Quando
o bizarro supera a política
| Montagem
de Claudete Sieber sobre foto da Agência Brasil |
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O fato de um cachorro morder um homem não é notícia,
mas quando um homem morde um cachorro, aí sim é notícia.
A frase foi dita em 1882 pelo editor do diário nova-iorquino
The Sun, John B. Bogart, mas bem se aplica a este exato momento.
Basta o leitor dar uma rápida olhada nos jornais diários à sua
volta. A busca pelo extraordinário é a moeda corrente
nas editorias de geral, esporte e cultura. Há algumas décadas,
a editoria de política, antes refratária a essa linha
de cobertura, terminou por se render à lógica de
mercado reinante: o espetáculo da notícia vende jornal,
dá audiência. A imprensa, para alguns teóricos
da área, é vilã, para outros, fruto da própria
sociedade em que está inserida.
Por Caren Mello

dita
lógica determina que estará fadado à desgraça
o veículo que se detiver ao trivial. Quanto mais diferente,
inusitado ou espetacular, maior a venda e a audiência. Para
o editor de política do Jornal do Comércio, Carlos
Bastos, não falamos em modismo. O extraordinário
sempre vendeu mais. Com 51 anos de jornalismo, sendo 48 deles em
política, Bastos acredita que se trata de uma conseqüência
do regime capitalista, e não propriamente da mão
empresarial direta sobre a linha editorial. “Não
chega a existir pressão do empresário ou do patrão.
O jornalista quer que a sua matéria venda.”
A concorrência com a TV pode justificar o fato de o veículo
impresso ter-se tornado mais superficial, como se estivesse reagindo à migração
do consumidor das páginas para as telas. Na opinião
do jornalista e coordenador do Programa de Pós-graduação
em Comunicação da PUCRS, Juremir Machado da Silva,
a pressa na publicação definiu a decadência
da notícia bem-apurada. “A mediocridade está imperando
nas coberturas de política. O que interessa é a fachada”,
garante. “Os colunistas da área”, critica ele, “tornaram-se
as pessoas mais fofoqueiras, tal qual colunistas sociais”.
A informação de bastidores cedeu espaço para
o diz-que-diz, denuncia Juremir. Com a voracidade de publicar em
suas colunas as notas mais apimentadas, os colunistas estariam
lançando mão de todas armas. A fonte dita “fidedigna” é para
ele o que de pior poderia existir na editoria. “Em nome delas,
colunistas lançam balões de ensaio e competem entre
si, como em uma fogueira das vaidades. Chegam a publicar que determinado
político acha feio o nariz do outro”, comenta o jornalista
e doutor em Sociologia da Cultura pela Universidade Paris V.
O processo se daria pelo modo inverso, na opinião do blogueiro
e colunista de O Globo, Ricardo Noblat. Diante do atual cenário,
seria difícil fugir do mediano. “A política
virou um espetáculo. Governar virou um espetáculo.
Faz-se política para consumo imediato via meios de comunicação.
Uma cizânia alimenta outra. E aí a superficialidade
ganha espaço.”
Ao ser questionado sobre o futuro da imprensa, o teórico
da Comunicação Muniz Sodré revela incredulidade
quanto à reação da própria imprensa.
Tudo irá depender da cultura do país: “Enquanto
uma nação for mais empresarial do que ética,
mais tecnoburocrata do que promotora da liberdade cultural, nada
vai acontecer. Na visão do sociólogo, é preciso
que esse modelo de Estado esgote-se para depois encontrar rotas
alternativas. “Aí, en a imprensa terá a cara
desse novo Estado.”
O grotesco nosso de cada dia
Para explicar as preferências da mídia, Muniz Sodré parte
dos conceitos do filósofo Antonio Gramsci sobre grande política – aquela
que abriga causas reformistas ou que se destinam a ampliar as ações
de Governo – e de pequena política – a parlamentar. É desta última,
feita a partir de acordo de bancadas, que a mídia alimenta-se. “O
noticiário vive dessas mesquinharias, dessa cobertura fragmentada,
pouco educativa e que nada interessa à construção
de uma nação.”
A notícia, diz o pesquisador e professor da UFRJ, pela lógica
de mercado, passou a ser tratada como mercadoria. Assim, para vender, é preciso
agradar o consumidor com um colorido especial. Sodré é autor,
com Raquel Paiva, de Comunicação do grotesco (leia
entrevista no Extra Classe – junho de 2002), obra que trata
da exploração de escândalos e aberrações
na TV. Sodré lembra que o noticiário político
era restrito a pequenos grupos. Portanto, para angariar mais público,
foi preciso a “roupagem de espetáculo”.
| Foto:
René Cabrales |
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Sodré
estuda
escândalos na mídia |
Do latim
espectaculum, o conceito envolve determinada cena e um
público que a assista. Nada será criado, recriado
ou copiado sem que haja um consumidor que o aprove. É o
que defende o cientista político Benedito Tadeu César.
Doutor em Ciências Sociais pela Unicamp, César cogita,
inclusive, a possibilidade de pesquisas promovidas de forma reservada
pelos jornais para agradar ao seu público. “É apenas
uma cogitação, mas o que explicaria o fim da hostilidade
muitas vezes gratuita a Lula após a reeleição?
Ou seja, se ele foi reeleito, é porque teve aprovação.
Deve haver algum instrumento que detecte essa saturação
do sensacionalismo”, diz. Para o professor de Ciência
Política da Ufrgs, nenhum veículo bancaria profissionais
como Diego Casagrande e Diogo Mainard, dois “poços
de preconceitos”, se não tivesse a certeza de que
eles agradam boa parte dos seus ouvintes ou leitores e, também,
se a opinião deles não estivesse em harmonia com
a ideologia do veículo.
Para o professor, o inusitado não é por si só garantia
de sucesso. Tudo que chama muito a atenção passa
por uma triagem, segundo critérios ideológicos e
de recepção. “A mídia e a oposição
vinham desde o início do governo Lula tentando levantar
suspeitas até que veio a público a prática
histórica da compra de apoio no Congresso. O espetáculo
do mensalão colou, porque encontrou eco na população
naquele determinado momento. E a mídia soube captar isso.”
A disposição dos veículos impressos de seguir
a mídia eletrônica, sobretudo na espetacularização
da notícia, não é um primazia nossa. Discute-se
pelo mundo para onde irá a informação. Em
entrevista para o monitor de desempenho da mídia Observatório
da Imprensa, Pierre Bourdieu, titular da cadeira de Sociologia
do Collège de France, um dos mais lidos e citados sociólogos
do mundo, apontou para os veículos franceses. Pressões
e interesses que antes pesavam sobre a TV estenderam-se aos jornais.
Bourdieu cita um estudo publicado na revista Atos da pesquisa em
Ciências Sociais, sobre a evolução da retórica
do jornal Le Monde, citado nas cátedras de Comunicação
como exemplo maior de jornal. As manchetes do diário passaram
a atentar aos aspectos mais anedóticos, sendo que a agenda
política está cada vez mais a cargo dos canais de
TV.
Muniz Sodré não vê a tendência como uma
determinação consciente, mas como fruto da transição
de uma democracia clássica para uma democracia social e
da separação entre Imprensa e Mídia. Imprensa,
explica, é aquela que nasceu da Declaração
Universal dos Direitos do Homem, a que garante o direito da livre
expressão e, por conseqüência, todos demais
direitos. Mídia, por outro lado, tem ligação
direta com o intelectual coletivo das classes dirigentes. A democracia
social ou “molecular”, como prefere chamar, é aquela
preocupada com temas do tipo aborto, investimentos e segurança, “mais
ligada ao consumidor do que com o cidadão” e que alimenta
apenas a mídia. “A Mídia fica a reboque dos
grandes serviços de interesse da sociedade. A Imprensa esqueceu
que ela deve ser uma correia que liga o Estado e o povo”,
avalia. Na medida em que imprensa e mídia se privatizam,
vão atuar pela lógica empresarial. “Qual é a
preocupação do empresário? Não ficar
no vermelho no final do mês. Só.”
Para
os jovens, só existe o que está na internet
Preocupado com a falta de vocação da nova leva de
profissionais, Flávio Tavares, jornalista por mais de 40
anos, incluindo os 10 em que foi correspondente internacional durante
o exílio político, cita o enclausuramento nas redações.
A investigação vai, ressalta Tavares, até onde
a internet pode levar. “Repórter tem de estar na rua.
Eles deixaram de freqüentar o Congresso, as Assembléias,
Câmaras e Executivos. Só sabem tirar informação
da internet.” A “modalidade” de pesquisa, segundo
ele, abre mais espaço para o espetáculo da notícia. “Aí,
qualquer coisa que o Clodovil faça na tribuna, passa a ser
manchete. A cobertura diária de política caiu na
vulgaridade, parte por inércia do repórter ou do
colunista, parte por interesse pessoal na promoção
de determinadas figuras”, diz. A prática do jornalismo
investigativo, na visão de Tavares, estaria migrando para
a TV, em uma inversão dos antigos papéis. “O
que de mais parecido temos com denúncias hoje está sendo
feito por repórteres de TV, como o Cezar Tralli e o Caco
Barcelos, que, inclusive, precisou se afastar um pouco porque estava
sendo ameaçado por narcotraficantes.” Na visão
do editor do JC, não existe mais a busca pela notícia
aprofundada, da denúncia bem-embasada como forma de chamar
atenção. “O jornalismo investigativo está morto”,
decreta Carlos Bastos, excetuando apenas um nome da assertiva. “Eu
só conheço um em todo o Rio Grande do Sul: o Giovanni
Grizotti.” O custo de uma investigação para
uma empresa seria a maior explicação para a falta
de incentivo dos chefes de redação. Uma boa matéria
pode exigir meses de dedicação exclusiva de um repórter.
| Foto:
René Cabrales |
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Tavares:
para jovens
só existe a web
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| O
Golpe de 64 ainda reflete nos plenários |
| Não
tão crítico em relação à espetacularização
da notícia, o jornalista João Carlos
Terlera vê as boas coberturas apenas em relação
ao Executivo por estarem ligadas a interesses de
uma grande maioria. Os projetos de lei que partem
do Governo têm maior destaque porque mexem
com toda a população. Dizem respeito
a estradas, saúde, privatizações. “Mexendo
com interesses da comunidade, pelo mérito
ou demérito, por si só valem estar
em uma página de jornal.”
Em relação à tribuna, no entanto,
Terlera, que foi o primeiro setorista de política
da Folha da Manhã, vê na tendência
uma conseqüência dos tempos de exceção.
Da Constituição Federal de 1967 para
cá, os deputados e senadores perderam espaço.
Não podem mais legislar sobre determinadas matérias.
A grande maioria dos temas de projeto que o Executivo
propõe, como, por exemplo, o que altera salários
do funcionalismo ou mudanças no orçamento,
são vetados. “Se antes os jornais reservavam
enormes espaços para as sessões plenárias,
reproduzindo até discursos inteiros, hoje, a
cobertura se dá apenas em relação
ao extraordinário”, comenta. Isso explica,
ressalta ele, o fim dos setoristas pelos corredores
da Assembléia Legislativa. “Por aqui,
só se vê rádio. Os jornalistas
de redação se pautam pelo que sai no
ar, e os colunistas ficam nas suas mesas aguardando
os releases. Hoje, colunista não cavoca mais
notícia, engole o que o deputado quer,” diz
o criador da coluna Bastidores, que manteve em Zero
Hora de 1980 a 1993.
Com restrições de atuação
em plenário, os deputados buscaram uma nova
e inteligente forma de garantir espaço, explica
Terlera. A saída foi a criação
de comissões especiais, como as Comissões
Parlamentares de Inquérito (CPIs). “São
elas que vão tratar de temas polêmicos,
como corrupção, desvio de verbas, improbidade
administrativa. Cada acontecimento desses assegura
uma ótima cobertura na imprensa, mantendo o
deputado por meses com a cara na telinha. É do
que ele precisa e é tudo o que a mídia
quer!”
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A
arte de publicar o joio
Existe no anedotário jornalístico uma máxima
que diz: “os editores são aquelas pessoas, dentro
das redações, que têm por função
separar o joio do trigo, só que invariavelmente tendem a
publicar o joio”. A confusão entre opinião
e informação aliada com a ideologia do veículo é que
darão a tônica da exploração ou não
do bizarro, segundo César. Uma revista como a Veja, cita, é o
protótipo do veículo que busca a “satanização” de
determinadas figuras públicas, assim como jornais como O
Estado de São Paulo ainda se mantêm mais comedidos.
Atuando no conselho do leitor do jornal Zero Hora, uma das bandeiras
levantadas por Cesar foi de que o box com opiniões de repórteres
e correspondentes estivesse caracterizado como sendo de opinião.
A assinatura e o itálico tão somente indicavam o
discurso opinativo apenas para quem detém a técnica
jornalística. “O leitor comum”, segundo Cesar, “não
entende essa sutileza”. “No momento em que se define
o que é opinião do que é informação,
a notícia fica com mais cara de notícia e quem comenta
pode falar o que quiser.”
| Foto:
Sérgio Amaral/divulgação |
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Noblat:
jornalismo está
ficando mais responsável
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De satanizar ou endeuzar figuras públicas entende bem Ricardo
Noblat. Chefe de redação do Jornal do Brasil, durante
a transição da presidência de José Sarney
para Fernando Collor de Mello, Noblat conta sobre as restrições
na época aos comentários de ambos os Governos. “Sarney
era intocável”, revela. Mais tarde, o que antes era
pressão, transformou-se em punição. Ele foi
demitido por ter publicado uma série de artigos chamando
de farsante o já eleito Fernando Collor. Hoje, para ele,
não há mais como manter alguém inatingível
ou atacar uma figura pública de forma gratuita. “Levando
em conta os veículos mais importantes de comunicação
de massa, dá pra dizer que a cobertura melhorou muito. Está mais
comedida, mais responsável e mais profunda. Acho que eles
(os jornalistas) aprenderam com a cobertura sensacionalista que
fizeram dos escândalos do primeiro governo Lula.”