
á um
imenso grupo de professores que
fica doente ou manifesta sintomas por
conta das pressões que sofre ao exercer
sua profissão. Às vezes, é uma carga excessiva
de trabalho. Noutras, uma conduta
repetitiva e abusiva, na forma de gestos, palavras,
comportamentos e atitudes de alunos,
pais ou chefes que atentam contra a dignidade
ou integridade física e psíquica do docente.
Seja como for, estas pressões causam um
tremendo prejuízo à saúde.
Professores que vivem estes problemas
nem sempre se sentem encorajados a reclamar
ou denunciar, porque o temor de perder
o emprego é maior que a dor ou o sofrimento.
Geralmente, vão levando, até que um
evento radical os confronte com a necessidade
de buscar ajuda.
“O que indica que há algo errado é justamente
o sofrimento: angústias, depressão,
insônia, dor de estômago ou cabeça, problemas
alérgicos, a sensação de não estar
dando
conta do trabalho e um sentimento de
tristeza profunda”, exemplifica a psicóloga
e psicanalista Mery Pomerancblum Wolff.
É comum a queixa de docentes que se
sentem incapazes de lidar com algumas situações
em sala de aula. “As crianças estão
botando em cheque a autoridade dos pais e
professores, e os dois nem sempre têm segurança
de que podem assumir um papel
de autoridade sem serem autoritários”, observa
Mery.
| Foto:
René Cabrales |
 |
Existe um aumento da expectativa da
sociedade em relação à escola, onde os alunos
e professores são os atores e tudo converge
para a sala de aula, acrescenta a psicóloga
e coordenadora educacional Denise
da Silva Maia. As diferentes histórias e dramas
vividos pelos jovens são projetados na
figura que fica à frente da classe. É para o
docente que converge também a repercussão
do caos do mundo de fora dos muros
do colégio e o papel de dar limites que antes
era exercido igualmente pela família.
Sem o apoio dos pais, da direção e da
sociedade, a tendência é os professores
apresentarem crises de ansiedade, cansaço
e nervosismo. A pouca valorização econômica é
outro motivo constante de estresse.
Muitos apelam para remédios, o que nem
sempre é suficiente para solucionar os conflitos.
Mery adverte: se não tratar adequadamente,
o problema pode se intensificar,
levar a enfermidades graves e incapacitar
cada vez mais.
Usaram
medicamento antidepressivo
20% dos entrevistados. No mesmo período,
41% dos docentes relataram
sentirem-se sempre irritados, de
mau humor ou impacientes. |
A mudança radical no plano pedagógico da escola privada
em que D.
trabalhava até 2008 foi o estopim de um período de
dor e angústia em sua
vida. Até então, aos 37 anos, nada indicava que houvesse
algo errado com
sua saúde. Mas no início do ano passado, assim que
voltou de férias, recebeu
as novas apostilas que deveriam ser a referência em sala
de aula a partir de
então. Para se adaptar ao esquema recém implantado,
ela passou a trabalhar
manhã, de tarde e à noite. Saía do colégio
por volta das 18h, e mal chegava
em casa se punha a preparar a classe seguinte, lendo, fazendo exercícios,
corrigindo até altas horas da madrugada.
O corpo de D. reclamou na forma de mudanças radicais no
seu ciclo menstrual
e com fortes dores musculares. Com o esgotamento físico
veio também
a depressão e a dificuldade de levantar da cama, o emagrecimento
exagerado,
as crises de choro e a fraqueza. Sessões de terapia e medicamentos
trouxeram
D. de volta à vida. Reestabelecida da crise de estresse,
hoje ela não entende
como conseguia suportar o ritmo alucinado de aulas em duas escolas
que a
tirou da ativa por dois meses. “Sou exigente, me cobrava
demais”, acredita.
Naquela época, não fazia mais nada
da vida, a não ser trabalhar. Nos finais
de semana estava tão esgotada que passava
todo o tempo na cama.
| Foto:
René Cabrales |
 |
Mery
Pomeraneblum Wolff |
Quando D. teve alta da terapia,
voltou para o trabalho, mas teve de
deixar a escola privada onde lecionava.
Continua com as aulas na rede pública.
Ao longo do período de tratamento,
ela se deu conta de que precisava
mudar também sua relação com
os alunos, especialmente nas escolas
particulares, em que a exigência parece maior. Percebeu que
não está a seu alcance
atender a uma mãe que cobra, numa reunião de professores: “Como é que
vocês
não conseguiram domar meu filho?” – como já ouviu
em outros tempos.
Ela adverte: a escola particular cobra dos docentes na medida em
que é cobrada do pai do aluno. “Mas o
problema é que é um
tipo de cobrança que
não é da nossa alçada”, reflete. Muitos
estudantes vão para a aula de manhã e nem para casa voltam, não tem quem dê almoço,
quem os auxilie. “Ficam
com a gente 4horas, e no resto do dia fazem o quê? Vão
ao shopping,
ficam na rua, na praça”, observa.
É significativo
o número de docentes que se sente pressionado
no trabalho, sempre
ou frequentemente, por chefes superiores (35%), por chefes
imediatos (32%),
por alunos (27%), por outros colegas professores (14%) e
pais de alunos (14%). |