Qual o ar que se respira hoje no Estado? O presidente do Tribunal
de Justiça defende a pena de morte e a redução
da maioridade penal para 14 anos. As reações são
de apoio, silêncio constrangido ou elogio à coragem
de expressar tais opiniões publicamente. A governadora faz
do choque de gestão a idéia-força de seu governo,
levando-a a todo o território gaúcho. E o que é espalhado
junto com o choque é a ausência do Estado e de serviços
públicos. O prefeito da capital é mais conhecido por
uma música que fez na década de 1970 do que por suas
realizações no cargo, sendo desconhecido por um terço
da população da cidade (segundo pesquisa do Instituto
Methodus). A principal autoridade da Cultura do Estado não
produziu, até agora, um parágrafo sequer expondo o
que pensa do assunto. E o presidente da Assembléia Legislativa
orgulha-se em fazer o papel de garoto-propaganda de indústrias
de celulose.
a
imprensa gaúcha, com as honrosas exceções de
sempre, mediocridades são conduzidas ao “panteão” dos
formadores de opinião. Na política e na mídia,
iletrados e oportunistas de diferentes matizes freqüentam os
holofotes com a soberba que molda os espíritos mais insalubres.
Cronistas do próprio umbigo são alçados a alturas
cujo ar não podem respirar. E a comunidade bem-pensante e
bem de vida, considerada assim ao menos, assiste a tudo isso com
um ruidoso silêncio, tratando de cuidar de seus interesses
e ostentando um niilismo vulgar em relação à política, à cultura
e à vida das pessoas que não tiveram o privilégio
de nascer envolvidas no manto sagrado do capital e/ou de uma tradição
que só sobrevive em amarelados papéis. A vulgaridade,
aqui, anda de mãos dadas com um sentimento de inércia
e indiferença que embala tal niilismo.
Assim, o Estado que já teve Simões Lopes Neto, Erico
Verissimo, Júlio de Castilhos e Getúlio Vargas – apenas
para citar quatro nomes de quem se pode divergir aqui e ali, mas
que dificilmente se poderá qualificar como nulidades – hoje
assiste a um desfile melancólico em seus principais postos
de comando, na política, na economia, na imprensa e na cultura.
Pessoas incapazes de produzir um texto sobre o que pensam do mundo
em que vivem, mas capazes de atuar como despachantes de interesses
particulares que não são aqueles da maioria da população.
Multiplicam-se vozes a sepultar a famosa politização
do povo gaúcho. O Rio Grande do Sul terá afundado em
sua própria pretensão e arrogância, transformando-se
em uma melancólica paródia de sua própria história?
A defesa da morte, do choque, da ausência da palavra e da inércia
tornaram-se os princípios motores da outrora orgulhosa Província
de São Pedro?
Sirvam nossas façanhas de
modelo a toda terra...
Nos últimos meses, coisas incríveis estão acontecendo
no Estado. Na manhã gelada do dia 29 de maio, gaúchos
e gaúchas acordaram com a notícia de que o Rio Grande
do Sul teria, a partir daquele dia, uma embaixada em Brasília.
Isso mesmo, uma embaixada. O único Estado da Federação
a ter uma representação diplomática no Distrito
Federal. Segundo a imprensa noticiou, teria partido da própria
governadora Yeda Crusius (PSDB) a idéia de chamar de embaixada
o escritório de representação do Rio Grande
do Sul em Brasília. O prédio que já serviu como
embaixada da França e do Canadá passou a sediar a representação
gaúcha. Yeda Crusius inaugurou oficialmente a embaixada com
uma solenidade oficial regada a vinhos da Serra e doces de Pelotas.
Além disso, providenciou uma placa especial para a ocasião,
onde aparece, orgulhoso, o letreiro em bronze: Embaixada do Rio Grande
em Brasília.
Ilustração:
Claudete Sieber
O novo embaixador em “solo brasileiro”, Marcelo Cavalcante,
esclareceu sua missão: representar os interesses do Estado
junto ao Governo federal e até no contato com outros países.
Ao comentar a notícia, ainda na manhã do dia 29 de
maio, a jornalista Ana Amélia Lemos disse, preocupada, na
rádio Gaúcha: “Espero que isso não contribua
para alimentar as piadas sobre o nosso bairrismo”. Obviamente,
o temor da jornalista acabou confirmando-se. Uma vez divulgada a
notícia e a foto da placa da embaixada do Rio Grande do Sul
em Brasília, as piadas começaram. Será preciso
visto para ir a Santa Catarina? Quando forem a Brasília, os
gaúchos poderão fazer compras no free-shop? Quando
será aberta a embaixada do Brasil no Rio Grande do Sul? O
Rio Grande do Sul passará a ser membro-pleno do Mercosul ou
cogita estabelecer acordos bilaterais de comércio? O nosso
país terá escolas bilíngües?
Acervo
de luta contra a ditadura está ameaçado
Está circulado pela internet
um texto de uma jornalista e historiadora residente
em Porto Alegre denunciando a ameaça de fechamento
do Acervo da Luta Contra a Ditadura, hoje instalado
no Memorial do Rio Grande do Sul. Essa ameaça
paira no ar já há algum tempo. Em fevereiro
deste ano, a secretária estadual da Cultura,
Mônica Leal, manifestou desejo de se livrar do
material que está hoje sob a responsabilidade
do Arquivo Histórico, ligado à pasta
da Cultura. Segundo ela declarou à imprensa
na época, o material é “valioso
para o movimento de direitos humanos” e deveria
estar em outro lugar. Há a possibilidade de
esse material ser desmembrado em três e distribuído
entre outras secretarias. A preocupação é que
parte desse material perca-se neste processo, pois
muitos documentos ainda não foram catalogados
e investigados adequadamente.
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