Concluído
inventário do
Massacre de Porongos
Pesquisa inédita no estado pretende reforçar a presença
do negro na história
gaúcha e contribuir para o processo de tombamento do sítio
histórico.
Por Cleber Dioni

Instituto
do Patrimônio Histórico
e Artístico Nacional
(Iphan) concluiu o Inventário
Nacional de Referências Culturais
Massacre de Porongos
(INRC), uma pesquisa inédita no
estado que pretende reforçar a presença
do negro na história do Rio
Grande do Sul e contribuir para
o processo de tombamento do sítio
histórico.
O trabalho mapeou as referências
culturais sobre o Cerro de
Porongos, localidade do município
de Pinheiro Machado, na região
Sul, que entrou para a história da
Guerra dos Farrapos. O local serviu
de palco para um combate entre
as forças imperiais e republicanas,
onde foram surpreendidos e
mortos quase todos os farrapos negros.
A batalha também ficou conhecida
como a “Surpresa” ou a “Traição” de Porongos, expressão
cunhada por diferentes pontos de
vista sobre o episódio.
Ainda não está definida a data
de apresentação dos produtos que
compõem o inventário. Faltam verbas
para produzi-los em maior escala.
Foram produzidos um CD
contendo um guia de referências
documentais sobre escravidão, um
caderno de história e um DVD
sobre a pesquisa histórica e antropológica
do INRC Massacre de
Porongos, realizado pelo Departamento
de História e Antropologia,
da Universidade Federal de
Pelotas, e finalizado em dezembro
de 2007. Uma exposição itinerante
de fotos vai ilustrar a divulgação
do inventário.
O estudo foi realizado em cinco
municípios – Pinheiro Machado,
Piratini, Caçapava do Sul,
Guaíba e Porto Alegre – e envolveu
o trabalho das geógrafas Ciane
Fochesatto e Marcia Muller, dos
historiadores Vinicius Oliveira e
Daniela de Carvalho, dos antropólogos
Ana Paula Carvalho,
Cristian Salaini, Lucas Graeff, que
também é fotógrafo, além da coordenadora
do grupo, Daisy
Barcellos, e da supervisora-geral, a
historiadora Beatriz Muniz Freire, do
escritório regional
do Iphan.
A pesquisa ganhou
impulso a
partir de entidades
como os movimentos
negros dos
municípios de Porto
Alegre, Guaíba
(Centro Cultural
Cândido Velho) e
Pinheiro Machado,
o Grupo Cultural Raízes d´África, de Porto
Alegre, além de moradores do Cerro
de Porongos e do Movimento
Tradicionalista Gaúcho (MTG).
A historiadora Beatriz Freire
explica que a cultura popular envolve
não apenas manifestações
festivas e tradições orais e religiosas
do povo brasileiro, mas “o
conjunto de suas criações, as maneiras
como se organiza e se expressa,
os significados e valores
que atribui ao que faz”. “O mais
importante nesse estudo é saber
como os atuais moradores dessa e
de outras regiões, descendentes
ou não dos farroupilhas, vêem os
lanceiros negros, como eles encaram
o Massacre de Porongos num
contexto de lutas dos negros contra
o preconceito”, ressalta a pesquisadora.
| Participação
histórica
O historiador Vinícius Oliveira
diz que o trabalho assume importância
social particular ao reconhecer
a participação da população
negra na formação histórica
e social do Rio Grande do
Sul justamente a partir do evento
histórico de maior significância
para a formação da identidade regional,
que foi a Guerra dos Farrapos.
Oliveira relacionou a bibliografia
e a documentação relativas
aos lanceiros negros na Grande
Revolução, além de auxiliar
no mapeamento das narrativas
locais sobre o episódio de
Porongos, e dos grupos sociais que
atualmente evocam esta memória.
Disso, resultou a publicação
de um CD-ROM chamado Guia
de Referências Históricas Massacre
de Porongos, que contém levantamento
bibliográfico de imagens
antigas e atuais sobre o
tema, bem como resumos de documentação
histórica que podem
servir de fonte para novas pesquisas
sobre o assunto.
“Em nenhum momento o objetivo
do trabalho do historiador
foi resolver se de fato houve massacre
ou não. Nossa perspectiva
foi apontar os indícios e argumentos
documentais e bibliográficos
das diferentes versões e deixar
que o leitor fizesse sua interpretação.
Acreditamos que este trabalho
possa se somar aos esforços
da população negra em se identificar
com a história do estado, geralmente
vista como resultado
unicamente da colonização lusitana,
alemã e italiana”, afirma o
historiador.
Segundo Oliveira, os desdobramentos
do inventário são difíceis
de mensurar, já que a questão
dos lanceiros como suporte
para uma identidade negra tem
força própria que antecede a intervenção
do Iphan e está cada
vez tomando mais força no cenário
cultural rio-grandense. “Mas
acreditamos estar contribuindo
para que novos trabalhos possam
ser desenvolvidos ou estimulados
pelas nossas publicações”, afirma.
O antropólogo Cristian Salaini
contribuiu na identificação de
bens culturais, narrativas, práticas
e grupos sociais relacionados
ao Cerro de Porongos, que é tomado
como referência da população
afro-brasileira.
Com experiência acumulada
em pesquisas relacionadas a políticas
públicas no Brasil, Salaini
considera que a pesquisa é de
fundamental importância para a
sociedade porque se originou a
partir da reivindicação de grupos
sociais pelo reconhecimento de
seu papel na história local.
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Memória
Coletiva
“Um assunto que antes estava
inscrito apenas no campo da
historiografia ganha corpo através
de práticas, narrativas e da memória
social de grupos artísticos, movimento
negro, CTGs negros que
atuam como canais no “efervescimento” dessa memória
coletiva. Vemos, desta forma, um processo
de diálogo dinâmico entre
história e memória. O Massacre de
Porongos atua como ponto de partida,
como uma representação mais
geral na qual os grupos apoiam-se
ao relatar suas origens culturais e
seu passado de luta”, explica
Salaini.
Segundo ele, o trabalho ajudou
a compor uma nova memória negra
e uma nova memória gaúcha
mais democrática. “Creio que o
inventário é um propulsor da memória
dos grupos sociais que com
põem a diversidade brasileira. Uma
das vantagens é que ele privilegiou
a organização de referências bibliográficas
sobre o tema. É uma
pesquisa que promove a possibilidade
de entender as práticas,
memórias, os saberes de grupos
como fundamentais para a reprodução
social.
Salaini concluiu em abril de
2006 sua dissertação de mestrado
pela Ufrgs com o trabalho “Nossos
heróis não morreram”, no qual discorre
sobre o lugar e a participação
do negro na sociedade brasileira
e rio-grandense através da
ação da memória coletiva e do
imaginário social.
O Massacre de Porongos foi o
ponto de partida, cujo tema ganhou
repercussão nacional em
2003, com a idéia de construção
de um memorial aos Lanceiros Negros,
em Pinheiro Machado, e de
um monumento no Parque
Farroupilha, na Capital, fruto de
parceria entre o movimento negro
local, a Secretaria Estadual de Cultura
e a Fundação Palmares, vinculada
ao Ministério da Cultura.
Para o antropólogo, os projetos
fizeram com que se voltasse a
discutir a polêmica que põe em
cheque a honra do general David
Canabarro, então comandante
do exército farrapo. “Há muito
que os historiadores se envolvem
com a questão, mas só recentemente
a polêmica tem sido foco
de outros grupos que procuram
revisar o local do negro na história
local”.
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Tombamento
Cabe ao Iphan definir se o local
merece ou não ser reconhecido
como patrimônio nacional.
Além do Inventário de Referências
Culturais, o documento será acompanhado por
uma pesquisa histórica e arqueológica. Quando
estiver concluído, será encaminhado
ao Conselho Consultivo
do Instituto. “Só agora temos
políticas públicas na área do
patrimônio contemplando esse
universo sempre escondido no Rio
Grande do Sul, dos índios e negros”,
observa Ana Meira. Se for
aprovado, será o primeiro tombamento
relacionado à Revolução
Farroupilha que não se refere a
casas de generais ou quartéis de
comandantes brancos.
O reconhecimento de
Porongos é uma luta de cinco anos
do movimento negro gaúcho, que
quer resgatar a história da batalha
ocorrida no local, onde soldados
negros foram as principais
vítimas do massacre.
Outro Inventário de Referências
Culturais inédito no estado
diz respeito à população indígena
e foi realizado na região do sítio
histórico de São Miguel das Missões,
junto à população Mbyá-Guarani,
que ali vive predominantemente
ocupada com atividades
de produção e venda de
artesanato, sobretudo a turistas e
visitantes.
O levantamento bibliográfico
para a pesquisa foi concluído, sendo
mapeados os circuitos dos
constantes deslocamentos do grupo.
Além do artesanato (cestaria
e escultura em madeira), a música
e a festa do milho são duas formas
de edificação que formam a
base do Inventário.
PESQUISA – O Inventário
Nacional de Referências Culturais é
uma metodologia de pesquisa
desenvolvida pelo Iphan que tem
por objetivo produzir conhecimento
sobre os domínios da vida social.
Constitui referências de identidade
para um grupo, que podem
ser, além das categorias estabelecidas
no registro, edificações associadas
a certos usos, a significações
históricas e a imagens urbanas,
independentemente de sua qualidade
arquitetônica ou artística.
A delimitação da área do inventário
depende das referências
culturais presentes em um território.
Essas áreas podem corresponder
a uma vila, a um bairro, a uma
zona ou mancha urbana, a uma
região geográfica culturalmente
diferenciada ou mesmo a um conjunto
de segmentos territoriais.
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Patrimônio Imaterial
O patrimônio cultural não se restringe apenas a imóveis
oficiais,
igrejas ou palácios. Se estende também a prédios
particulares,
trechos urbanos e até ambientes naturais de importância
paisagística, passando por imagens, mobiliário, utensílios
e outros
bens móveis.
O Patrimônio Imaterial é transmitido de geração
em geração e
constantemente recriado pelas comunidades e grupos em função
de seu ambiente, de sua interação com a natureza
e de sua história,
gerando um sentimento de identidade e contribuindo para
promover o respeito à diversidade cultural.
São exemplos as festas de Largo de Salvador/BA, o congo
de
Nova Almeida, no Espírito Santo, a farinha de mandioca do
Pará,
a viola caipira do Alto e Médio São Francisco (MG),
o queijo
artesanal mineiro e a cerâmica baiana de Rio Real, todos
com
inventários culturais em andamento.
A Unesco define como Patrimônio Cultural Imaterial “as
práticas,
representações, expressões, conhecimentos
e técnicas – junto com os instrumentos,
objetos, artefatos e lugares culturais
que lhes são associados – que as comunidades, os grupos
e, em
alguns casos, os indivíduos reconhecem como parte integrante
de seu patrimônio cultural”.
INVENTÁRIOS REALIZADOS
O Programa Nacional do Patrimônio Imaterial já realizou
sete
INRCs: Círio de Nossa Sra. de Nazaré – Belém/PA
; Ofício das
Baianas de Acarajé – Salvador/BA; Viola de Cocho – MS/MT
; Jongo –
RJ/SP ; Cerâmica Candeal – MG (CNFCP); Bumba-Meu-Boi – MA.
(CNFCP); e Museu Aberto do Descobrimento – BA.
| Lei
preserva herança dos negros
A Assembléia Legislativa aprovou
em março projeto de lei do deputado
Raul Carrion (PCdoB), que tem
por fim preservar o patrimônio afrobrasileiro,
definido como toda a manifestação,
produção ou obra de natureza
material e imaterial que se refira à
identidade, à ação, ao modo de
vida ou à memória dos povos de origem
africana.
“A presença negra no estado está nas lendas e na própria história gaúcha.
Nos momentos de paz ou de
peleias, sempre contou com a participação
e o testemunho do povo negro,
que sofreu e ainda sofre com o desprezo
e a falta de cuidado. Basta verificarmos
a ausência de monumentos,
logradouros e museus que reverenciam
esse tema”, explica Carrion.
Dados do Observatório Afro-brasileiro,
do ano de 2000, registram a
presença de quase 1,3 milhão de negros
e negras no estado, sendo que a
maior cidade negra em tamanho da
população era Porto Alegre, abrigando
mais de 225 mil afro-brasileiros,
seguida de Pelotas, Caxias do Sul e
Santa Cruz do Sul. A cidade de Lajeado
do Bugre, na região das Missões,
era o município gaúcho com maior
percentual de afro-brasileiros, com
73% da sua população negra. Carrion –
que foi autor de uma lei semelhante
em nível municipal quando vereador
de Porto Alegre – destaca inúmeras
obras que se tornaram pontos
turísticos como a Ponte de Pedra,
construída pelos escravos junto ao
atual Largo dos Açorianos; a Igreja
das Dores, construída sobre um “pelourinho”,
com todas suas lendas e sua cativante escadaria; e a Igreja de
Nossa Senhora do Rosário, que foi
construída pelos escravos para seus
cultos religiosos. Pode-se destacar
ainda as primeiras edificações do
complexo hospitalar da Santa Casa
de Porto Alegre e a Igreja Nosso Senhor
Jesus do Bom Fim.
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