
Abezê

ma
das coisas que o cérebro faz com quem possui cérebro é
condicionar a percepção. Sei disso porque com isso
não
me conformo, conforme informo às vezes. Não me acostumar é
o meu costume.
Com todos os sentidos a mente procura – no outro, no horizonte,
na escuridão – sinais palpáveis ou impalpáveis
de que
está bem situada, seja lá que zorra ou calmaria seja
a situação.
Rimas no ouvido, simetrias na paisagem, tons sur tons na natureza,
tudo nos serve de acomodação mental. Pro desempenho
do cocoruto, melhor seria desacomodá-lo sempre. (O inquieto
M. C. Escher enunciou: “nós amamos o caos porque adoramos
produzir ordem).”
Afora a matemática, a mais decisiva condicionante universal,
há zilhões de condicionamentos espalhados pelaí,
infiltrados
nas cacholas. Tente ignorar a sucessão dia e noite. Pense
em
esquecer direita e esquerda. Ouse eliminar uma nota musical.
Etc.
Dos tantos confortos cerebrais – coisas que a gente assimila
pra questionar menos – uma das mais bem estofadas é o
conceito do abecedário. É um sofazão pro raciocínio:
além de
bonita, a grafia da palavra é indutora e já ajeita,
sonoramente,
a seqüência alfabética nos miolos, ad eternum.
Como se ABC
fosse o único software compatível com o hardware
neurológico.
Por que não CBA? Bão, aí já vira sigla
de alguma confederação
brasileira atlética.
Impressionante: todos os alfabetos ocidentais são ordenados
do mesmo modo. Tá certo, é herança da dominação
latina
e pronto. Talvez por isso não se consiga desconjuntar o
alfabeto.
O máximo de subversão é imaginar um abezedário.
Piadinha
graciosa com um simples twist, a antecipação do final.
Recorrente
na lembrança.
Lembro como se fosse há 58 anos: foram as aulinhas da tia
Lena (tia mesmo, irmã mais moça da minha mãe)
que implantaram
as letras em mim, aos meus quatro anos de idade. Essa
tia, que é o que se chama de analfabeta funcional, fez com
que eu entrasse para a escola já como leitor, acostumadíssimo
com o abecê. Nunca mais me livrei dele.
Agora, no curso desnaturado da velhice, essa minha tia
desaprende um tanto do pouco que sabia. Aos poucos, vão-se
vogais e consoantes, desorganiza-se a decoreba. À custa
de
alguns sintomas, o sistema de linguagem descondiciona-se. Em
seu abezheidário, está liberada da obrigação
de fazer sentido.
Enquanto isso, eu aqui, escravo da criação, tento
desalfabetizar-me. Inútil. Não se pode criar nada
tendo em mente
um alfalhabeto.
