
Os longos hábitos
Velhas certezas custam a morrer, e muitas sobrevivem ao seu desmentido
mais fortes do que antes. Grande parte da população
do mundo ainda vive, do ponto de vista das suas crenças e
expectativas, num universo geocêntrico, como se Copérnico
e Galileu nunca tivessem existido. O que é compreensível.
Custamos a aceitar uma nova explicação para o que parecia óbvio
e estava errado. Quatrocentos anos de ciência é muito
pouco comparados com milhares de anos de engano, precisamos de mais
tempo para nos acostumarmos com a idéia de que é a
Terra que circunda o Sol. Eu acho que o sono humano é um remanescente
do tempo em que não havia nem fogo e as noites eram irremediavelmente
pretas. Dormia-se porque não havia mais nada a fazer na escuridão.
Se continuamos precisando das mesmas horas de sono é porque
o organismo humano ainda não absorveu a invenção
da fogueira, o que dirá da luz elétrica. Da mesma maneira,
nosso cérebro reptiliano ainda repelirá por muitos
anos a idéia de que o universo não gira em torno de
nós.
Li, não me lembro onde, uma frase: o longo hábito
de viver nos indispõe para a morte. Essa indisposição
para a morte está no princípio de todas as religiões,
se não de toda a metafísica. O crescimento do fundamentalismo
religioso, ou de uma volta aos fundamentos mais obscuros e obscurantistas
das religiões, é uma reação radical
ao desmentido das suas certezas, mas há outros longos hábitos
ameaçados que reagem do mesmo jeito. Velhos comunistas se
recusam a aceitar o fracasso do comunismo aplicado a não
ser como uma anomalia russa, uma prática que sabotou a teoria.
Neoliberais não param de entoar seus mantras como se sua
repetição encantatória banisse todas as evidências
que os contradizem. Não é fácil admitir que
nosso universo não é nada do que estávamos
pensando. Eleitores do PT conhecem a sensação.
Um
exemplo pessoal de como os longos hábitos morrem devagar.
A astrologia só faz sentido num mundo pré-Copérnico,
mas me pergunta se eu não dou uma olhada no meu signo todos
os dias.
* * *
Alguém com um senso de ironia histórica na Petrobras
poderia sugerir que dessem o nome "Link" a alguma plataforma
ou outra instalação da companhia. Em homenagem ao
geólogo americano Walter (era Walter?) Link, contratado
pelo governo para prospectar o solo brasileiro em busca de sinais
de petróleo e que concluiu com um categórico "esqueçam".
Não havia petróleo no Brasil, disse Mr. Link. A tese
de que ele já viera instruído a não encontrar
nada, para sabotar a Petrobras, é atraente, mas parece que
o americano palpitou que se houvesse petróleo por aqui,
seria no mar, onde está mesmo a maior parte. De qualquer
jeito, merecendo ou não, Link ficou como uma espécie
de padroeiro de todos os que não acreditaram na Petrobras,
ou a combateram. Merece ter seu nome em alguma coisa. Talvez uma
torneira.
