Neste
ano de 2007, a memória musical gaúcha será marcada
pelo centenário de nascimento do maestro Pablo Komlós.
Ele nasceu em Budapeste, passou por Montevidéu e fundou
uma orquestra, a Orquestra Sinfônica de Porto Alegre. Ao
longo de sua vida passou por várias cidades e países,
mas ficaram suas paixões, o canto lírico, a ópera
e Beethoven.
Muito mais do que ter sido o regente principal e diretor artístico
da Ospa, Komlós foi, nas palavras do seu contemporâneo
amigo e colega maestro Túlio Belardi, “quem fez a
Orquestra e que morreu por ela”, emociona-se. Além
da orquestra, fundada em 1950, Komlós também criou
o Coral da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o Coro Sinfônico
da Ospa e sua Escola de Música, em 1972. Essa entidade hoje
recebe o nome de Conservatório Pablo Komlós e atravessa
momentos difíceis. A Ospa decretou 2007 como o Ano Pablo
Komlós.
Por José Weis
stava
tudo pronto para a apresentação da ópera Carmen,
de Georges Bizet, quando um jovem de 18 anos, recém-saído
da Escola Real de Música Franz Liszt, de Budapeste, aguardava
o início da função; ele era então correpetidor,
ou seja, aquele instrumentista especializado no ensino do canto
e que acompanha ao piano o solo de um cantor solista. Sempre atento,
o jovem não perdia de vista os movimentos do maestro durante
os ensaios.
Em cima da hora, uma inesperada ausência, o regente. Alguém
perguntou se existia quem conhecesse a obra de Bizet para salvar
a noite. “Eu conheço”, disse o jovem músico,
com a audácia de quem tem ou já teve 18 anos na vida.
Naquela noite de 1925, em plena Casa da Ópera da capital
húngara, começava a carreira do maestro Pablo Komlós.
Baixa estatura, corpo atarracado, braços curtos, enfim um
exemplo de um tipo físico que dificilmente seria um maestro à frente
de uma orquestra, mas isso não incomodava de modo algum
o apaixonado pela obra de Bizet, nascido Pàl Komlós
Satoty, em 15 de setembro de 1907, na mesma pátria de Liszt,
Bela Bartók e Zoltán Kodaly – com quem, aliás,
estudara na escola de música.
A partir deste começo promissor, logo apareceram oportunidades
Europa afora. Porém, independentemente do talento de Komlós,
os tempos andavam bicudos – a Europa ainda não cicatrizara
as feridas da Primeira Grande Guerra.
No final da década de 1930, desembarcavam em Montevidéu
o maestro Pablo Komlós, mulher e filho. No vizinho Uruguai,
ele viveu e permaneceu por cerca de dez anos, dirigindo óperas,
oratórios e ora dando aulas de piano e canto. Em 1945, uma
comitiva dirigiu-se até a capital uruguaia a fim de fazer
um convite ao regente para vir a Porto Alegre dirigir uma temporada
lírica. O grupo que foi até Komlós era formado
por dirigentes do então Orpheão Rio-Grandense. Convite
feito, convite aceito. E o maestro viria a Porto Alegre outras
vezes, entre 1946 e 1949.
Nasce
um sonho
Foi em uma dessas estadas na
capital gaúcha que se fez o convite que era
também um desafio ao Maestro. Que tal dirigir
uma orquestra em Porto Alegre? No início,
repetiram-se as dificuldades de adaptação
de Pablo Komlós e família, afinal era
uma nova cidade, um novo país e novos desafios.
Porém, já se materializava um sonho
que se chamou Orquestra Sinfônica de Porto
Alegre. O escritor Erico Verissimo difundiu pelo
mundo a feliz frase: “Eu venho de uma cidade
que tem uma orquestra sinfônica”.
Muito bem, uma orquestra, mas quem iria tocar? Prático
e ágil, Komlós começou a recrutar
músicos que formavam as orquestras das rádios
da cidade, leia-se Farroupilha e Gaúcha, e
do sindicato dos músicos. Pragmático,
conseguiu a dissolução da Banda Municipal.
E, com o luxuoso auxílio do maestro Salvador
Campanella –, que por sinal terá o centenário
de nascimento também registrado em 2007 – estava
formado o primeiro grupo de músicos que, por
sua vez, formavam a Orquestra Sinfônica de
Porto Alegre, a estimada Ospa.
Ainda no começo de 1950, houve tempo para
o primeiro concerto. O evento erudito foi no Theatro
São Pedro, em 23 de março. No programa
constavam obras de C.M. von Weber, Mendelssohn, Pulo
Guedes – compositor gaúcho, Berlioz
e Beethoven, deste último a Sinfonia N° 3,
Heróica, nada mais representativo para uma
ocasião histórica.
Ainda em 1950, Komlós, frente à recém-nascida
Ospa, teve a ousadia de apresentar a Nona Sinfonia,
de Beethoven; na seqüência também
veio o oratório Messias, de Haydn. Coragem
e determinação nunca fizeram falta
ao Maestro.
Atravessando dificuldades, mas conquistando prestígio
junto ao seu público, à crítica
e à população em geral, A Ospa
chegou a um impasse: como estava não seria
possível continuar.
Até 1964, a Orquestra sobrevivia como sendo
a Sociedade Orquestra Sinfônica de Porto Alegre
e com a colaboração da comunidade local.
Em 22 de janeiro de 1965, por meio do Decreto de
Lei N° 17.173 do Governo do Estado do Rio Grande
do Sul, a Sociedade Orquestra Sinfônica de
Porto Alegre foi encampada e passou a ser conhecida
como Fundação Orquestra Sinfônica
de Porto Alegre. Agora uma autarquia, os músicos
e funcionários tiveram reconhecido seus direitos,
mesmo os estrangeiros – que eram muitos, desde
que se naturalizassem. Mais um ponto para Komlós.
Na década de 1970, a Ospa foi considerada
mais de uma vez a melhor sinfônica do país.
Foi neste período, inclusive, que a Orquestra
percorreu diversas capitais do Brasil, levando o
ciclo das nove sinfonias de Ludwig van Beethoven.
Belardi
recorda feitos do maestro
Foi nesta época que o maestro Túlio Belardi, argentino
que trabalhava com Komlós em Montevidéu, veio a convite
de Komlós integrar-se à Ospa. Em 37 anos no Brasil,
o hoje recém-aposentado maestro Túlio Belardi lembra
que “Komlós tinha um ouvido absoluto”, observa – e
também diz que o regente e diretor artístico da entidade
tinha uma presença diante da orquestra que a dominava com
um olhar.
São muitas as histórias que o maestro Belardi recorda,
em especial as frases de Pablo Komlós. O diretor artístico
da Ospa tinha um bom coração, mas, segundo Túlio,
era rigoroso, exigente, severo muitas vezes.
Já um tanto debilitado pela doença, pôde dirigir
a montagem e encenação da ópera Carmen, em
1976. Foi um grande acontecimento que mereceu uma edição
totalmente dedicada à obra de Bizet e ao trabalho da Ospa.
O maestro Pablo Komlós faleceu em março de 1978 e,
conforme seu desejo, foi sepultado em Gramado, outra cidade que
o adotara.
Túlio também ressalva que a única coisa que
Komlós não conseguiu para a Ospa foi uma sede própria.
Porém, ao que tudo indica, também este sonho está por
se realizar. Em dezembro de 2006, a Câmara de Vereadores
de Porto Alegre aprovou o Projeto de Lei que autoriza uma concessão
de uma área de 13 mil metros quadrados localizada no Parque
da Harmonia – Maurício Sirostky Sobrinho para a construção
do Teatro da Ospa.
A Fundação Pablo Komlós, que equivale a uma
Associação dos Amigos da Ospa, é a entidade
que está encarregada de alocar recursos para a efetivação
das obras por meio de leis de incentivo fiscal. “Faltam alguns
detalhes, como um remanejo no projeto para adaptá-lo ao
terreno”, informa o professor Luis Osvaldo Leite, presidente
da Fundação que leva o nome do Maestro.
A arte como resistência
Todas as segundas e quartas-feiras, a partir das 15h, um grupo
de alunos do Conservatório Pablo Komlós reúne-se
no teatro da Ospa para ensaiar sob a orientação do
professor Celau Moreira – violoncelista da Orquestra. O fato
poderia até passar por mera rotina, não fosse a atual
situação da escola de música da Ospa.
Em seus quase 35 anos de existência, esta seja talvez a situação
mais difícil que a instituição enfrenta. A
sede, localizada na Avenida André da Rocha, está praticamente
desativada neste ano letivo de 2007. Há falta de professores
para diversos instrumentos e disciplinas. Formando a orquestra,
os alunos resistem respondendo com a prática musical.
Ubirá Tadeu Leal, diretor superintendente da Fundação
Orquestra Sinfônica de Porto Alegre, explica que a situação
atual é em atendimento a uma decisão do Tribunal
de Justiça do Estado que julgou inconstitucional a contratação
de professores para o Conservatório, “decisão
judicial não se discute, cumpre-se”, diz o dirigente
da Fospa. Isso quase inviabilizou o segundo semestre de 2006, mas
um acordo com a Justiça permitiu que o ano terminasse conforme
o planejamento da escola.
Agora, porém, faltam professores e há uma perspectiva
de que se consiga uma solução por meio de um projeto
que foi encaminhado pelo Governo à Assembléia Legislativa.
Os professores seriam os músicos da Orquestra que, para
ministrar as aulas, receberiam uma gratificação.
São 20 vagas a serem preenchidas. “A Assembléia
sempre acolheu e aprovou por unanimidade os projetos que favorecessem
a Ospa”, assegura o diretor Ubirá.
Tudo começou com a rigorosa política de cortes nos
recursos financeiros que foi adotada no início da gestão
da governadora Yeda Crucyus. Todos contratos emergenciais que
garantiam a atividade de professores no Conservatório tiveram
de ser cancelados.
Crise
é oportunidade
Ungidos, talvez, pelo mesmo ímpeto
do seu maestro fundador, integrantes da orquestra
jovem, que estudavam até então no Conservatório
Pablo Komlós, decidiram levar adiante um projeto
de autonomia. O ponto de partida foi a exibição
de um contagiante documentário Tocar Y Luchar,
produzido na Venezuela e que mostra a história
possível de se fazer um trabalho social de
integração, utilizando-se o ensino
da música. O projeto existe há mais
de 30 anos naquele país e já forneceu
jovens músicos para diversas orquestras de
renome mundial. Hoje são cerca de 250 mil
crianças e jovens que participam em todo o
território venezuelano da formação
de jovens orquestras. Foram os músicos Flávio
Gabriel (trompete) e Israel Oliveira (trompa), da
Ospa, que divulgaram a idéia aos jovens colegas
que adotaram entusiasmados a idéia de levar
adiante a trajetória da orquestra, independentemente
das grandes dificuldades que a própria escola
de música atravessa. Eles não pensam
na Ospa do futuro, querem ser uma Orquestra Jovem
do Presente.
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