Descascando
eucaliptos e abacaxis
A demora no licenciamento dos plantios de árvores
exóticas foi o estopim de mais uma crise política
no Governo do Estado. O risco de entrar para a história
como a governadora que deixou escapar polpudos investimentos de
fábricas de celulose fez com que Yeda Crusius demitisse
uma amiga do cargo de secretária do Meio Ambiente do Rio
Grande do Sul. Enquanto isso, o inovador Zoneamento Ambiental da
Silvicultura segue engavetado, e as mudinhas de eucalipto clonado
avançam campo afora. Tudo em nome do progresso.
Por Roberto Villar Belmonte

al iniciara o mês de maio. Madeira! Não deu outra.
Cai a secretária de Meio Ambiente do Rio Grande do Sul.
Oficialmente, a bióloga e pesquisadora Vera Callegaro pediu
demissão do cargo no dia 4 de maio para realizar uma cirurgia
dez dias depois, no Hospital Moinhos de Vento, cujo motivo não
foi divulgado. Após se recuperar da intervenção
cirúrgica, a amiga e correligionária da governadora
Yeda Crusius voltará ao seu órgão de origem,
a Fundação Zoobotânica. Na secretaria, seu
ex-gabinete foi ocupado dia 18 de maio.
Fontes ligadas à área ambiental consultadas pelo
jornal Extra Classe acreditam que Vera Callegaro perdeu o cargo
porque não conseguiu cumprir uma das principais tarefas
atribuídas a ela – agilizar os licenciamentos ambientais,
principalmente das lavouras de eucaliptos que avançam pela
Metade Sul para atender a demanda das futuras fábricas de
celulose da Votorantin, Stora Enso e Aracruz. Apesar de sua reconhecida
competência técnica, teria faltado jogo de cintura
para descascar o abacaxi. Ou seria eucalipto?
Pelo mesmo motivo, buscaram no órgão responsável
pelos licenciamentos o advogado e dirigente tucano Irineu Ernani
Schneider, que nem teve tempo de esquentar a espinhosa cadeira
de diretor-presidente da Fundação Estadual de Proteção
Ambiental (Fepam). O principal motivo da crise é o Zoneamento
Ambiental da Silvicultura, instrumento de gestão inédito
no Brasil que estabelece os lugares adequados para os plantios
de árvores exóticas, no caso, eucalipto, acácia
e pínus, além do percentual que cada área
pode suportar.
A primeira versão do trabalho, elaborado com apoio financeiro
da Associação Gaúcha de Empresas Florestais
(Ageflor), foi apresentada no apagar das luzes do governo Germano
Rigotto, dia 20 de dezembro. Representantes e apoiadores das fábricas
de celulose não gostaram dos limites de plantio estabelecidos
para cada projeto de silvicultura, que varia de 20 a 50%, dependendo
da fragilidade ecológica e do tamanho da área. Quanto
maior a propriedade, menor o percentual autorizado para cultivar árvores
exóticas.
O Ministério Público havia acordado com o Governo
do Estado que até 31 de dezembro deveria estar concluído
e aprovado o Zoneamento Ambiental da Silvicultura para licenciar
os projetos de produtores rurais, que recebem financiamento do
BNDES com juros camaradas, e das próprias fábricas
de celulose. Só que para entrar em vigor, o trabalho deveria
ser antes analisado em audiências públicas, que só irão
acontecer ao longo de junho, e aprovado pelo Conselho Estadual
de Meio Ambiente.
Esse agora é o desafio da nova presidente da Fepam, a mestre
em Administração Pública Ana Maria Pellini,
funcionária pública que há três anos
trabalhava na diretoria-geral da secretaria de Segurança
Pública, e do Procurador de Justiça da área
criminal Carlos Otaviano Brenner de Moraes, que também já trabalhou
na Secretaria de Segurança, em 2003, foi Corregedor Geral
do MP em 1997 e 1998 e, mais recentemente, presidiu a Associação
do Ministério Público no biênio 2005-2006.
Quando Brenner de Moraes apareceu como favorito para ocupar o cargo
de secretário do Meio Ambiente no lugar de Vera Callegaro,
analistas políticos especularam na imprensa que sua nomeação
seria uma tentativa do Governo do Estado de cooptar o Ministério
Público, instituição que, historicamente,
tem sido um cão de guarda feroz na defesa das questões
ecológicas. A Procuradoria-Geral de Justiça reagiu
com nota afirmando que os promotores e procuradores vão
manter a mesma independência funcional.
Se a cooptação do MP foi realmente o intento da governadora,
o tiro poderá sair pela culatra. Pelo menos é o que
pensam ativistas ecológicos consultados pelo jornal Extra
Classe. Existe uma divisão política dentro do Ministério
Público que ficou bem caracterizada na eleição
da associação da categoria em 2005, vencida pelo
novo dirigente da Sema. Segundo esta interpretação,
Brenner de Moraes em um cargo público cheio de conflitos
poderia deixar o outro grupo ainda mais vigilante.
"Os papéis são diferentes"
A especulação de que a governadora teria colocado
José Otaviano Brenner de Moraes na Secretaria do Meio Ambiente
para paparicar o Ministério Público incomodou o atual
titular da Sema. “Fiquei surpreso com esta interpretação
de que minha nomeação seria um agrado para neutralizar
o MP. Aceitei o convite por idealismo. Quero aproveitar esta oportunidade
para contribuir como cidadão e homem público em uma área
de elevada importância”, disse o novo secretário
em entrevista ao jornal Extra Classe.
Como conciliar a independência, principal atributo do Ministério
Público, com os compromissos políticos de um governo? “Os
papéis são diferentes. Um promotor não é vinculado
a um programa de governo. Mas quando participa de um governo, tem
de incorporar em suas ações o seu programa, cumprindo
a legislação. A minha liberdade é a liberdade
do programa de governo, que prevê a melhoria na qualidade
dos serviços, com maior eficiência na área
ambiental”, responde Brenner de Moraes.
Aumentar a eficiência otimizando os recursos existentes é a
prioridade número um anunciada pelo novo secretário
de Meio Ambiente. O trabalho dele será enorme. Atualmente
existem cerca de 7 mil licenças a serem analisadas, um quadro
funcional minguado e carência de equipamentos. A segunda
meta é modernizar a estrutura administrativa para evitar
sobreposição entre os departamentos da própria
secretaria. “Há retrabalho. Precisamos ter uma janela única,
e não vários interlocutores dentro da Sema”,
explica Brenner de Moraes.
Infra-estrutura e pessoal são sua terceira prioridade. “Temos
de recuperar os quadros perdidos através de concurso público”,
defende. Antes de assumir o cargo, Brenner de Moraes já teria
conversado sobre esses gargalos com a governadora. Segundo ele,
a Sema tem, incluindo todos departamentos e órgãos
vinculados, cerca de 500 profissionais. A falta de pessoal é mais
grave, na avaliação do novo secretário, na
Fepam, que tem apenas 240 servidores, e no Departamento de Recursos
Hídricos, com apenas 4.
Sobre o licenciamento das lavouras de árvore, o novo secretário
afirma que a Sema tem o compromisso de assegurar a preservação.
E, segundo ele, a maneira mais eficaz é com regras claras,
objetivas, duradouras e que gerem segurança a todos interesses
envolvidos.
“O Zoneamento Ambiental da Silvicultura é um instrumento
que serve para estabelecer limites. Ele é importantíssimo
na política ambiental, mas a versão preliminar ainda
tem de ser aprimorada”, afirma Brenner de Moraes.
Enquanto o Zoneamento Ambiental da Silvicultura não vinga,
o Rio Grande do Sul segue com um instrumento de gestão inovador
mofando nas gavetas governamentais, com licenças de plantio
sendo liberadas em profusão a partir de critérios
mais brandos, para alegria das indústrias. E o pior é que
a próxima novela já está escrita: o avanço
da cana-de-açúcar e a febre do biodiesel. Antes,
no entanto, teremos uma minissérie. Até o final de
junho, o Ministério da Agricultura divulga o novo Zoneamento
Agropecuário limitando o plantio da soja em 68 municípios
gaúchos localizados nas fronteiras sul e oeste. O motivo?
Problemas climáticos. Se já falta água para
a soja, como ficarão estas áreas repletas de eucaliptos?
| Procuradoria
da República atenta |
|
O licenciamento das lavouras
de árvores vem sendo acompanhado com atenção
pelo Ministério Público Federal. Há inquéritos
civis públicos abertos em Porto Alegre, Pelotas,
Rio Grande, Santa Maria e Uruguaiana. O Procurador
da República Rodrigo Valdez informa que a
Câmara de Coordenação e Revisão
do MP Federal em Brasília, especializada na área
ambiental, já foi consultada e deve manifestar-se
sobre o tema, com orientações técnicas
sobre os possíveis impactos ambientais da
atividade.
Além dos danos ecológicos, os procuradores
que acompanham a polêmica no Rio Grande do
Sul têm ainda dúvidas sobre se o licenciamento
deve ser feito pelo Governo do Estado ou se necessitaria
também da avaliação do Ibama.
Outra preocupação é a compra
de terras que vem ocorrendo em áreas de fronteira
através de empresas-laranja da multina-cional
Stora Enso. Sobre o Zoneamento Ambiental da Silvicultura,
o Procurador da República Rodrigo Valdez avalia
que o “estudo foi muito bem-feito”.
|
|