JOSÉ PAULO BISOL
A política
como extensão da ética
Mais que um nome, José Paulo Bisol é quase um símbolo
da atuação política inseparável da ética,
com todos riscos que essa postura implica. Aos 78 anos de idade,
o porto-alegrense Bisol vive hoje um cotidiano ameno, embalado
pelo canto dos canários-da-terra e da revoada de saracuras,
garças e marrecos. Mas essa aposentadoria em um condomínio
horizontal às margens da Lagoa Pacheco, em Osório,
mais do que o descanso de um guerreiro, é um reafirmar de
sua inquietação política e intelectual, que
o faz acompanhar com atenção os rumos da política
e da sociedade brasileira. Ex-senador da República, ex-deputado
estadual, desembargador e professor universitário aposentado – além
de candidato a vice-presidente da República em 1994
e secretário de Segurança durante o governo estadual
de Olívio Dutra –, Bisol conheceu de perto, mais de
uma vez, como pode ser avassalador o poder de fogo da grande mídia. “No
momento estou bem, mas o estresse da Secretaria de Segurança
virou câncer de rim”, relata. “Tive que fazer
a extirpação de um deles, e o outro mantém
apenas 30% da função”, afirma.
Por José Antônio Silva

O
problema foi um dos frutos da duríssima
guerra de desgaste imposta pela oposição ao Governo
estadual petista (1999-2002) e turbinada pelos veículos
mais influentes da mídia gaúcha, que culminou com
uma polêmica CPI da Segurança Pública na Assembléia
Legislativa. Ele mesmo um comunicador – ex-cronista de rádio
e TV, escritor e poeta –, José Paulo Bisol já havia
sofrido perseguição da mídia em 1994, que
veiculou uma série de acusações falsas na
tentativa de implodir sua candidatura a vice de Lula da
Silva na campanha presidencial de então. Os canhões
da grande imprensa conseguiram derrubar o alvo, mas seguem pagando
o preço pela injustiça, tanto em dinheiro quanto
na falta de credibilidade: em fins de 2006, o Jornal do Brasil
foi condenado a pagar indenização de R$ 300 mil a
ele por danos morais. O JB, assim, juntou-se a Zero Hora,
O Globo, O Estado de S. Paulo, Correio Brasiliense e revista IstoÉ,
que já haviam sido condenados pelo STF. Na época,
a mídia acusou o gaúcho Bisol, então senador,
de apresentar emendas superfaturadas ao Orçamento da União
para beneficiar um município mineiro em que possuía
uma fazenda – o que nunca aconteceu. Em abril deste ano,
nova vitória judicial de Bisol: 141 delegados de polícia
e 2 coronéis da BM perderam ações indenizatórias
contra ele. Pretendiam condená-lo com base em entrevista
dada em 1999, no programa Conversas Cruzadas, da TVCOM, quando
teria afirmado a existência de “nível elevado
de corrupção
na instituição (policial)”. Todas as ações
foram julgadas improcedentes.
Nesta entrevista, concedida com total exclusividade ao Extra Classe, o político
fala de sua vida nos dias de hoje, aborda a questão da segurança
pública, a necessidade de ampliar o debate público sobre a mídia,
os problemas ambientais e ainda o quadro político nacional e latino-americano.
Suas observações confirmam que a contribuição de
Bisol a um Brasil melhor ainda não se encerrou.
EC – O duro combate que o senhor travou contra a chamada “banda
podre” da polícia gaúcha, quando secretário
estadual de Segurança, foi distorcido pela oposição
e muito criticado à época. É possível
traçar algum paralelo com a atual situação
da segurança pública no Rio Grande?
Bisol – Essas analogias são próprias de terceiras
pessoas, isentas. O que importa é que o atual secretário
(José Francisco Mallmann), além de ser íntegro
e capaz, pertence à Polícia Federal. Esta polícia,
nos últimos três lustros, deu a volta por cima em
matéria de restauração moral e profissional. É,
hoje, uma das instituições mais eficientes do Brasil.
Com essa inexcedível experiência e esse sentimento
de que é possível mudar inclusive a mentalidade
que preside a polícia, o atual secretário pode
conseguir resultados excelentes com os mesmos princípios
que regeram nossa administração.
EC – Olhando para trás, o que sobrou da política
de integração das polícias civil e militar
que o senhor procurou implantar?
Bisol – Sobrou o principal: a idéia de que a função
policial é uma função civil por natureza
e requer unidade sistêmica, que supõe a complementaridade
das competências e a reciprocidade de informações.
Não estou pregando a extinção da polícia
militar, mas a consciência de que, mesmo quando organizada
militarmente, a função da polícia será civil,
e para isso deve estar preparada. O crime tem uma identidade
fantasmática e circula difusamente em todos desvãos
da sociedade, ou seja, é parte da sociedade. Não é muito
adequado, portanto, compreender a relação entre
policiais e bandidos como guerra. Isso é tudo o que
o bandido quer, pois a guerra iguala os
lados no desejo comum de matar. Ou seja, um tende a reproduzir
o outro na eficiência destrutiva. Daí o problema
da corrupção institucional, que é a mais
corrosiva.
EC – Como o senhor vê a idéia de redução
da idade para efeitos de criminalização de
jovens infratores?
Bisol – O neoliberalismo e sua mídia ocultam
a força originária das desigualdades sociais,
disseminando essa obsessão punitiva que toma a fisionomia
de opinião pública. O adolescente deve ser
tratado como adolescente. Nele, a rebeldia contra os pais
e a sociedade é uma tendência natural e transitória.
Mas estamos precisando de legislação nova para
tratar o caso de adolescentes irrecuperáveis e daqueles
que alcançam a idade adulta durante a internação.
EC – Onde se enquadra a questão da desigualdade
social brasileira em todo esse debate sobre o aumento da
violência e da criminalidade?
Bisol – A violência tende a ser menor onde todos
são igualmente pobres ou igualmente ricos, o que ninguém
ignora. Logo, a desigualdade não é a única,
mas é uma das mais importantes causas da violência.
Igualar as pessoas é ilusório, só por
abstração, como faz a democracia formal; contudo,
igualar as oportunidades ou o acesso a uma educação
e formação profissional qualificadas é concretamente
realizável e é um dever da verdadeira democracia.
O neoliberalismo e sua mídia preferem enfatizar a
exacerbação das penas, uma medida historicamente
inócua, em uma distorção ideológica
de fácil diagnóstico...
EC – De que maneira o fato de menos de dez famílias
controlarem a maior parte da informação veiculada
por rádios, jornais e TVs no País influencia
ou atrapalha a democracia brasileira?
Bisol – Atrapalhar não é o verbo adequado.
Esse aleijão impossibilita o desenvolvimento de uma
democracia menos abstrata. É sabido que as corporações,
governando a economia, governam os Governos. E a mídia
predominante, que faz a opinião pública, é o
mais poderoso instrumento dessa dominação.
Estamos nessa aporia: precisamos de mídia para enfrentar
a mídia.
EC – No final de 2006, o senhor ganhou uma ação
contra o Jornal do Brasil – o Supremo Tribunal de Justiça
já havia condenado outros órgãos de
imprensa pelos mesmos motivos: notícias inverídicas
para denegrir sua imagem política, quando candidato à vice
na chapa de Lula da Silva à Presidência, em
1994. Considera essas condenações educativas
para uma maior responsabilidade da imprensa?
Bisol – Calúnia, injúria e difamação
difundidas pela imprensa são irreversíveis.
Essa irreversibilidade seria menor se a Justiça fosse
mais rápida e tivesse igual disseminação.
A coisa julgada, produzida mais de dez anos depois dos fatos, é inócua
para quem perdeu muito de seu sentido e do valor de sua vida
com a humilhação. A compensação
financeira, seja qual for sua extensão, está longe
de emparelhar com a perda. Quanto ao caráter intimidativo
ou educativo de tais decisões judiciais, penso que
praticamente não existe. Os tablóides ingleses,
por exemplo, sofrem condenações e persistem.
Calculam o custo-benefício e se tornam ainda mais
detratores.
EC – O que a sociedade brasileira pode fazer
para modificar este quadro?
Bisol – Ampliar a discussão sobre a relação
entre cinismo e jornalismo, sobre a democratização
da mídia e sobre a parcialidade da chamada mídia
investigatória, além de exigir das matérias
de opinião a forma explícita de opinião
e seu lugar de inscrição, que é o debate – sobre
o que os gregos clássicos tinham a maior clareza.
EC – Qual o papel do Brasil em uma América
Latina que, de diferentes modos nos últimos anos,
vem buscando formas à esquerda para fugir do formulário
hegemônico do neoliberalismo?
Bisol – O Brasil precisa definir mais claramente sua
política de erradicação da pobreza e
lhe dar a prioridade maior, para então pensar em cumprir
um papel importante nessa América Latina, onde as
doenças do populismo e do nacionalismo rasteiro ainda
vingam.
EC – Questões cruciais como o aquecimento global
e a acelerada destruição do meio ambiente ainda
devem ser submetidas aos interesses econômicos e políticos
que pregam o desenvolvimento a qualquer custo?
Bisol – De modo nenhum. Desenvolvimento a qualquer
custo é genocídio. Desenvolvimento controlado
com democratização do acesso ao que ele alcança é o
caminho. Uma partilha equânime dos frutos já contém
a idéia de controle e preservação ambiental.
EC – O senhor considera-se aposentado da vida política,
ou ela ainda o atrai? Algum convite para concorrer a um cargo
público poderia ser considerado?
Bisol – Se me sentisse necessário, ou ao menos
relevante, socialmente relevante, pensaria em pensar. Mas,
certamente, não será o caso. “Por enquanto” estou “definitivamente” retirado
e, por mais que a vida insista, a morte é daqui a
pouco.
EC – Qual a sua rotina diária atualmente?
Tem algum hobby?
Bisol – Caminhar, nadar e ler. Também estudo
inglês, francês e italiano para passar o tempo
e sofro com o Grêmio na TV. Eu ia deixando a música
clássica de lado, por deficiência auditiva,
mas agora, com aparelhos nas orelhas, recomeço. Tudo
isso e mais muito cinema em DVD...
EC – E o que o senhor está lendo
no momento?
Bisol – Estou lendo A sociedade dos indivíduos,
do sociólogo alemão Norbert Elias, e 64 Contos,
de Rubem Fonseca.
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Descendente de imigrantes italianos,
José Paulo Bisol nasceu em Porto Alegre
em 22 de outubro de 1928. Foi criado em Santa Maria,
onde o pai era pequeno comerciante. Apaixonado
por futebol e jogador habilidoso, só não
se profissionalizou como atleta em decorrência
de seguidas lesões. Formado em Direito e,
posteriormente, em Jornalismo, escreveu vários
livros, sendo Sim à vida (poesia), em 1957,
um dos mais conhecidos. Bisol tem três filhos
e nove netos e é casado em segundas núpcias
com a procuradora do Estado aposentada Vera Lúcia
Zanette.
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