
ouquidão
e perda de voz são as queixas
principais dos professores. Uma
série de fatores influi para fiquem
sem seu principal instrumento de trabalho:
carga de trabalho excessiva, estresse
e número de alunos por sala de aula são
alguns deles. O importante, diz a
fonoaudióloga Rosane Mosmann
Pimentel, é saber que qualquer modificação
da voz é um sintoma de que existe
algo errado e precisa ser investigado.
Os sinais iniciais costumam ser desconforto,
pigarros, cansaço que aumenta
no decorrer do dia, voz que falha, tensão
no pescoço e na região das costas.
Ficar rouco nem sempre parece grave,
até porque, como geralmente o professor
diminui o esforço no final de semana,
a situação melhora um ou dois dias,
ou até que retome suas atividades e comece
ficar sem voz de novo. Com o tempo,
no entanto, a tendência é que a rouquidão
vá se prolongando e fique crônica. Antes que isso
aconteça é preciso buscar
ajuda e tratamento. O abuso vocal
pode levar ao surgimento de nódulos,
pólipos ou fendas vocais. A rouquidão
pode ser sintoma de patologias benignas,
mas também pode ser decorrente de
doenças mais graves, inclusive o câncer
de laringe.
| Foto:
René Cabrales |
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Rosane
Mosmann Pimentel
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Os professores que falam gritando, fumam,
têm problemas respiratórios, refluxo
gastroesofágico ou hábitos de vida
inadequados estão sujeitos a terem mais
distúrbios da voz. Prevenir estes problemas é
mais fácil do que se pensa. Mas
antes é preciso que cada um conheça a
sua resistência individual, ou seja, as características
da laringe e das caixas de
ressonância internas, e saiba se tem problemas
como rinite alérgica ou refluxo.
Ao mesmo tempo, deve avaliar a forma
como utiliza a voz – se tem uma boa
projeção, se respira adequadamente, se
compete sonoramente com os alunos ou
com ruídos de ventilador, do ar-condicionado,
de carros na rua ou do pátio
interno nos horários de recreio.
Identificados estes fatores, é a hora
de agir. A hidratação com água, preferencialmente
sem gás e na temperatura
ambiente, é essencial, assim como
fazer períodos de repouso da voz e manter
uma alimentação adequada.
O ideal é que houvesse oficinas práticas
para o desenvolvimento de apoio
respiratório e outras técnicas, diz
Rosane. “Viamão está na fase de regulamentação
de um projeto de lei que
obriga a criação de um programa de
prevenção nas escolas”, enfatiza. O Instituto
Porto Alegre (IPA) oferece oficinas
de aprimoramento vocal
direcionadas aos acadêmicos das licenciaturas.
Mas são ações isoladas. “Não
existem políticas públicas voltadas à saúde
vocal do professor. Parece que
temos ainda um longo caminho para
caracterizar o distúrbio da voz como
doença ocupacional”, afirma a
fonoaudióloga.
“Os professores do ensino público
têm direito à biometria e à licença
quando
apresentam problemas de voz, mas
os do ensino privado mascaram os sintomas
e aguentam firme porque não
podem deixar de trabalhar”.
| Arte: Clau Sieber |
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O
principal problema de saúde apontado
pelos professores é a rouquidão e a
perda da voz (49%). |
Depois de 22 anos exercendo o Magistério em uma escola
pública e 16 anos em duas escolas privadas, Maria Beatriz
Leal de Moraes, 60 anos, pode se considerar uma recém-aposentada
feliz. Mas houve tempos difíceis. “Ficava rouca e
perdia a voz completamente – foram mais de 15 vezes”,
conta. O pior período foi quando trabalhou nos três
colégios
ao mesmo tempo.
Para controlar as turmas com 45 alunos, ela gritava bastante.
Na escola particular, tinha ainda de competir com o
ruído do ar-condicionado. A ida e vinda para ambientes de
temperaturas diferentes piorava ainda mais a situação.
Só de
vez em quando saía para tomar água no bebedor. “Nem
todas
as escolas gostam que o professor leve uma garrafa de á
gua para dentro da sala de aula”, explica. Na primeira crise
forte, foram receitados antibióticos. Até que um
médico recomendou:
bala e pastilha não adiantam. O jeito é hidratar,
comer frutas como maçã, reaprender a respirar.
Começou a proteger o pescoço e a fechar a boca ao
enfrentar
trocas de temperatura, tomava bastante líquido, evitava
usar giz. Conseguiu driblar a falha da voz, mas passou a ter
dores fortes no braço por uma tendinite. O esforço
repetitivo
de escrever no quadro e corrigir provas tornou a dor crônica.
Foi quando resolveu que era hora de aceitar a aposentadoria.
Agora, faz Pilates, ioga, caminhadas, alongamentos, exercícios
de respiração e postura. Há dez anos ela e
outros professores
mantêm um grupo de dança de salão. Está tranquila,
como
há anos não se sentia. Mas a experiência de
ficar sem voz foi
tão ruim, que ainda hoje todos os dias ela faz exercícios
na
frente do espelho articulando vogais e abrindo bem a boca e
mantém-se sempre hidratada.