BERENICE CORSETTI
História
da Educação no Brasil foi
marcada por tensionamentos
Berenice Corsetti é professora do curso
de pós-graduação
em Educação e dos cursos de licenciatura da Unisinos.
Sua
linha de pesquisa é Educação, História
e Política e recentemente
foi convidada a participar do ciclo de debates promovido
pela Faculdade de Educação da Ufrgs (Faced), quando
foi analisado o Documento Referência preparatório
para
a Conferência Nacional de Educação (Conae,)
que ocorrerá em 2010, em Brasília. Em sua manifestação,
Berenice falou
sobre democratização do acesso, permanência
e sucesso
escolar, um dos seis eixos temáticos propostos pelo
documento encaminhado pelo ministério. Em São Leopoldo,
o PPG em Educação da Unisinos será um dos
organizadores
do debate municipal do qual sairão propostas e encaminhamentos
para a Conae. “Acredito que os professores das
escolas particulares devem se inserir no processo que está sendo desencadeado. Eles são tão
sujeitos do processo de
ensino-aprendizagem como os seus colegas de escolas públicas.
Aliás, são formados pelas mesmas instituições,
apenas
estão situados em espaços diferentes, mas cumprem
uma tarefa social que é fundamental”. Há anos
atuando
em pesquisa no campo da Educação brasileira, Berenice
recupera aspectos como a relação público e
privado, as
diferentes abordagens de avaliação no desenvolvimento
de
estratégias no setor e a chegada dos interesses
mercadológicos, todos aspectos que tencionam práticas
e
condicionam políticas públicas. Sua análise é valiosa
para
entendermos um pouco da escola brasileira.
Por Jacira Cabral da Silveira
Extra Classe – Qual foi o papel
dos jesuítas na Educação brasileira?
Berenice Corsetti – Foi uma
contribuição importante. A vinda
dos jesuítas para o Brasil se dá no
século 16, em 1549, quando tivemos
a vinda do primeiro Governador-Geral. Os jesuítas receberam
o monopólio da Educação brasileira
e começaram uma obra que era
evangélica e educacional. Foram
eles que construíram os principais
colégios nesse período de 210 anos.
Em 1759 foram expulsos pelo Marquês
do Pombal, dentro de um projeto
de reorganização de estado
português. Era um momento em
que não havia nenhuma iniciativa
pública no campo educacional,
e a saída dos jesuítas significou um
grande vazio.
EC – A partir de quando o Estado
passa a se ocupar em promover
a Educação?
BC – A Educação pública
está inserida no projeto republicano
como uma promessa
de modernização do país.
Conceitos como modernização,
industrialização,
urbanização e Educação
passam a fazer parte do
ideário republicano.
Em 1881 temos a
primeira constituição
republicana
com
uma característica forte de separação
entre o Estado e a Igreja,
quando o Estado vai se colocar
como o principal responsável pela
expansão da escolarização do Brasil,
uma escolarização que era muito
tímida e precária. As escolas
que tínhamos eram aulas realizadas
nas casas. O século 20 vai significar
esta virada em termos da
participação do Estado no campo
educacional. Se pensarmos na realidade
do início da República, de
75% a 90% de analfabetos, temos
hoje uma escola básica, principalmente
de Ensino Fundamental,
que vem agregando oportunidade
de acesso. Temos com isso um
avanço educacional importante,
mas não conseguimos superar problemas
estruturais gravíssimos.
EC – E por que não conseguimos
avançar?
BC – Porque precisamos avançar
no campo das políticas públicas.
Por exemplo, o direito ao acesso é
uma promessa que o modelo
liberal, no campo político-educacional,
alardeou. No entanto, se
nós temos acesso, nós temos
uma escola com enormes
problemas de
qualidade que
não consegue –
inclusive – reter uma
parcela expressiva
da população
em
função de
suas condições
sócio-econômicas. Essas crianças são
reprovadas, se evadem, acabam
sendo, de alguma maneira, excluídas
por uma outra ponta. Então
nós temos que pensar que se nós
avançamos em termos de oportunidade,
de expansão de vagas, e,
portanto, de direito ao acesso, temos
que resolver o problema de
qualidade da escola, do contrário
a cidadania prometida continuará sendo extremamente parcial.
EC – Neste sentido, como a senhora
vê a construção das políticas
públicas para a Educação?
BC – Falar em políticas públicas
no Brasil significa falar de um
processo de mais de cem anos. Se
temos no início da República o
ideário de modernização do Brasil,
no qual a Educação era a grande
promessa, e daí a expansão do
ensino público, por outro lado nós
temos, além dos problemas de qualidade,
o advento de outras políticas
que implicam a nacionalização
e a profissionalização do ensino. Por
exemplo, a Era Vargas foi um momento
importantíssimo de nacionalização
do ensino, de vincular a
escola ao projeto nacional.
Entretanto, foram adotadas medidas
muito duras neste
período se pensarmos
que as populações
de origem colonial
europeia
(alemães e italianos)
foram profundamente
reprimidas
com relação ao
uso da língua. Refiro-me à
dificuldade
da construção de políticas públicas
no campo educacional, tendo em
vista que elas são vinculadas a um
projeto de Estado. Com isso elas sofrem
as contingências dos diferentes
momentos históricos, dos diferentes
projetos de poder que vão se
colocando. Analisar políticas educacionais
tem muito a ver com a
ação do Estado, e de diferentes atores
do cenário social. Hoje, por
exemplo, vemos os empresários falando
em Educação.
EC – Chegamos aqui a dois
outros aspectos: a relação públicoprivado
e entrada do setor empresarial
na escola. Como avalia estas
questões?
BC – O público-privado foi
sempre uma relação polêmica desde
o início da constituição do campo
educacional, principalmente no
período republicano em que a Educação
vai ser expandida. Em primeiro
lugar, essa relação confrontava
interesses do Estado republicano
com a Igreja, principalmente
a católica. Isso levou a embates extremamente
importantes porque,
quando a constituição de 1891 separa
Estado e Igreja, o Estado deixa
de colaborar com a sustentação
material da Igreja. Então ela tem
que se recolocar e reocupar o seu
papel. Isso vai levar a embates na
constituinte de 1933, que foi a preliminar
da constituição de 1934. Os
católicos se organizam para defender
suas ideias, porque acham que
a Igreja que tem papel prioritário
no campo da educacional e o Estado
tem que ser um coadjuvante.
Esse embate vai gradativamente
sendo substituído por um outro
muito sério, que é o embate entre
o público (entendido aqui enquanto
estatal) e o interesse mercantil
que passa a assolar o campo educacional.
A partir de um determinado
momento histórico, temos um
avanço da mercantilização da Educação,
que passa a ser considerada
como um fator de desenvolvimento
econômico e a ser pensada
muito mais como uma mercadoria.
Principalmente dos anos 90, e de
maneira muito particular com as
políticas educacionais implementadas
pelo presidente Fernando
Henrique Cardoso, quando o ministro
de Educação, Paulo Renato
de Souza, promoveu uma
liberalização do campo educacional,
sobretudo no Ensino Superior.
Instituições educacionais tradicionais,
que sempre pautaram a sua
atuação pela qualidade acadêmica,
como a Unisinos e as PUCs,
passam a sofrer
uma concorrência
absolutamente
desleal
como de instituições
pequenas
que passam
a ser autorizadas,
que não
têm o mesmo
compromisso
com a qualidade
do ensino. Nesse
processo vemos
a crise de
grandes e importantes
instituições
que levam,
mesmo que no
campo privado,
um projeto humanista
de sociedade.
Elas são
confrontadas
com um projeto
de mercado,
cujo único objetivo é
o lucro. Essas novas instituições,
sabendo do valor que na sociedade
do conhecimento ganha
a Educação, passam a transformá-la
numa mercadoria. O que fica
em risco na realidade é um projeto
de humanização que, se por um
lado passa pela nossa defesa intransigente
da Educação pública,
também reconhece a importância
histórica.
EC – Neste quadro, a avaliação,
a mensuração dos resultados
vêm sendo temas pontuais nos diferentes
encaminhamentos no setor
educacional brasileiro.
BC – Essa é uma questão extremamente
complexa e polêmica.
A avaliação faz parte do processo
de ensino e de aprendizagem. É um
momento extremamente importante
em que podemos diagnosticar – se entendida como um processo – os
avanços
obtidos na aprendizagem
dos alunos, mas também seus
limites. A avaliação ganha importância
nesse processo de constituição
de políticas educacionais do
Brasil, lá nos anos 30, com educadores
republicanos extremamente
preocupados com a qualidade da
escola. Anísio Teixeira é símbolo
desta referência, mas temos outros
como Fernando de Azevedo, Manuel
Lourenço Filho, que, junto
com outros, constituem o que chamamos
movimento dos educadores
da Educação nova. Em 1932
eles lançam um manifesto, famoso
na história brasileira, que criou um
enorme rolo com a Igreja, porque
ali defendia tacitamente a Educação
pública e a laicização do ensino,
ou seja, a saída de ideologias
religiosas. Esse momento histórico é
um marco de constituição da
Educação liberal do projeto republicano
onde a questão da qualidade
da escola começa a ser discutida.
EC – Mas hoje, como isso se dá?
BC – Se dermos um salto para
a realidade contemporânea, veremos
que a avaliação passa a ser a
grande pedra de toque das políticas
educacionais atuais. E isso vem
muito influenciado pelos países desenvolvidos
que passaram a aplicar
provas. Não só isso, nós tivemos
também o papel importante de
organismos internacionais, como é o caso do Banco Mundial, que para
fornecer empréstimos aos países em
desenvolvimento estabelecem um
conjunto de condicinalidades políticas.
Isso ocorre muito nos anos
80 e 90, quando a avaliação é uma
exigência do Banco Mundial. A
partir daí, passamos a viver uma
sanha de índices. É quando se
constitui no Brasil o Sistema de
Avaliação da Educação Básica, o
famoso Saeb, seguido de medidas
como o Enem, que está tão em voga
e polêmico hoje, e o provão para
as universidades, que foi muito
questionado e remeteu à mobilização
contrária do movimento estudantil.
O provão, que vai ser substituído
pelo Sistema Nacional de
Avaliação da Educação Superior
(Sinaes), do governo Lula, estabelece
um ranqueamento das universidades.
Então nós temos uma aproximação
muito grande da Educação
com a lógica do mercado.
EC – Por que a senhora afirma
que hoje os empresários pensam na
Educação de todos as crianças e jovens
do Brasil e não apenas na Educação
de seus filhos?
BC – Por que na lógica empresarial
atual, a Educação passa
a ser considerada como uma variável
do desenvolvimento econômico, mostrando que há uma relação
entre anos
de escolarização e, por exemplo, os salários que
os profissionais recebem. A ideia de que a escola
deve desenvolver competências e habilidades
básicas para a formação do trabalhador é o que leva
os empresários a defenderem um determinado
tipo de avaliação, ou seja, aquela
que desenvolve competências, e aí nós estamos
aderindo a toda uma pedagogia das competências
muito desenvolvida na década de 90, e que
realmente instrumentaliza a Educação, pensando
no papel do futuro trabalhador quando ele é inserido no mercado de trabalho.
EC – Mas não é uma visão limitadora da
escola?
BC – No meu ponto de vista a escola tem
um papel fundamental sim em preparar os cidadãos
para que eles tenham condições de ocupar
o seu lugar social, tendo inclusive seu direito
ao trabalho. A grande questão é, se nós
pensamos apenas numa escolarização básica,
que dê as competências instrumentais para o
mundo do trabalho, e depois a formação do trabalhador
vai ser completada na empresa, eu fico
me perguntando se efetivamente essa Educação
está oportunizando a todos os brasileiros a
efetiva disputa democrática pelas melhores
oportunidades no mercado de trabalho? Eu pergunto,
aquelas crianças e jovens filhos das famílias
mais bem dotadas economicamente, elas
não terão uma formação que ultrapasse esse
perfil de formação de competências e habilidades
básicas? Eu penso que a escola tem que ir
para além de uma formação que instrumentalize
para o mercado de trabalho. E aqui me refiro a
formação do cidadão integral, capaz de exercer
as suas funções sociais, entendendo seus
direitos e deveres. Existem, entretanto, conceitos
de cidadania como
o defendido por certos
organismos internacionais
que fala da moderna
cidadania que é preparar
o cidadão para a
competitividade. Ora,
o mundo que eu sonho
não é o mundo em que
os cidadãos vão se preparar
para só competirem
entre si, porque aí a regra que vale é do
salve-se quem puder. A
escola tem um papel que
vai para além do seu caráter
de formação de
quadros para o mercado.
E aqui falo na escola
nos seus mais diferentes
níveis: da Educação
Infantil ao Ensino Superior, à
pós-graduação.
EC – O que significa neste momento a proposta
de elaboração do Sistema Nacional de Educação
brasileiro?
BC – A conferência (Conferência Nacional
de Educação) se coloca como um momento
histórico precioso, mas há muitos riscos. Por
exemplo, a proposta em paralelo da constituição
de um sistema nacional de avaliação pode
realmente, se não for bem pensado e construído
como um processo que contemple todo o andar
de alunos e professores na construção do
que chamamos de ensino-aprendizagem, se
constituir numa enorme camisa de forças,
amarrada em todas as suas instâncias. Temos
que pensar, por exemplo, em como introduzir
na avaliação a questão estrutural da escola:
quantos alunos têm por sala de aula? Quais
são as efetivas condições de recursos das escolas?
Quando eu penso na realidade do Rio
Grande do Sul em que aulas estão sendo ministradas
em contêineres? Fico me perguntando
se esse professor, quando tiver seus alunos
avaliados, essa condição estrutural será considerada?
A avaliação tem que ser um auxiliar
e não um exercício de premiação e punição
como em alguns estados, e infelizmente aqui
no Rio Grande do Sul é o que se sinaliza. Avaliação
não é para punir ou premiar, é para diagnosticar
e ajudar o sujeito na escola a melhorar
o seu próprio percurso.