Adios,
Benedetti
Por Renato Dalto

oje
está cinza, é segunda-feira,
e me sobe à garganta
a vontade de chorar
por Mario Benedetti. Dizem
que foi ontem (17 de maio), em
Montevidéu, que ele morreu,
aos 88 anos. Foram os versos de
Benedetti que tiraram o
bandonéon da vida das mãos
de Deus e o colocaram nos dedos á
geis de Aníbal Troillo. Foram
os versos de Benedetti que
falaram de um comandante
guerrilheiro com estrela na testa
que seria encontrado no
céu, em qualquer céu onde
fosse possível a esperança de
um mundo melhor. Foram os
versos dele que desenharam
um país pequeno, verde e terno
chamado Uruguai.
Mas não sei de onde vem
essa vontade de chorar. Oitenta
e oito anos é um bom tempo
de vida e Benedetti fazia, há muito tempo,
uma espécie
de testamento literário. Já era celebrado
num país que mergulhou
na treva da ditadura – onde ele resistiu bravamente – e
agora assistia a primeira vitória
da Frente Ampla.
Emblematicamente, um dia
depois do povo não ter dormido
comemorando, na véspera
em que a esquerda assumiria o
poder, avistei Benedetti ensimesmado,
sentado a um canto
num café no centro de Montevidéu.
Deu um discreto
buenos dias com a cabeça, levantou
e saiu. Na sacolinha
plástica, creio que vi uns potes
de iogurte e talvez um saquinho
com
medias lunas. Vi-o
caminhar sob os plátanos e ganhar
a rua em passos miúdos.
Talvez tivesse dormido cedo na
noite anterior e acordado ao
nascer do dia, alheio à festa
que ele ajudou a construir. Porque
os versos de Benedetti não
foram necessariamente feitos
para a festa mas para a ternura,
o silêncio, o amor de carne
e partilha e o prenúncio da alvorada
de um novo país.
Esse poeta me lembra um
tempo de luta e utopia, que traz
também um pouco de melancolia
da juventude perdida e
da escassez de certas dignidades
intelectuais. Cláudio
Abramo, quando escreveu sobre
Julio Cortazar, lembrava de “um homem grave,
desses que estão em desuso”. Mario
Benedetti era com certeza um
dos últimos dessa estirpe. Guardo
intacto, e a cada vez que lembro
toca muito, o dilacerante romance
A Trégua, talvez o mais
fiel retrato existencial da alma
uruguaia. É a novela das alegrias
escassas, do cotidiano morno
que se ilumina com o amor de
um aposentado por uma jovem.
Mas é também o derradeiro retrato da perda. E o homem
que
perde a mulher amada é também
o país da juventude perdida nos
anos de chumbo.
Talvez por isso tenha me dado
vontade de chorar. Porque
Benedetti é também sinal de coisas
que perdemos e não poderíamos
ter perdido. Sobre a mesa, repousa
Memoria y Esperanza – Un
mensaje a los jóvenes, um de seus últimos
livros. Fala em manter a
alma jovem com o sentido permanente
da descoberta.
Benedetti era o cerne de sua
própria poesia e parecia imortal.
Por isso me deu vontade de chorar
por ele.
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