Portas
abertas para as epidemias
Corridas a postos de saúde,
incertezas sobre programação
de viagens, receio da chegada
do inverno, dúvidas sobre
como proceder em caso de
sintomas que, até a dois meses,
eram tratados com analgésicos
e umas boas horas de
sono. A população do RS, até mesmo aquela dos chamados “
grotões”, porque vive
perto a matas, está tomada
de um certo sentimento de
insegurança.
Por Flavia Bemfica

oenças
consideradas vencidas pelas políticas
de saúde pública, como a febre amarela,
e outras, que haviam se tornado bem
pouco letais, como as gripes, voltaram a assustar.
Até a dengue, cuja propagação em áreas
de clima frio é mais difícil, passou a ser temida
pelos gaúchos. “Entre médicos, já era
aguardado
um surto de dengue no estado para o verão
que passou. Do próximo, dificilmente escapamos.
O avanço da febre amarela fica evidente
para qualquer um que observe o mapa da doença
no RS, mas deve ser refreado pelo frio.
Agora, devido à Influenza A (H1N1), os profissionais
que trabalham nas emergências avaliam
se devem ou não atender a todos de máscaras”,
revela um médico vinculado à Secretaria Municipal
de Saúde de Porto Alegre (SMS).
GRIPE – O susto inicial causado pela rápida
disseminação da chamada gripe suína – a
Influenza A (H1N1) – só fez aumentar as incertezas
das pessoas a respeito da eficácia das
políticas públicas de prevenção a doenças
infecciosas
e infecto-contagiosas e as possibilidades
de tratamento. As notícias sobre a gripe
surgiram “do nada”, no final de abril, com casos
registrados no México que se alastraram
rapidamente por vários países. As garantias informadas
pelo Ministério da Saúde sucessivamente
precisaram ser revistas. Primeiro, o ministério
informou que havia tomado todas as providências
para que a gripe não chegasse ao Brasil.
Quando ela chegou – apesar das providências –
, o discurso mudou. O ministério passou a
afirmar que não havia registro de transmissão
entre pessoas dentro do país. Em questão de
horas, este tipo de transmissão se tornou uma
realidade.
ESTADO – No RS a situação não foi diferente.
Com a divulgação do Plano Estadual para
Enfrentamento da Pandemia da Influenza, nove
hospitais no estado passaram a ser indicados
como referência para o tratamento da doença,
dois deles em Porto Alegre: o Conceição e o
Clínicas. Este último, contudo, não tinha
estrutura
adequada para receber casos suspeitos,
e acabava enviando-os para o Conceição. A
Secretaria Estadual da Saúde (SES) alterou a
lista de hospitais de referência que mantém em
seu site (
www.saude.rs.gov.br), mas não houve
grande divulgação. No Conceição, até o
final de
maio, a média diária de pacientes com suspeita
da Influenza A (H1N1) oscilava entre dois e três.
Autoridades
argumentam que situação é estável
Um dos principais argumentos das autoridades e responsáveis
por
serviços de saúde sobre a eficácia das medidas
de prevenção adotadas
para o combate das doenças infecciosas e infecto-contagiosas é que,
desde o final de maio, mantiveram-se estáveis os casos de
Influenza A
(H1N1) registrados. No RS, até então, havia apenas
um caso confirmado,
da paciente de Santo Ângelo que contraiu a doença
na Europa.
Questionadas sobre como a paciente ingressou no estado e passou
pelas
barreiras sanitárias, já que inicialmente foi divulgado
que ela apresentara
os primeiros sintomas ainda na Itália, as autoridades são
taxativas. “Ela teve na Itália um momento de mal-estar e se declarou
assintomática
quando entrou no Brasil. Na viagem entre Porto Alegre e sua cidade,
apresentou uma febrícula e contatou seu médico que,
por descargo de
consciência, efetuou a comunicação”,
assegura o diretor do Centro
Estadual de Vigilância em Saúde (Cevs), Francisco
Paz. “Ela chegou
sadia em São Paulo, veio para o apartamento do filho em
Porto Alegre e
só então é que começou a sentir-se
mal”, argumenta a responsável pelo
posto da Agência Nacional de Vigilância Sanitária
(Anvisa) no Aeroporto
Internacional Salgado Filho, Vera Moeller.
A paciente apresentou os primeiros sintomas antes de desembarcar
no Brasil, mas esse dado importante se perdeu, assim como vários
outros,
na enxurrada de informações diárias a respeito
da doença. É um
detalhe importante para estabelecer as diferenças que existem
entre os
pontos anunciados nos planos de combate às doenças
e o cotidiano das
ações de prevenção e fiscalização.
No Salgado Filho, por exemplo, chegam,
por dia, oito voos internacionais, todos provenientes da Argentina
e do Uruguai. Juntos, trazem cerca de 5,3 mil viajantes em um mês.
Segundo Vera, mesmo depois da estabilização no número
de novos casos,
em média um destes voos traz passageiros com sintomas suspeitos.
VIGILÂNCIA – No aeroporto a vigilância se intensificou
após a
divulgação do caso da paciente de Santo Ângelo.
Todos os passageiros
dos voos internacionais diretos estão desembarcando em uma área
restrita
e sendo submetidos a uma entrevista breve, na qual são feitas
perguntas
que visam identificar origem e destino do passageiro, onde esteve
nos últimos dez dias e se apresenta algum sintoma. Os passageiros
também preenchem uma declaração de saúde
do viajante, com nome,
endereço e contatos. Só depois se dirigem para a
porta do desembarque
internacional. Vera lembra que, entre eles, há pessoas cujos
pontos de
partida estão em diferentes partes do mundo. Vários
vêm da Austrália e
passam pela Argentina. O mesmo fazem muitos que saem dos Estados
Unidos e optam pela rota com escalas em Santiago do Chile e em
Buenos
Aires, devido ao menor preço da passagem.
Quando no voo há algum caso suspeito, o comandante alerta
a torre
de controle, que comunica a Anvisa e o posto médico do aeroporto.
A
pessoa é examinada e, então, definido se deve ser
encaminhada para
um hospital de referência ou se pode ser monitorada em casa.
Vera admite
que há casos de pessoas que não revelam os sintomas. “Por
vezes
observamos a existência de sintomas, mas algumas pessoas
têm receio de
ser encaminhadas para a rede pública. Preferem contatar
seu próprio
médico ou plano de saúde primeiro. Não podemos
examinar os viajantes
sem a sua autorização”, destaca.
Voos
domésticos não têm
controle
O extremo cuidado registrado
no desembarque internacional não
se repete no de voos domésticos.
Nestes, os passageiros chegam e
transitam livremente sem interferência
de fiscais sanitários. Viajantes
que estejam retornando do
México, por exemplo, passam primeiro
por São Paulo e desembarcam
em Porto Alegre em um voo
doméstico. “Só em Guarulhos
chegam, todos os dias, 80 voos internacionais.
Mas o pessoal lá está fazendo um bom trabalho”,
defende Vera.
Em Porto Alegre, a avaliação,
no caso dos domésticos, fica mesmo
por conta dos passageiros. As
autoridades sanitárias acreditam
que eles vão voltar sua atenção
para um dos dois banners com informações
sobre a gripe suína instalados
próximos à área de desembarque,
ouvir os avisos sonoros em
três idiomas que a cada 15 minutos
são veiculados no sistema de
som ou então recolher um dos
fôlderes informativos sobre a doença
que ficam espalhados sobre um
dos dois pequenos guichês da
Anvisa.
Mas os viajantes passam apressados. “No desembarque
nacional
o pessoal distribui fôlderes e fica à disposição
para informações”,
assegura
a responsável pelo posto da
Anvisa. Na manhã de 19 de maio,
enquanto a responsável concedia
entrevista, os dois guichês da
Anvisa estavam sem funcionários.
Em um deles, duas servidoras
empilhavam uma outra publicação,
um guia de museus. No desembarque,
o mesmo guia, e não o folheto
sobre a gripe, era distribuído aos
que chegavam.
POLÍTICAS
Falta
transparência nos planos de prevenção
Para saber quais as formas de
prevenção de doenças infecciosas
e infecto-contagiosas que podem
se transformar em epidemias, ou
até mesmo pandemias, e como países,
estados ou cidades estão
equipados para enfrentá-las, dois
dados são fundamentais: identificar
quais as estratégias de prevenção
e quanto é investido nas mesmas.
Deveria ser uma informação
de fácil acesso. Mas não está disponível
nos planos de manejo das
doenças que vêm assustando a população,
como a gripe suína ou a
febre amarela.
DEFASADOS – Conforme as
informações do Conselho Estadual
de Saúde, os dados que o CES
dispõe sobre quanto o estado e os
municípios gaúchos investem em
ações de prevenção a estes tipos
de doenças estão defasados. O levantamento
estaria a cargo da Assessoria
de Planejamento da Secretaria
Estadual da Saúde (SES).
Na secretaria, a informação é de
que precisa ser feito um levantamento
dos números, que demora.
Na Comissão de Saúde e Meio
Ambiente da Assembleia Legislativa
também não há informação
sobre os valores. “Não tratamos
disso”, esquiva-se uma das
assessoras da comissão.
Sem aguardar por dados relativos
a valores, os profissionais vinculados à
área da saúde apostam
na experiência. “Mesmo que o índice
de mortalidade seja bem inferior
ao inicialmente previsto, se
houver disseminação interna da
Influenza A (H1N1), e há indicativos de que
isso vai ocorrer, e nós lotarmos, o momento de
contenção da doença acaba e todos
os hospitais passam a ser aptos
a atender pacientes com o vírus”,
avisa o responsável pelo Controle
de Infecções do Hospital
Conceição, na Capital, Renato
Cassol. “O risco de vírus mutantes
que podem infectar diferentes espécies
antes era mais do conhecimento
da comunidade científica.
Isso não tem política que resolva.
Mas temos outros recursos, como
as drogas antivirais e as vacinas”,
completa a infectologista e pediatra
Soraya Collares, do Complexo
Hospitalar Santa Casa em Porto
Alegre.
| Paz
recomenda "calma" contra a febre |
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Para o diretor do Centro Estadual
de Vigilância em Saúde
(Cevs), Francisco Paz, a preocupação
em relação às doenças
infecciosas e infecto-contagiosas faz parte de “uma
certa cultura
do medo”. O diretor, que afirmou haver histeria
da população
quando Porto Alegre passou a ser considerada área
de
risco para febre amarela e as pessoas procuraram
imediatamente
os postos de saúde para se vacinar – sem
muitas vezes encontrar
vacinas – , diz que o melhor é manter
a calma. “A
globalização mostra como estamos vulneráveis
a situações que
antes não nos chegavam e, talvez por isso,
as pessoas fiquem
mais apreensivas”, acredita. Mesmo que o Cevs
recomende
paciência e que agora a gripe tenha tomado
o foco das atenções,
em substituição à febre amarela,
para aqueles que possuem
alguma dúvida e não se enquadram nos
casos
contraindicados, a infectologista da Santa Casa é categórica. “Quem
mora em Porto Alegre, por exemplo, deve se vacinar.
A
febre amarela já matou sete pessoas no RS”.
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