ENERGIA ALTERNATIVA
A promessa que evaporou no ar
Depois de um forte lobby político
em Brasília, produtores do Rio Grande do Sul conseguiram
incluir o estado no zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar,
concluído em abril
pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA).
Passada a euforia inicial, a única etapa
que vem sendo tocada é a pesquisa de espécies adaptadas
para o clima gaúcho coordenada
pela Embrapa. Nem a garantia de um mercado local consumidor de
1,2 bilhão de
litros de etanol por ano faz deslanchar um programa de governo
capaz de incentivar a
produção gaúcha.
Por Naira Hofmeister
Cana-de-açúcar é planta tropical
e não aguenta frio e geada.
O maior problema para cultivar
canaviais no território gaúcho está se
tornando mito graças à pesquisa
científica da Empresa Brasileira
de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Em parceria com Emater,
Fepagro, universidades de Santa
Maria e Pelotas e Rede Interestadual
de Desenvolvimento do Setor
Sucroalcooleiro (Ridesa), a
Embrapa está promovendo melhoramento
genético em sementes de
cana. Já foram produzidos 200
clones e 90 estão entre os pré-selecionados
a serem distribuídos
para produtores locais.
“O Rio Grande do Sul tem restrições,
mas pode ser cultivado e
estamos consolidando esses resultados”,
comemora o professor da
UFPR Edelclaiton Daros, que presta
consultoria aos órgãos agrícolas
do Rio Grande do Sul.
O projeto foi um dos responsáveis
pela inclusão do estado no
zoneamento agroecológico da cana-de-açúcar,
apresentado publicamente
em abril pelo Ministério da
Agricultura e Pecuária (Mapa).
Foi preciso pressionar os técnicos
de Brasília e não faltou disposição.
Pudera, a recompensa era a
possibilidade de participar de um
mercado que vai mais do que dobrar
nos próximos dez anos. “O
aquecimento global está forçando
a busca por fontes energéticas
renováveis”, observa o engenheiro
da CEEE, Gilberto Capeletto.
O faturamento anual bruto do
setor sucro-energético brasileiro já é
de US$ 20 bilhões – mais da
metade disso graças à produção de
etanol. E a perspectiva é que a produção salte
dos atuais 25 bilhões
de litros para 59 bilhões de litros
até 2019. “É uma oportunidade única”,
entusiasma-se o especialista da Emater no assunto, Alencar
Paulo Rugeri. No entanto, ele não
esconde certa desconfiança: “Se não
aproveitarmos é por incompetência”.
Alencar tem razões para a suspeita
já que apesar de existir demanda
interna, há pouquíssimos
canaviais no estado. A maioria é remanescente
do Pro-Álcool e tem
produtividade muito abaixo do
necessário para o cultivo comercial.
Os canaviais competitivos são
insignificantes 1% da produção
brasileira de etanol.
O Rio Grande do Sul gasta
mais de R$ 1 bilhão por ano comprando álcool
de outros estados da
federação. “Importamos 90% do
etanol e 100% do açúcar consumidos
no estado”, critica
Capeletto.
Esses números vão aumentar
consideravelmente com o início
das atividades da planta de plástico
verde da Braskem, em Triunfo. É
a primeira empresa no mundo a
produzir eteno a partir da cana-deaçúcar,
um investimento que chega
a R$ 500 milhões. Para produzir
as 200 mil toneladas por ano de
eteno e polietileno, são necessários
400 milhões de litros de etanol.
Somados aos 700 milhões de litros
de álcool combustível que devem
ser consumidos nos carros flex,
chega-se a 1 bilhão e 200 mil litros
de etanol. “É um mercado consolidado,
não é preciso buscar a venda”,
anima-se Alencar.
Cultura sobrevive a estiagens
Mais de 1/3 – 182 dos 496
municípios – do território gaúcho
está apto a cultivar canaviais segundo
o estudo produzido pelo
Mapa. “É uma área muito representativa”,
avalia Alencar.
As melhores condições climáticas
são da região Noroeste, no
chamado Vale do Rio Uruguai. É
uma feliz coincidência já que
os solos dessa área não servem às
culturas mais tradicionais gaúchas,
a soja e o milho. A proposta
da Emater é justamente substituir
as lavouras, que por não
possuírem a produtividade adequada,
puxam o preço das
commodities para baixo e prejudicam
a comercialização. “Há um milhão
de hectares de soja plantados inadequadamente”,
revela o técnico.
A diversificação das culturas
deixa os agricultores menos reféns
do clima – e dos já comuns
períodos de estiagem. “A cana
possui raízes profundas e um período
vegetativo de 180 dias, o
que lhe confere boa estabilidade
mesmo sem chuva”, garante
Alencar.
Além disso, é uma cultura
semiperene, que pode ser cultivada
alternadamente com outras
plantas. A rotatividade preserva
o solo do desgaste de nutrientes.
Além disso, como qualquer outra árvore,
a cana absorve gás
carbônico, o vilão do aquecimento
global. “É importante
desmistificar. A cana é benéfica
para o meio ambiente”, defende
o professor da UFPR, Edelclaiton
Daros.
|
Todo esse cenário promissor
pode ruir
caso o governo do estado não intensifique
as ações para desenvolver a produção
e – fundamentalmente,
a industrialização
da
cana. “Se não tiver dinheiro girando,
ninguém
produz”, sentencia Alencar.
Já existe um projeto chamado RS Energia
para Investidores, ligado aos Programas
Estruturantes da governadora Yeda Crusius
que, através de linhas de crédito do
BNDES, vai lançar no mercado cerca de
R$ 2 bilhões por ano para a produção
de
energia renovável das mais diversas fontes:
eólicas, hidrelétricas e térmicas
de
biomassa, além dos biocombustíveis.
Também estão previstas concessão
de áreas para instalação
de usinas e montagem de infraestrutura, como abertura
de
acessos e pequenas estradas. E o governo
do estado promete reduzir o ICMS
para a aquisição de máquinas e
equipamentos
produzidos no Rio Grande do Sul.
Mas entre a ação do governo e o ideal
pregado pelos técnicos há um vácuo.
Os especialistas no tema garantem que o
Rio Grande do Sul não pode copiar o
modelo paulista de produção, baseado
em
grandes extensões de terra e usinas com
alta capacidade de geração de energia. “Pelas
peculiaridades do sistema
fundiário do RS, deve-se evitar o incentivo à
monocultura e pequenas usinas
devem ser priorizadas”, sublinha um estudo
preliminar executado pelos engenheiros
da CEEE cujo objetivo era tornar
o Rio Grande do Sul autossuficiente
em álcool em dez anos.
Para atingir esse patamar a proposta era
que o estado entrasse como avalizador de
negócios que envolvessem a produção
de
100 mil litros de álcool por dia. O custo
de cada usina seria aproximadamente R$
10 milhões. “É difícil um
agricultor ou
mesmo uma cooperativa conseguir um financiamento
desses, mas para uma estatal
não seria problema”, sugere Capeletto.
O governo, no entanto, espera que os
empresários tragam o capital de giro. “O
projeto de implantação de agroindústrias
não está implementado por falta de empreendedores
dispostos a investir”, revela
o coordenador da assessoria técnica da Secretaria
de Infra Estrutura e Logística,
Edmundo Fernandes da Silva.
|
|