A verdade
não ilude Nei Lisboa
Por César Fraga

or que falar de um CD de Nei
Lisboa que foi lançado em dezembro passado? Simples.
Translucidação,
realizado por selo próprio e distribuição
da gravadora Acit, foi lançado oficialmente em grande estilo
em um show no Theatro São Pedro em maio último e
marca a fase mais independente do artista em relação à indústria
de discos e de entretenimento em toda sua carreira. Também
há o agravante do rompimento do artista com sua ex-produtora,
a Lado Inverso, depois de 19 anos de “casamento”, que
justamente ocorreu nesse período que antecedeu o show. Nei
diz: “terminamos numa boa, de forma respeitosa e cordial,
mas, depois de tanto tempo, acaba ficando uma seqüela ou outra”.
O sempre crítico Nei Lisboa sempre teve resistência às
pressões mercadológicas e aos ritos do show
business. “Agora
vivemos um momento em que a tecnologia e as pessoas consomem música
de outra forma, quis fazer um álbum que ao mesmo tempo valorizasse
o repertório, mas que cada peça também funcionasse
individualmente. O formato CD está em crise, mas pela primeira
vez esse momento de crise da indústria permite ao artista,
dentro dos limites impostos, ter mais controle sobre sua obra e
seu trabalho. As pessoas continuam consumindo muita música,
e poder fazer um trabalho mais focado no artístico sem ser
encarado somente como um produto me estimula”, justifica.
| Foto:
René Cabrales |
 |
Total
liberdade artística
é marca do novo trabalho
|
Talvez esse possa também ser considerado um dos discos mais
caseiros de Nei Lisboa. Sim, boa parte dele foi gravado em sua
casa e é reflexo – e isso é confessado pelo
músico – também das “muitas abstinências” a
que se propôs nos últimos tempos, em conseqüência
do nascimento de sua filha, que já tem 4 anos. Claro, um
estilo de vida menos boêmio faz sobrar tempo para compor,
produzir, burilar idéias e até fazer mamadeiras entre
uma coisa e outra. Isso tudo aliado às novas tecnologias,
que permitem ao próprio artista pré-produzir seu álbum
de forma doméstica e aproveitar muitas das gravações
na mixagem final, aí sim, em um grande estúdio. Hoje é possível
capturar o momento em que nasce uma canção, como
que em uma Polaroid sonora, com uma qualidade que, no passado,
só se conseguia em ambientes profissionais. Muitas vezes,
essa busca dentro do estúdio pelo momento da faísca
inicial é frustrante e inatingível, e parte do mérito
desse novo disco de Nei está justamente aí, na captura
desses momentos. “Muitos
takes que eram para ser demos acabei
utilizando porque estavam melhores do que o que estava conseguindo
no estúdio”, diz o compositor. Além do repertório
inspirado, essa coleção de canções
transpira essa mágica, que pode ser chamada de frescor (que
as canções só possuem na tenra idade). Tudo
isso para dizer que esse disco – talvez por isso e por muitos
outros méritos – estabelece, como nenhum outro trabalho
recente de Nei, uma ligação com seus registros que
viraram clássicos ainda nos anos 80 do século passado.
Cena Beatnik (2001), um disco voltado ao rock; passando por Relógios
de Sol (2003), mais intimista. Tranlucidação volta
ao clima MPB do início, temperado com climas jazzísticos
aqui e ali. O álbum soa emepebístico, com raras exceções
como as faixas Festa do Kafu, com uma roupagem funk pop dançante,
e The importance a being idle, sim, aquela música do Oasis,
um rock honesto com todas as distorções a que tem
direito. Mas essa diversidade não atrapalha e nem chega
a ser ecletismo, pois trata-se de um músico cuja assinatura
tanto vocal quanto de compositor é quase um gênero
em si. Além disso, Nei sabe construir seus temas abusando
de ironia (auto, inclusive) e rara melancolia com um senso de humor
que sempre lhe foi peculiar. Outro detalhe importante desse trabalho é que,
pela primeira vez, ele próprio produziu o CD – claro,
divide os créditos com outra lenda, seu fiel escudeiro Paulinho
Supekóvia (ex-Cheiro de Vida). Para a turnê, apenas
três músicos no palco e tecnologia para reproduzir
arranjos mais complexos; com isso, Nei espera ter um show mais
leve e fácil de deslocar em viagens. Destaque para Translucidação,
faixa que abre o disco, Mundos seus e Tropeço, além
da impagável A verdade não me ilude, que explica
a presença da tal canção do Oasis, por uma
coincidência no tema. Ele explica: “em 2005, fiz um
show com parte do repertório desse disco, ao qual dei o
nome de ‘A verdade não me ilude’. Logo em seguida,
o Oasis lançaria ‘Don´t believe the truth’.
Bom, aí eu tinha que ouvir, né? Pois ouvi e gostei
muito. Principalmente dessa faixa, cuja letra fala do compositor
sob pressão, e que tem um tanto a ver com a da “A
verdade...”. Gravei, e deixei as duas coladinhas no Cd”.
O disco está nas lojas, e os shows podem ser contatados
pelo fone (51) 8110-0526 ou através de
analom@portoweb.com.br.
Confira também o site do artista
www.neilisboa.com.br.
LIVRO – Uma coletânea das crônicas escritas por
Nei Lisboa para o Extra Classe entre 1999 e 2005, além de
textos produzidos para o jornal Zero Hora no mesmo período,
terá lançamento pela editora L&PM em setembro
deste ano. Durante a entrevista, que aconteceu na redação
do EC, Nei cogitou a possibilidade de voltar a escrever eventualmente
para o Extra Classe. Os leitores agradecem.
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