuidar de seus filhos transferem para o colégio toda
a responsabilidade de sociabilização dos jovens.
Por outro lado, às vezes sobrecarregados por essa tarefa
a mais, alguns professores e diretores tendem a encaminhar os “alunos-problemas” para
os médicos, acreditando que situações-limite
na sala de aula possam ser resolvidas com medicamentos.
A “reencaminhamentoterapia” pode ter efeitos desastrosos se pais
e educadores não se sentarem juntos para discutir as causas por trás
do aumento do uso de remédios pelos estudantes nas escolas.
Na lista dos medicamentos que ganharam projeção nos últimos
anos, a Ritalina é a mais conhecida. Nome popular de uma substância
chamada metilfenidato (estimulante do grupo das an-fetaminas), é indicada
para os casos de Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade
(TDAH), distúrbio que se caracteriza por alterações nos
sistemas motores, perceptivos, cognitivos e de comportamento que comprometem
a aprendizagem de algumas crianças. Elas ficam agitadas, têm problema
de concentração e organização, temperamento explosivo
e interferem nas atividades dos outros. Esse medicamento atua nos neurotransmissores
(substâncias químicas que passam informação de uma
célula nervosa para outra).
Nas escolas, a presença da medicalização é mais
visível desde o final da década de 90, quando se começou
a detectar uma quantidade absurda de hiperativos diagnosticados por psicólogos,
psiquiatras e neurologistas. Durante o tratamento, essas crianças eram
medicadas. O resultado foi uma geração de alunos aparentemente
mais tranqüilos, mas com prejuízos na parte de relacionamento porque,
conforme constataram as pesquisas, nem sempre os diagnósticos estavam
corretos.
Um estudo feito em 1993 pela neuropediatra Ana Guardiola com uma amostra aleatória
representativa de 484 crianças do total de 35.521 alunos das 1as séries
de Porto Alegre – sendo 310 da rede estadual, 58 da rede municipal e
116 da rede particular de ensino – indicou que a prevalência de
TDAH variava de acordo com diferentes critérios de avaliação.
Os exames mais detalhados, seguindo os critérios neuropsicológicos,
mostraram que apenas 3,5% a 3,9% apresentavam o distúrbio. “O
transtorno é muitas vezes mal diagnosticado. A maioria das crianças
precisa apenas de um manejo psicopedagógico, não de remédio”,
constatou Ana.
Entre 2003 e 2005, o Centro de Orientação ao Escolar (COE), vinculado
ao Hospital da Criança Santo Antônio da Irmandade Santa Casa de
Misericórdia de Porto Alegre, avaliou cerca de 200 crianças.
Destas, 77% vinham com um diagnóstico prévio ou com suspeita
de TDAH. Depois de uma série de exames criteriosa feita por uma equipe
interdisciplinar (psicólogos, psiquiatra, neuropediatra, fonoau-diólogo,
psicopedagogo), o grupo constatou que apenas 9% tinham efetivamente TDAH e
8% apresentavam outros problemas orgânicos ou mentais. Os 83% restantes
apresentavam problemas no funcionamento familiar e foram encaminhados para
a psi-coterapia familiar ou individual, conforme o caso.
Visão global é o mais importante

Ter
um olhar global de vários profissionais
sobre o paciente é essencial. “Um só profissional
não pode analisar questões familiares, neurológicas,
psiquiátricas, psicológicas, ou excluir doenças
orgânicas, como a epilepsia de ausência, que leva
uma criança a sair do ar”, alerta o psiquiatra
infantil e psicanalista Athos Pereira Schmidt. Os médicos
se deram conta de que havia um excesso de diagnósticos
de TDAH quando passaram a receber bilhetes dos professores
sugerindo que seus alunos fossem medicados com Ritalina. O
grande risco é não saber os efeitos a médio
e longo prazo do uso desnecessário desse e de outros
remédios no cérebro de uma criança menor
de 12 anos, em que os neurotransmissores ainda estão
em formação. Do ponto de vista emocional, o dano é previsível:
será um jovem criado com a idéia de que só funciona
bem se tomar um medicamento.
O uso indiscriminado de remédios eventualmente mascara a verdadeira
causa da agitação.
A neurologista e neurofisiologista Elnora de Paiva Ayres, diretora
do COE, explica que, se o diagnóstico estiver equivocado, há a possibilidade
de a criança tentar chamar a atenção de outras formas,
porque seu pedido de socorro não foi ouvido. “Bater no colega é um
distúrbio de conduta leve que, se não for tratado adequadamente,
evolui para problemas mais sérios, até para a delinqüência”,
avisa Schmidt.
| Foto:
Tânia Meinerz |
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Athos
Pereira Schmidt |
Medicalização reforça preconceitos
A questão da medicalização também é preocupante
porque tem sido usada para reforçar preconceitos, salienta
a médica e professora Maria Aparecida Affonso Moysés,
titular de Pediatria Social na Faculdade de Ciências Médicas
da Unicamp, em São Paulo. Isso acontece quando, em vez
de se considerar como causa do fracasso do sistema escolar brasileiro
os problemas de ordem social, política e econômica,
se atribui como causa as pretensas doenças que impediriam
as crianças de aprender. “Quando se diz, por exemplo,
que uma criança não aprende porque ela tem uma
disfunção neurológica, você está frente
a um processo de medicalização e justifica como
tendo soluções no campo da Medicina, do mesmo modo
quando diz que uma criança não aprende porque está desnutrida.”
A conseqüência é que, se o professor acredita que a criança
não aprende porque ela tem um problema que a impede de aprender, ele
não vai investir numa avaliação do próprio processo
de ensino-aprendizagem, nem na criança para que ela tenha acesso a um
ensino adequado. “Vai acreditar que não tem nada a fazer, e, portanto,
a criança não vai aprender mesmo”, observa Maria Aparecida.
Além do fato de serem efetivamente privados do aprendizado, a maior
parte dos alunos introjeta a doença e passa a acreditar que é incompetente
e incapaz. Mas, nestes casos, insiste Maria Aparecida, o fracasso não é da
criança, é do sistema político e pedagógico brasileiro
do qual o professor também é vítima, porque é mal
pago, sem tempo para preparar a aula. A recuperação destes jovens é difícil
porque eles são estigmatizados e excluídos de forma violenta
e cruel.
Maria Aparecida publicou dois livros sobre o tema: Preconceitos
no cotidiano escolar – Ensino e medicalização (Editora Cortez, 1996),
junto com a professora Cecília Collares, e A institucionalização
invisível – Crianças que não aprendem na escola
(Mercado de Letras/Fapesp, 2001). Desde então, pouca coisa mudou. “A
situação é assim não porque as autoridades desconheçam,
mas porque há uma opção política dos governantes”,
acredita. E a saída, a seu ver, “é investir na formação
dos professores, em profissionais que acreditem ser capazes de ensinar qualquer
criança, porque toda criança é capaz de aprender”.
A causa pode estar na família
Descartado o diagnóstico de TDAH ou de outras doenças, um aluno
pode estar desatento na sala de aula por inúmeros motivos, como um momento
de depressão na família pela separação dos pais,
brigas, medo de perder o afeto da mãe porque nasceu um irmão,
ou porque está excitada com muitas mudanças. Às vezes,
esses estudantes considerados “hiperativos” são apenas resultado
de uma família desorganizada, sem rotina, em que o filho não
tem hábito de estudo, nem horário para dormir. E é aí que
aparece a tentação da “terceirização”.
O teólogo e professor Omero de Freitas Borges Júnior, diretor
do colégio La Salle Santo Antônio, em Porto Alegre, lembra que
se começa a falar novamente nos esquemas de internato. Muitas escolas
já ampliaram seus turnos para o tempo integral porque os pais não
têm onde deixar seus filhos. Jovens de três a 10 anos passam das
7h30min às 19h dentro dos colégios.
| Foto:
Tânia Meinerz |
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Omero
de Freitas Borges
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Esse é um dos lados da questão. O outro é que, o que antes
se chamava de “manha”, hoje aparece na sala de aula na falta de
limite com os colegas, no “não-compartilhar”. Borges explica: “A
gente tem alunos que aos 10 anos discutem como adultos com a lógica
do ‘é meu, eu quero, eu posso, eu faço’”. É o
resultado, acredita, de uma sociedade de transgressões, individualista,
hedonista e egocêntrica, em que há uma tendência a dar invisibilidade
ao outro de forma cada vez mais precoce.
Em 2004, foram avaliados 30 alunos de uma turma de 5ª série do
La Salle Santo Antônio em que nove haviam sido diagnosticados como hiperativos.
Posteriormente, só três casos foram confirmados. “O que
havia era a ausência de um adulto para dar limites – o menino não
era hiperativo, mas mal-educado”, concluiu Borges. É o filho de
casais que geralmente têm sentimento de culpa por não estarem
muito tempo com a criança e tentam compensar suprindo todas as suas
vontades. Nem sempre os pais recebem bem a notícia de que o problema
não é com os filhos, mas com a educação que dão
em casa. Especialmente nas escolas particulares, é comum os profissionais
do Serviço de Orientação Educacional ouvirem dos pais
o discurso do tipo: “Eu pago o seu salário, eu mando”.
SERVIÇO
O Centro de Orientação ao Escolar (COE) é formado
por uma equipe interdisciplinar que avalia e diagnostica crianças
e adolescentes com transtornos de desenvolvimento e dificuldades
de aprendizagem. É vinculado ao Hospital da Criança
Santo Antônio, da Irmandade Santa Casa de Misericórdia
de Porto Alegre. Mais informações no site www.coers.com.br ou
pelos telefones (51) 3214.8000 e 3214.8745
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O marketing por trás do diagnóstico
Arte
de Claudete Sieber
sobre
fotos de Tânia Meinerz
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O psiquiatra infantil Athos Pereira Schmidt observa que gradativamente
vem aumentando a influência da corrente norte-americana na Psiquiatria que,
em vez de tratar da causa dos problemas, baseia-se principalmente no alívio
de sintomas. Portanto, se antes as doenças eram uniformizadas em termos
genéricos como neuroses e psicoses, segundo a etiologia, agora são
tratadas mais como transtornos específicos, segundo os sintomas. “Por
trás disso, há um interesse de quem quer tratar estes sintomas,
que é a indústria farmacêutica”, conclui Schmidt.
Basta ver o investimento que os grandes laboratórios fazem em amostras
de remédios, propaganda em revistas e marketing no material que chega
para os médicos. O psiquiatra desconhce a existência de casos
extremos, porque, quando as crianças tomam o remédio e ficam
super agitadas, ou “chapadas” pelo remédio, instintivamente
os pais param de administrá-lo e procuram outro especialista. “Graças
a Deus não temos um caso que provocou danos maiores”, afirma.
Esta talvez seja uma das razões por que a chamada “droga da obediência”,
a Ritalina – medicamento mais conhecido do grupo dos metilfenidatos,
indicada para TDAH – apresentou um crescimento de vendas de 940% no país
entre os anos 2000 e 2004, segundo levantamento do Instituto Brasileiro de
Defesa dos Usuários de Medicamentos (Idum). Os cálculos do Idum
se basearam nos números do Instituto Suíço de Pesquisa
de Medicamentos, grupo que contabiliza os dados do mercado farmacêutico
mundial. Em 2000, no Brasil foram vendidas 71 mil caixas e, em 2004, 739 mil.
Sabemos que existe uma ação forte dos laboratórios sobre
os médicos e a nossa pesquisa parece mostrar isso, porque não
tem sentido um aumento de venda tão alto de um dia para o outro”,
analisa o farmacêutico Antônio Barbosa, coordenador do Idum.
Terapia tamanha família
O jornalista Chico Noronha, 44 anos, custou um pouco a aceitar
que seu filho poderia estar com problemas no colégio. Separado da mulher, costumava
ficar com a menina mais velha e o caçula somente nos fins de semana.
Não tinha tempo para ver a agressividade latente, pois trabalhava 12
horas diariamente. Até o momento em que os dois foram morar com ele,
e Chico passou a freqüentar as reuniões de pais. Quando uma psicóloga
lhe chamou a atenção pela primeira vez que a garota, então
com cinco anos de idade, e o pequeno, com apenas quatro, andavam meio agressivos
e sugeriu procurar ajuda, a primeira reação de Chico foi de incredulidade. “Terapia
para os meus filhos? Tá louca?”, pensou.
Um ano depois, a situação piorou e o casal e os filhos começaram
a terapia intensiva que durou em torno de dois meses. O problema, constataram,
era a falta da mãe, que passou a fazer visitas mais freqüentes às
crianças. A vida parecia ter voltado ao normal, mas, em novembro de
2005, Chico foi chamado novamente à escola. O caçula andava agredindo
os colegas. Do jeito que estava, ninguém ia querer mais convidá-lo
para as festas, os amiguinhos já evitavam ficar perto dele. Até na
professora ele bateu. Chegara ao limite, ameaçado de não passar
para a 1ª série.
| Foto:
Tânia Meinerz |
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Chico
Noronha
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Chico e o filho retomaram a terapia. Na dúvida se o problema era a separação
dos pais ou algo mais grave, levou o garoto a um neurologista, já que
os sintomas pareciam com os de TDAH, ainda que o terapeuta apostasse que o
problema era emocional. Como os exames neurológicos não mostraram
alteração, o neurologista receitou apenas um medicamento para
que o menino ficasse mais concentrado, e o tratamento foi mantido por dois
a três meses. Nesse período, Chico reorganizou sua vida: reservou
as manhãs para ficar com os filhos, agora almoça com eles e os
leva para a escola.
Os resultados não demoraram a aparecer. Orgulhoso, Chico conta como
o filho voltou a se interessar pelas coisas, foi “promovido” à 1ª série
e, mesmo com um mês de atraso em relação aos demais da
turma, está praticamente no mesmo nível dos colegas. Hoje ele
agradece à escola o alerta que lhe fizeram e que permitiu uma intervenção
num momento crucial. “O encaminhamento certo é o que conta”,
avisa.
Remédio para
doença errada
A menina L., hoje com 10 anos, rodou na 3º série e perdeu o ano.
Tomou remédios sem ter necessidade. E podia ter perdido muito mais se
não fosse a obstinação da mãe, a empresária
S.S., 47 anos, que ousou interromper os medicamentos indicados para tratar o
déficit de atenção da filha e resolveu procurar outros especialistas.
Para evitar a estig-matização de L., a mãe preferiu não
se identificar.
Ninguém entendia por que a jovem se esforçava tanto em casa para
estudar e não ia bem nas provas. Logo que L. começou a apresentar
os primeiros problemas, a mãe a levou a um psicopedagogo, que encaminhou
o caso para o neurologista. O exame constatou uma pequena alteração.
Um segundo médico confirmou o diagnóstico e receitou Ritalina e
um anticonvulsivante chamado Depakene.
S. relutou durante quatro meses em dar o remédio, afinal a garota tinha
apenas oito anos de idade – temia que os medicamentos pudessem provocar
outras alterações. “Em casa, nunca dávamos nem uma
aspirina se não tivesse indicação médica”,
conta. O problema, segundo constataram os médicos, era déficit
de atenção, e não hiperatividade, porque a menina brincava
normalmente com as outras crianças, não era agressiva.
Mesmo com os remédios, L. não conseguia fixar a atenção.
A empresária resolveu buscar a avaliação de uma equipe interdis-ciplinar
que diagnosticou dislexia, um distúrbio de leitura e escrita caracterizado
pela dificuldade em decodificar e compreender palavras escritas.
“Foi um choque”, lembra S. “No dia em que soube, chorei muito – chorei
porque ela foi medicada e não se percebeu o problema antes, e porque a
gente cobrou dela por não conseguir fazer as tarefas nem copiar as coisas
direito”. Identificado o problema, mudaram as cobranças, o medicamento
e a postura, tanto em casa quanto na escola. No colégio, os professores
estão buscando novas formas de trabalhar com a aluna. Hoje S. sabe que
a dislexia provoca dificuldades de organização e que é preciso
uma ajuda extra dos adultos. Além da atenção de uma doutora
em educação especial na escola, a menina conta agora com uma fonoaudióloga
e uma psicope-dagoga.
O consolo de S. é que ela nunca desistiu de buscar o real diagnóstico
da filha. Aos pais que têm dúvidas, ela dá o mesmo conselho
que recebeu da professora, quando duvidou do primeiro tratamento indicado pelo
neurologista: “O médico pode ser até super graduado, mas,
se não está satisfeita, procure outro”.
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Superando a culpa
Desde muito pequeno, Enzo podia ser considerado uma criança “arteira”.
Começou a caminhar com oito meses, com um ano já corria pela
casa. Aos três anos e meio, no entanto, a mãe, Candice Muniz,
notou que havia algo errado com o filho. Ele não conseguia ficar muito
tempo sentado para assistir a um desenho na televisão, nem esperava
os joguinhos terminarem para fazer outra coisa. Na escola, dava tapas e empurrões
nos colegas. “A psicóloga do colégio dizia que eu estava
me preocupando com bobagem, mas comecei a investigar”, lembra Candice.
Na época, hiperatividade ainda era um palavrão para ela, talvez
uma pista da razão do comportamento dispersivo do menino.
Um amigo lhe recomendou um psiquiatra que fez o diagnóstico: TDAH, com
indicação para tomar Ritalina. O remédio fez o garoto
ficar mais quieto, parado. Preocupados, os familiares que eram médicos
recomendavam que ela procurasse outro especialista, porque tomar medicamento
nessa faixa etária podia ser perigoso, afinal Enzo não estava
ainda com o cérebro formado. E ela foi à luta. Buscou na internet
e também ouviu outros médicos, até chegar à equipe
interdisciplinar do COE. Enzo passou por uma bateria de testes, e os especialistas
foram unânimes: ele tinha problemas, sim, mas não eram hiperatividade.
Passava por dificuldades emocionais e de fala. Precisava de uma fonoaudióloga
e de um psicólogo. Os exames com profissionais de várias áreas
tranqüilizaram Candice. O menino podia parar de tomar Ritalina.
O alívio que trouxe alegria para a mãe também rendeu alguns
prantos. “Quando a gente tem um filho, quer que ele seja feliz e saudável. Às
vezes, as pessoas não procuram o médico porque não querem
ouvir um diagnóstico negativo”, conta. Como grande parte das mulheres
que se sentem culpadas por trabalhar demais e ter pouco tempo para os filhos,
Candice não conseguia dar limites a Enzo e ficava atrapalhada na hora
de lidar com o menino. Reconhecer essa dificuldade foi o primeiro passo. O
resto foi aprendendo aos poucos.
Nesse meio tempo, ela se separou do marido. Quando soube do novo diagnóstico
de Enzo, também Candice passou a fazer terapia com uma psicóloga.
Aos poucos, a situação começou a melhorar e as idéias
ficaram mais claras. Hoje com cinco anos, Enzo está prestes a receber
alta do tratamento com a fonoaudióloga e com a psicóloga. O medo
de que o filho ficasse estigmatizado fez com que Candice pensasse em trocá-lo
de turma, mas o próprio Enzo se impôs: “Mãe, vou
melhorar e mostrar para meus colegas que mudei”. Não só continuou
na mesma turma, como teve um aproveitamento excelente, conforme mostram suas
avaliações.
Candice superou o fantasma das culpas e se empenhou no tratamento dos dois. “O
tratamento mais importante foi comigo, me ensinou como agir”, explica.
Aprendeu que dar limites também é uma demonstração
de amor. Ao mesmo tempo, mudou completamente sua rotina de vida. Atualmente
passa a manhã e almoça com o filho, e compensa a carga horária
ficando até um pouco mais tarde no trabalho. Está convencida
de que sua produção no emprego até aumentou, além
do relacionamento com o filho estar cada vez mais fortalecido.
Divide a experiência com outras mães, sempre que possível. “Se
vejo pessoas em situação parecida, eu me aproximo e falo com
elas”, avisa. Geralmente são mães que, diante dos ataques
dos filhos, trazem no rosto o questionamento do tipo “onde vou me enfiar?”.
Esses dias, uma delas lhe telefonou, agradecendo: “Tu não sabes
como me ajudou”. Candice sabe.