Aprender,
ensinando a máquina
Duas recentes pesquisas concluíram que o computador na escola
não faz diferença nas notas dos estudantes brasileiros
ou até pode piorar seu rendimento,
provocando um acalorado debate entre especialistas na matéria.
A opinião predominante é que os professores precisam
aprender a usar melhor o equipamento, como uma ferramenta a mais
para realizar projetos pedagógicos bem definidos.
Por Ulisses Nenê

luna
da 2ª série do Ensino Fundamental do Colégio
Marista Rosário, em Porto Alegre, Lívia Capuano Fogaça,
8 anos, está encantada com o uirapuru, um pássaro
da Amazônia que conheceu pela internet nas aulas de informática. “Ele é marrom,
avermelhado, tem o bico amarelo e um pouco de branco no peito,
sabe?”, conta, desenhando-o no ar com os dedinhos. “Existe
uma lenda de que se alguma pessoa ouvir o canto do uirapuru vai
ter muita sorte”, relata a menina, impressionada.
E ela tem bastante sorte. Além de estudar em uma das escolas
mais tradicionais do Estado, já na 2ª série
tem acesso ao mundo da informática. Mais do que um laboratório
com equipamentos de última geração, o maior
diferencial nisso está no acompanhamento aos alunos de uma
professora e uma estagiária com formação em
Pedagogia, Multimeios e Informática, além dos técnicos,
que planejam sua utilização pedagógica
detalhadamente.
É
o que tem faltado na maioria das escolas da rede pública
e particular no Brasil todo, a julgar por duas recentes pesquisas
sobre o tema. A primeira é do
doutor em Economia da Educação Naércio Aquino Menezes, professor
da USP e Ibmec-SP, que fez uma análise das notas de matemática
de 21 mil alunos da 4ª série, 18 mil da 8ª série e 14
mil
da 3ª
série do Ensino Médio no Saeb (Sistema de Avaliação
da Educação Básica) de 2003.
Uma surpreendente conclusão do pesquisador foi que não houve diferença
nas notas de quem tinha ou não computador na escola. “A gente não
encontra nos resultados que os alunos com acesso a computadores na escola tenham
uma nota maior: então, não é verdade que mais computadores
na escola aumentam o aprendizado do aluno, isso tanto na escola pública
quanto na privada”, afirmou Naércio Menezes ao Extra Classe por
telefone.
A possível explicação, prosseguiu, é que é necessário
alguém para ensinar o aluno a usar o computador no aprendizado, “não
adianta ter o computador na escola se ele não é utilizado de forma
construtiva, se não tem ninguém que oriente o aluno a tirar proveito
dele”. Em muitos casos, acrescentou, o aluno utiliza o computador para
outras coisas, como navegar livremente na internet durante a aula, o que não é útil
para os estudos.
A única melhora digna de registro, pequena, aparece quando há um
computador na casa do aluno. “O computador em casa melhora o rendimento
em cerca 3%, tanto na escola pública como na escola privada, e isto acontece
porque, em casa, os pais orientam as crianças em como tirar melhor proveito
dele, ao contrário da escola”, explicou.
Computador é meio, e não fim
Em um estudo em andamento, a economista e pesquisadora holandesa
Maresa Sprietsma não só reforça como amplia
as conclusões do professor da USP e Ibmec. Ela cruzou as
informações do Saeb para avaliar os resultados de
matemática e língua portuguesa da 8ª série. “Nós
descobrimos que a disponibilidade de um laboratório de informática
afeta negativamente as notas em ambas as disciplinas, principalmente
na matemática”, afirma, em artigo que resume o trabalho
realizado no Centro Europeu de Pesquisas Econômicas, em Mannheim,
Alemanha.
“Pode ser que as escolas estejam investindo em laboratórios
de computador, mas não investem em outras coisas que poderiam
ser mais eficientes para o aprendizado, como biblioteca ou treinamento
dos professores”, disse ao Extra Classe por e-mail. A pesquisadora
especula que os alunos podem estar usando no laboratório
de informática o tempo em que deveriam, por exemplo, estar
fazendo as lições, lendo ou praticando esportes.
Ela relata, no entanto, que o uso da internet pelo professor como uma fonte pedagógica
tem um impacto positivo importante nas notas, mas não chega a detalhar
esse aspecto. Tanto Maresa quanto Naércio contam que suas conclusões
são semelhantes às de outras pesquisas realizadas na Europa e nos
Estados Unidos, onde aparecem as mesmas dificuldades no uso do computador em
aula, com resultados pouco animadores, até agora.
Apesar disso, eles não descartam o uso dessa ferramenta nas escolas. O
domínio do computador é uma habilidade indispensável no
mercado de trabalho, e a ineficiência ve-rificada não é razão
suficiente para eliminá-lo do sistema de ensino, diz Maresa. “É preciso
utilizar programas específicos que facilitem o raciocínio da criança,
um currículo bem desenhado, professores estimulados a aprender a ensinar
português e matemática, que é o básico”, completa
Naércio.
Uma experiência que carece de amadurecimento
A experiência com computadores no ensino ainda é muito
recente, porque a informatização nas escolas brasileiras
começou na década de 1990, pelos setores administrativos
e, quando chegou às salas de aula, foram adquiridos os equipamentos
sem a capacitação dos professores para utilizá-los,
analisa a coordenadora do Curso de Pedagogia, Multimeios e Informática
Educativa da PUCRS, Helena Sporleder Cortes. Era comum, e ainda
acontece, a contratação de técnicos de informática
para coordenarem os laboratórios das escolas, critica.
Ela não discorda, mas relativiza as duas pesquisas, que
repercutiram intensamente em sites e blogs voltados à Educação. “Elas
são pontuais, retratam apenas um momento e não trazem
conclusões definitivas. Se o processo de avaliação
usasse os computadores, será que o resultado seria o mesmo?
Avaliação não é só nota, é muito
mais do que isso”, questiona. Por outro lado, critica que
os professores ainda estão muito presos aos livros didáticos,
quando todos os recursos possíveis – computadores,
televisão, vídeos, jornais, revistas e outros – são
educativos.
“
A grande questão é a formação competente
do professor; o recurso não é definidor do êxito
do aluno, o definidor é o mediador entre o recurso e o aluno”,
sentencia. A coordenadora relaciona como prioridades nesta questão
a definição muito clara do projeto pedagógico,
no qual professores e administradores saibam para que querem os
laboratórios de informática; professores preparados
para fazer o uso crítico de qualquer recurso, não
só de última geração; e, por último,
políticas públicas para formação de
pessoal na área.
Já a coordenadora do Laboratório de Estudos Cognitivos
da Ufrgs, Léa Fagundes, observa que essa ferramenta está presente
em todas atividades humanas, “como não vai estar,
então, onde se forma o cidadão do terceiro milênio?”,
indaga. Coordenadora do projeto One Laptop Per Child (Um Computador
por Aluno) que está sendo testado em uma escola pública
de Porto Alegre, ela defende os investimentos neste e em outros
programas de informatização da rede ensino.
Os estudantes de hoje são nativos da cultura digital; não
podem receber a mesma escola dos seus pais e avós imigrantes,
eles precisam de uma nova escola, assevera. “Precisamos sim
de laptops para que cada um possa apropriar-se de sua máquina
e aprenda a fazê-la funcionar, aprenda ‘ensinando’ a máquina”,
define. Ela acredita que não há computadores suficientes
ainda para melhorar o ensino no Brasil.
| Autonomia,
cooperação e responsabilidade |
| O
conhecimento da Amazônia, que é o tema
da Campanha da Fraternidade de 2007; a consolidação
da alfabetização, juntamente com o
despertar da consciência ambiental, são
objetivos do projeto que a professora Cleonice Guerra
está desenvolvendo com seus alunos da 2ª série
do ensino fundamental no Colégio Marista Rosário.
Com formação em Pedagogia, Multimeios
e Informática, ela definiu com a estagiária
de pedagogia e a auxiliar de informática todos
os passos desse trabalho que deve durar dois meses.
Cada aluno e aluna explorou um elemento da Amazônia
cujo nome começasse por uma letra do alfabeto que
recebeu. Foi assim que Lívia ficou com a letra “U” e
descobriu o pássaro uirapuru. A seguir, elaboraram
uma frase com o animal, planta ou outro símbolo
da floresta que escolheram e buscaram sons e imagens
na internet. Agora, a turma está gravando frases
com a própria voz sobre sua pesquisa e tudo
será reunido em um CD, com informações
de A a Z da Amazônia, com texto, áudio
e imagens, que levarão para casa.
Os projetos de informática com as crianças
devem ter por objetivos o desenvolvimento do senso
crítico, da habilidade de analisar, selecionar,
julgar e imaginar, ensina Cleonice, que já programou
outros temas a serem desenvolvidos no laboratório.
Segundo ela, o professor deve favorecer o desenvolvimento
da autonomia, da cooperação entre eles
e da responsabilidade, aprendendo a respeitar a autoria
de textos e ilustrações da internet,
sem o mero “recorta e cola” que os educadores
tanto condenam.
A pedagoga completa que professores e família
devem exercer um papel de filtro, diante de um leque
de possibilidades que chega a ser assustador, admite. “O
professor não vai ser substituído pelo computador, vai ser substituído
por um professor que sabe usar o computador. Esse é um caminho que não
tem volta; o professor não precisa ser um técnico, mas precisa
ter um mínimo de conhecimento para saber usar esse recurso poderoso, de
forma que eles (alunos) sejam os protagonistas no domínio da máquina”.
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