Wilson Cesar Ribeiro Campos é
psicólogo pela USP,
especialista em saúde coletiva
pela Unifesp e pesquisador
do Diesat, que coordenou
toda a pesquisa com
os docentes no Rio Grande
do Sul. Nesta entrevista ao
Extra Classe, ele analisa e
esclarece alguns pontos do
trabalho e faz paralelos das
principais queixas levantadas
pelos professores, como
falta de tempo para a devida
preparação das tarefas
docentes, aumento do cansaço
devido à extensa jornada
e ao número de atividades
extraclasse, o grande
número de atividades
sem remuneração adicional
e exercidas fora do horário
da jornada e a excessiva
pressão sofrida no trabalho.
A pesquisa comprova que
este quadro vem se agravando
nos últimos anos, e o pesquisador
destaca a queda
significativa nas condições
de trabalho e saúde no ensino
privado
EC – Quais as principais características
identificadas em relação ao assédio
moral no ensino privado?
Wilson César Campos – O assédio
moral no trabalho pode ser definido
como qualquer conduta abusiva, como
gestos, palavras, comportamentos ou atitudes,
que atente, por sua repetição, contra
a dignidade ou a integridade física ou
psíquica de uma pessoa. A pesquisa apontou
que 33% dos professores sentem-se
assediados moralmente no trabalho por
alunos. As chefias imediatas e as chefias
superiores aparecem como fonte de assédio
moral no trabalho para 31% dos
professores. É importante ressaltar que
este é um alto índice se comparado com
outras pesquisas realizadas em outras atividades
profissionais. Uma particularidade
que gostaria de chamar a atenção é para
o grande número de professores que
indicam outros colegas professores
como fonte de assédio moral no trabalho.
Nesta situação encontram-se 23%
dos professores. Podemos chamar de assédio
moral horizontal, este exercido
entre os próprios colegas, e que parece
estar colocando em perigo a atividade
do professor que sempre teve por base o
espírito solidário e a tarefa de propiciar
o crescimento conjunto.
EC – Estariam os professores sucumbindo à cultura
da competitividade?
Campos – Esta conduta não-somente
não é coibida pelas chefias e empresas,
como em alguns casos, parece ser estimulada.
Ou seja, este tem sido um mecanismo
utilizado de forma indireta pelas
escolas para manter o professor atento,
buscando “trazer novos alunos”, “
vestir a camisa”, ficando sempre disponível,
etc. Alguns podem até considerar
que este tipo de ambiente colabora
para aumentar a “produtividade” docente,
mas somente levam a uma piora nas
condições de trabalho e saúde. Primeiro
temos que questionar esta lógica da produtividade
quando aplicada à Educação,
dentre outras razões, por somente estimular
a reprodução de uma lógica que
tem por base a exploração máxima e o
desrespeito aos limites físicos e mentais.
Há 30 anos, os sindicatos de trabalhadores
se reuniram para criar o Diesat afirmando
o lema que permanece atual: saúde
não se troca por dinheiro.
É
necessário advertir que a conduta do
assédio moral é a base para o sofrimento
físico e mental em larga escala, que
passa a atingir a todos levando a uma
deterioração ainda maior das relações
e
da organização do trabalho.
EC – É comum aparecer em outras
profissões um índice tão alto
(41%) de trabalhadores que têm
outra fonte de renda?
Campos – É importante relacionar este
alto índice com o grande número de professores
que exercem atividades docentes
sem remuneração adicional. A pesquisa
indica que 74% dos docentes exercem
mais de 4 horas por semana
nestas atividades, sendo que 44%
dos professores acabam por dedicar
mais de 8 horas semanais
em atividades sem remuneração
adicional. Outro fator relacionado
a este aspecto revelado
pela pesquisa é que 33% dos
professores entrevistados
alegaram ter enfrentado algum
tipo de dificuldade financeira
grave nos últimos
três meses.
Embora nos últimos
anos trabalhadores de
diversos setores econômicos
tenham conseguido
certa recuperação em sua renda,
no caso do professorado há que se salientar
uma imensa demanda por aprimorar
constantemente sua formação, muitas
vezes acadêmica, e sua bagagem cultural,
o que demanda um grande e constante
investimento. Além disso, é importante
salientar que este alto índice aponta
para outra fragilidade do trabalho
docente, a necessidade de complementar
sua remuneração exercendo
outras funções.
EC – Como você avalia o elevado
percentual de trabalho extraclasse?
Campos – As instituições de ensino
tem se utilizado, cada vez mais, da
tecnologia de comunicação como ferramenta
para ampliar o número de atividades
e manter o professor sempre
conectado. Estas ferramentas se por um
lado aparentam facilitar o trabalho docente,
por outro acabam por induzir e
exigir que o professor assuma atividades
adicionais. Algumas destas atividades
eram antes exercidas por outros profissionais,
outras são novas, que vêm ser
adicionadas à extensa lista de funções
do professor. Uma das características
deste modelo é poder ser realizado a
qualquer hora e em qualquer lugar, seja
na própria instituição de ensino, no horário
de intervalo, após o final das aulas,
ou mesmo à distância, diretamente da
casa do professor, à noite ou aos finais
de semana. Lembro-me de algumas frases
que traduzem bem esta realidade: “o
professor é 24 horas por dia professor”, “o
professor tem que estar sempre à disposição
da instituição, dos alunos, dos
pais, da chefia, a todo
o momento, em
qualquer hora”,
ou “chego
em casa e
mal falo
com meus
filhos, vou
direto para
o computador,
responder
email, inserir
notas,
fazer relatório”. Os impactos deste excesso
de atividades para a saúde física e mental
são evidentes e eles se manifestam
nas relações familiares e sociais, na ausência
de tempo para lazer, para estudo,
para descanso. A pesquisa indica que
70% dos professores frequentemente
exercem tarefas docentes fora de seu
horário de trabalho, sendo que quase 30%
acabam por também exercer tarefas que
estão além de sua função.
EC – Como pode ser explicada a
grande incidência de problemas
alérgicos?
Campos – O esgotamento físico e
mental é um dos fatores que contribui
para uma queda da capacidade
imunológica, que está relacionada com
a capacidade do organismo de enfrentar
agentes alérgicos. Existem vários sintomas
que indicam o surgimento de alergias
como os resfriados constantes, espirros,
dores de cabeça, coceiras e coriza,
dentre outros. Os fatores ambientais tradicionais
como poluição e poeira são
potencializados, no caso dos professores,
por um agudo quadro de cansaço
físico e mental que contribui para o
surgimento de quadros alérgicos.
EC – Qual a relação existente entre
os 78% de professores que
apontaram cansaço e esgotamento
frequentes nos últimos seis
meses com a atividade docente?
Campos – Este cansaço e esgotamento
físico e mental estão diretamente relacionados
ao trabalho destes profissionais,
sobretudo se recordarmos as queixas
de excesso de trabalho, de tarefas e
atividades extraclasse, a pressão e o assédio
moral no trabalho. Além disso, em
vários momentos durante as entrevistas
os professores deixaram claro alguns
períodos ao longo do ano letivo onde
este cansaço e esgotamento são intensificados,
como ao final do ano letivo, período
de avaliações e fechamento de notas.
Cerca de 45% dos professores entrevistados
apresentaram algum problema
de saúde física ou mental relacionado
ao seu trabalho, sendo que 39% precisou
se ausentar do trabalho por ao
menos um dia em razão destas doenças.
EC – Como é avaliado o índice de
utilização de medicamentos (20%)?
Campos – Com extrema preocupação.
Sobretudo porque a medicalização
parece estar sendo utilizada para manter
o professor em atividade, ou seja, o
professor que está adoecendo e sofrendo
por conta de seu trabalho passa a
utilizar estimulantes e antidepressivos
para poder manter-se trabalhando, ao
passo que utilizam calmantes ou outros
tipos de medicamentos para poder descansar
e dormir. É importante notar que
em outras atividades profissionais este
mesmo expediente perigoso é utilizado,
talvez o mais conhecido seja o “rebite”.
Levantamos que os professores têm
recorrido a medicamentos estimulantes,
calmantes ou tranquilizantes,
antidepressivos, para memória e para
auxiliar no sono. Em alguns dos casos,
recorrendo à automedicação, o que
constitui um risco ainda maior.
EC – A sensação de não dar conta
de tudo que se tem para fazer
no dia pode estar diretamente ligado
aos distúrbios do sono?
Campos – O acúmulo crescente de
tarefas e atividades que são colocadas
sob responsabilidade do professor leva
a um aumento significativo da sensação
de não ser capaz de dar conta de
tudo o que se tem para fazer no dia
de trabalho, o que é relatado como frequente
por 42% dos entrevistados. Os
problemas e dificuldades relacionados
ao sono atingiram 59% dos entrevistados
nos últimos seis meses, sendo
que esta frequência tem sido maior em
razão de preocupações em 36% dos
professores entrevistados. Estes problemas
mantêm relação direta com a
quantidade excessiva de atividades e
tarefas e a sensação de impotência
para dar conta destas. Nas entrevistas,
os professores relataram a preocupação
crescente e angustiante com
esse volume de tarefas. É importante
também adicionarmos a capacidade
de manter concentração naquilo que
faz. Quase a metade dos professores
tem sentido dificuldades de concentração
em tarefas mais do que usualmente.
EC – Em que momentos pode
ser identificada a Síndrome de
Burnout nesta pesquisa?
Campos – Dois aspectos principais
devem ser observados quando falamos
de Síndrome de Burnout. Em
primeiro lugar, ela tenta descrever o
processo de esgotamento psíquico no
trabalho que fica evidente quando
47% dos professores afirmam se sentir
constantemente esgotados e sob
pressão mais do que o habitual, sendo
que este número sobe para 78%
quando considerados os últimos seis
meses. Em segundo lugar, o processo
de aumento significativo de irritação
e impaciência que 41% dos professores
alegam sentir frequentemente. É justamente
esse o quadro descrito pelo
que chamamos Síndrome de Burnout,
ou seja, um sentimento de exaustão,
de perda de enorme energia e de impotência
para ação. É um processo
lento que vai sendo desenvolvido vagarosamente,
sobretudo através de
uma situação de trabalho que o trabalhador
não suporta mais, mas que também
da qual não pode desistir.
EC – E os 17% que admitem sofrer
violência na escola?
Campos – Muito preocupante, pois
professores vivenciando ou presenciando
violência na escola é um fator
que vem se somar em um processo
de desgaste físico e mental, de ruptura
de relações no trabalho e de um
mal-estar do trabalho docente que formam
um conjunto complexo. Em um
contexto de trabalho que agrava a saúde
dos professores, situações de violência
tendem a dificultar ainda mais
este quadro. Este é um debate que
deve ser aprofundado, seria a violência
vivenciada na escola totalmente
desconectada do contexto de sofrimento
no trabalho dos professores? Considero que esta e outras questões
devam ser respondidas coletivamente.
EC – O professor do ensino privado
costuma trabalhar com dor?
Campos – Trabalhar sentindo algum
tipo de dor parece ser uma constante
na atividade docente. No caso dos
professores do ensino privado gaúcho,
encontramos que a grande maioria
dos docentes que foram entrevistados
alega que já trabalharam sentindo
algum tipo de dor. Os docentes
dizem que as regiões mais afetadas
pelas dores são costas, cabeça,
pernas e pés, ombros e braços. Outro
fator que chama a atenção é que 44%
dos entrevistados possuem diagnóstico
de algum tipo de doença relacionada
aos músculos, ossos ou articulações
onde se destacam as tendinites,
bursites e artrites.