Irmão
comprometido com a
purificação das águas
Por André Pereira

Não
quero mais saber de reza, irmão. Me bastou o período
em que fui seu aluno. O senhor me empanturrou de religião.
Agora, chega – declara, sorridente, o jovem e bronzeado empresário,
vestindo bermudas brancas, imaculadas como a camisa Lacoste e o
alvo boné imitando quepe de oficial da Marinha, com aba
azul e o dístico com monograma dourado.
Com olhar esperto, o velho irmão vasculha a cabine de comando
do iate do ex-aluno do Colégio Rosário, em Porto
Alegre, onde lecionou nos anos 60 antes de ser preso pelos militares
que golpearam a nação em 1964. E encontra, ao lado
do leme, a imagem da santa, pequenina mas que se impõe,
colorida e impávida estatueta. Então, interroga o
dono da embarcação com expressão irônica.
–
Irmão, nela eu me agarro quando estou no meio do rio e o
tempo muda, inesperadamente, trazendo tempestade, susto e mau agouro.
Aí, rezo mesmo com a santinha... – rebate o empreendedor,
pego na contradição de maneira tão singela.
–
Ah! Desgraçado. Nesta hora a reza te convém... – diz,
em tom de severidade brincalhona, que não surpreende mais
o antigo estudante rosariense, o irmão Antônio Cechim,
santa-mariense de 79 anos que veio para Porto Alegre com 10 anos
para estudar no internato do Colégio Champagnat e, depois,
virar religioso da congregação dos Irmãos
Maristas.
Irmão Cechim está aproveitando para completar mais
um passinho da missão a que se dedica desde 1985 trabalhando
com comunidades nas ilhas do Guaíba, lutando pela preservação
das águas e pela despoluição ambiental.
Em 1985, já afamado pelo trabalho de organização
dos movimentos populares na Grande Porto Alegre, onde liderou ocupações
urbanas em condomínios residenciais, irmão Cechim
foi convidado pela freira belga Marie Eve para substituí-la
na tarefa que executava com os moradores das ilhas. Com 90 anos,
quase cega, a freira passou-lhe o bastão na Ilha Grande
dos Marinheiros onde fazia trabalho de catequese e estimulava a
geração de renda, ensinando a ciência do artesanato
em lã. Sem os mesmos dotes, irmão Cechim viu que
das toneladas de lixo que as águas carregavam – principalmente
durante as enchentes antes costumeiras – os ilhéus
poderiam retirar sustento e, ao mesmo tempo, contribuir para a
despoluição. Foi assim que em 1987 nasceu a primeira
associação de catadores, depois recicladores de lixo,
de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul. Em 1989, quando o Partido
dos Trabalhadores de Olívio Dutra assumiu a prefeitura da
Capital, propôs ao irmão Cechim a transformação
daquela prática em um elemento da política pública
da municipalidade em relação às ilhas. Ali
na Ilha Grande dos Marinheiros, entre o povo de recicladores, areeiros
e pescadores, instalou-se o primeiro Centro Administrativo Regional
(CAR) de Porto Alegre nos primórdios da descentralização
administrativa que o governo dito da Frente Popular praticou por
16 anos com o sistema do Orçamento Participativo (OP). “Enxameei
as ilhas com outros galpões de reciclagem que hoje somam
18 associações só na cidade e cerca de 100
no Estado”, festeja Cechim.
Agora, diante do feliz proprietário do iate, como faz com
todos potenciais cúmplices de jornada, especialmente aos
que têm alguma ligação com o lago (de dependência,
afeto ou lazer), também Cechim pede ajuda, para que se incorpore,
da forma como puder, e propague a idéia de resgate do Guaíba
que tem águas tão impuras hoje quanto sagradas na
origem da vida. (“A gente não nasce de uma bolsa de água?”,
simplifica o religioso.)
Do ponto de vista institucional, esse apelo à consciência
ambientalista dos gaúchos com relação à importância
do Guaíba foi consolidado com a realização
da Romaria das Águas no dia 12 de outubro, que é data
consagrada à Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil.
| Foto:
Tânia Meinerz |
|
Cechim,
21 anos lutando pela
despoluição do Guaíba |
O evento nasceu em 1994 como uma espécie de afirmação
da devoção ao lago, que a parte oficial da procissão
de Nossa Senhora dos Navegantes despreza no dia 2 de fevereiro,
preferindo o percurso terrestre, desde a Igreja do Rosário
no centro da Capital até a Igreja de Navegantes, no bairro
da zona norte. Pois, com outra santa, o irmão Cechim tratou
de institu-cionalizar esta Romaria das Águas de outubro.
Mas hoje já não tem o auxílio do atual governo
estadual – que encontrava na gestão anterior em parcerias
solidárias do Programa Pró-Guaíba. (Em 1999,
a romaria do lago passou a abranger toda a Região Hidrográfica
do Guaíba, com 84,7 mil km², formada por nove bacias
hidrográficas e mais de 250 municípios, beneficiando
uma população de mais de seis milhões de habitantes. “De
nada adiantaria se apenas o lago Guaíba fosse despoluído,
pois ele recebe diretamente as águas dos rios dos Sinos,
Gravataí, Caí e Jacuí”, sentencia Cechim.)
Mesmo assim, renegado pelo poder público, ele vai realizar
a Romaria das Águas neste ano de 2006 com os recursos que
obtiver e com o voluntariado que puder atrair. Conta que vai recorrer às
dioceses da igreja católica que circundam as nove nascentes
dos rios Gravataí, Caí, Sinos, Pardo, Taquari, Antas
e os baixo, médio e alto Jacuí que deságuam
no Guaíba.
Vai pedir apoio para repetir o ritual feito na Usina do Gasômetro
quando, no auge da cerimônia, na celebração
ecumênica que reúne católicos a umbandistas,
são misturados os líquidos límpidos recolhidos
em cada uma das nove nascentes, formando a água pura que
então é jogada no escurecido e imundo Guaíba,
simbolizando o compromisso de todos com a luta pela purificação
do lago.
* Este texto, apesar de não ter sido incluído na
matéria “A outra margem do Guaíba”, publicada
na edição 102 do EC, por falta de espaço, é parte
integrante e fundamental da reportagem. Na versão on-line
será reproduzida em ambas as edições. (Nota
do editor)