Ano 12 - nº 114
JUNHO de 2007



Luis Fernando Verissimo
Já somos 6 bilhões, não contando o milhão e pouco que nasceu desde o começo desta frase. Se fosse um planeta bem administrado, isto não assustaria tanto. Mas é, além de tudo, um lugar mal freqüentado.



Elisa Lucinda
O vento dá maio aos meus desejos,
diz maio em meus ouvidos,
beija o segredo das orelhas descobertas
(orelhas não, zureba, meu filho dizia assim)




Fraga

Você já foi à Disneylíngua? Então vá.
É um dos parques temáticos mais divertidos. Localiza-se à direita de quem entra, no hemisfério esquerdo do cérebro. Funciona sem parar, portões abertos à oralidade e à escrita, pro recreio da linguagem.



Marco Aurélio Weissheimer

Qual o ar que se respira hoje no Estado? O presidente do Tribunal de Justiça defende a pena de morte e a redução da maioridade penal para 14 anos. As reações são de apoio, silêncio constrangido ou elogio à coragem de expressar tais opiniões publicamente.





A verdade não ilude Nei Lisboa

Por César Fraga

or que falar de um CD de Nei Lisboa que foi lançado em dezembro passado? Simples. Translucidação, realizado por selo próprio e distribuição da gravadora Acit, foi lançado oficialmente em grande estilo em um show no Theatro São Pedro em maio último e marca a fase mais independente do artista em relação à indústria de discos e de entretenimento em toda sua carreira. Também há o agravante do rompimento do artista com sua ex-produtora, a Lado Inverso, depois de 19 anos de “casamento”, que justamente ocorreu nesse período que antecedeu o show. Nei diz: “terminamos numa boa, de forma respeitosa e cordial, mas, depois de tanto tempo, acaba ficando uma seqüela ou outra”. O sempre crítico Nei Lisboa sempre teve resistência às pressões mercadológicas e aos ritos do show business. “Agora vivemos um momento em que a tecnologia e as pessoas consomem música de outra forma, quis fazer um álbum que ao mesmo tempo valorizasse o repertório, mas que cada peça também funcionasse individualmente. O formato CD está em crise, mas pela primeira vez esse momento de crise da indústria permite ao artista, dentro dos limites impostos, ter mais controle sobre sua obra e seu trabalho. As pessoas continuam consumindo muita música, e poder fazer um trabalho mais focado no artístico sem ser encarado somente como um produto me estimula”, justifica.

Foto: René Cabrales

Total liberdade artística
é marca do novo trabalho


Talvez esse possa também ser considerado um dos discos mais caseiros de Nei Lisboa. Sim, boa parte dele foi gravado em sua casa e é reflexo – e isso é confessado pelo músico – também das “muitas abstinências” a que se propôs nos últimos tempos, em conseqüência do nascimento de sua filha, que já tem 4 anos. Claro, um estilo de vida menos boêmio faz sobrar tempo para compor, produzir, burilar idéias e até fazer mamadeiras entre uma coisa e outra. Isso tudo aliado às novas tecnologias, que permitem ao próprio artista pré-produzir seu álbum de forma doméstica e aproveitar muitas das gravações na mixagem final, aí sim, em um grande estúdio. Hoje é possível capturar o momento em que nasce uma canção, como que em uma Polaroid sonora, com uma qualidade que, no passado, só se conseguia em ambientes profissionais. Muitas vezes, essa busca dentro do estúdio pelo momento da faísca inicial é frustrante e inatingível, e parte do mérito desse novo disco de Nei está justamente aí, na captura desses momentos. “Muitos takes que eram para ser demos acabei utilizando porque estavam melhores do que o que estava conseguindo no estúdio”, diz o compositor. Além do repertório inspirado, essa coleção de canções transpira essa mágica, que pode ser chamada de frescor (que as canções só possuem na tenra idade). Tudo isso para dizer que esse disco – talvez por isso e por muitos outros méritos – estabelece, como nenhum outro trabalho recente de Nei, uma ligação com seus registros que viraram clássicos ainda nos anos 80 do século passado. Cena Beatnik (2001), um disco voltado ao rock; passando por Relógios de Sol (2003), mais intimista. Tranlucidação volta ao clima MPB do início, temperado com climas jazzísticos aqui e ali. O álbum soa emepebístico, com raras exceções como as faixas Festa do Kafu, com uma roupagem funk pop dançante, e The importance a being idle, sim, aquela música do Oasis, um rock honesto com todas as distorções a que tem direito. Mas essa diversidade não atrapalha e nem chega a ser ecletismo, pois trata-se de um músico cuja assinatura tanto vocal quanto de compositor é quase um gênero em si. Além disso, Nei sabe construir seus temas abusando de ironia (auto, inclusive) e rara melancolia com um senso de humor que sempre lhe foi peculiar. Outro detalhe importante desse trabalho é que, pela primeira vez, ele próprio produziu o CD – claro, divide os créditos com outra lenda, seu fiel escudeiro Paulinho Supekóvia (ex-Cheiro de Vida). Para a turnê, apenas três músicos no palco e tecnologia para reproduzir arranjos mais complexos; com isso, Nei espera ter um show mais leve e fácil de deslocar em viagens. Destaque para Translucidação, faixa que abre o disco, Mundos seus e Tropeço, além da impagável A verdade não me ilude, que explica a presença da tal canção do Oasis, por uma coincidência no tema. Ele explica: “em 2005, fiz um show com parte do repertório desse disco, ao qual dei o nome de ‘A verdade não me ilude’. Logo em seguida, o Oasis lançaria ‘Don´t believe the truth’. Bom, aí eu tinha que ouvir, né? Pois ouvi e gostei muito. Principalmente dessa faixa, cuja letra fala do compositor sob pressão, e que tem um tanto a ver com a da “A verdade...”. Gravei, e deixei as duas coladinhas no Cd”. O disco está nas lojas, e os shows podem ser contatados pelo fone (51) 8110-0526 ou através de analom@portoweb.com.br. Confira também o site do artista www.neilisboa.com.br.

LIVRO – Uma coletânea das crônicas escritas por Nei Lisboa para o Extra Classe entre 1999 e 2005, além de textos produzidos para o jornal Zero Hora no mesmo período, terá lançamento pela editora L&PM em setembro deste ano. Durante a entrevista, que aconteceu na redação do EC, Nei cogitou a possibilidade de voltar a escrever eventualmente para o Extra Classe. Os leitores agradecem.





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