
Nosso
espaço


á somos
6 bilhões, não contando o milhão e pouco que
nasceu desde o começo desta frase. Se fosse um planeta bem
administrado, isto não assustaria tanto. Mas é, além
de tudo, um lugar mal freqüentado. Temos a fertilidade de coelhos
e o caráter de chacais, que, como se sabe, são animais
sem qualquer espírito de solidariedade. As megacidades, que
um dia foram símbolos da felicidade bem distribuída
que a ciência e a técnica nos trariam – um helicóptero
em cada garagem e caloria sintética para todos, segundo as
projeções futuristas de anos atrás –,
se transformaram em representações da injustiça
sem remédio, cidadelas de privilégio cercadas de miséria,
uma réplica exata do mundo feudal, só que com monóxido
de carbono. Nosso futuro é a aglomeração urbana,
e as sociedades se dividem entre as que se preparam – conscientemente
ou não – para um mundo desigual e apertado e as que
confiam que as cidadelas resistirão às hordas sem espaço.
Os jornais ficaram mais estreitos para economizar papel, mas também
porque diminui a área para expansão dos nossos cotovelos.
Chegaremos ao tablóide radical, duas ou três colunas
magras onde tudo terá que ser dito com concisão desesperada.
Adeus advérbios de modo e frases longas, adeus frivolidades
e divagações superficiais como esta. A tendência
de tudo feito pelo homem é para a diminuição – dos
telefones e computadores portáteis aos assentos na classe
econômica. O próprio ser humano trata de perder volume,
não por razões estéticas ou de saúde,
mas para poder caber no mundo.
No Japão, onde muita gente convive há anos com pouco
lugar, o espaço é sagrado. Surpreende a extensão
dos jardins do palácio imperial no centro de Tóquio,
uma cidade onde nem milionário costuma ter mais de dois quartos,
o que dirá um quintal. É que o espaço é a
suprema deferência japonesa. O imperador sacralizado é ele
e sua imensa circunstância. Já nos Estados Unidos, reverencia-se
o espaço com o desperdício. Para entender os americanos
você precisa entender a sua classificação de
camas de acordo com o tamanho:
queen size, tamanho rainha,
king
size,
para reis, e, era inevitável,
emperor size, do tamanho de
jardins imperiais. É o espaço como suprema ostentação,
pois – a não ser para orgias e piqueniques – nada é mais
supérfluo do que espaço sobrando numa cama, exatamente
o lugar onde não se vai a lugar algum.
Os americanos ainda não se deram conta de que, quando chegar
o dia em que haverá chineses embaixo de todas as camas do
mundo, quanto maior a cama, mais chineses.
