Ano 8 - nº 71
Maio 2003



Luis Fernando Verissimo:
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de...



Nei Lisboa:
A guerra no Iraque vai perdendo força no noticiário, embora a suspeita de que o pior esteja por vir com a resistência à ocupação americana e...



Elisa Lucinda:

A noite paira quieta e bela sobre a lagoa
o mar fica atrás da paisagem
como se fosse uma escolha
do mar azul, azul, azul.
Parece que o mar sabe





Provocando o olhar

Bruxas, fadas, gnomos, bichos com cara de gente, gente com cara de bicho, vassouras que dançam, árvores que dão conselhos, heróis e vilões fazem parte do repertório infantil há séculos. Frutos de descrições detalhadas de escritores primorosos, esses personagens, entretanto, perpetuaram-se por fazerem parte da memória visual das crianças, trazidos à vida por pincéis e tintas de artistas não menos detalhistas nem menos primorosos que os escritores: os ilustradores. No mundo atual, contudo, ilustrar a literatura infantil e encher os olhos dos pequenos leitores com desenhos coloridos não têm sido uma tarefa fácil. Os artistas que se dedicam a esse ofício têm como adversária a parafernália eletrônica representada por computadores, televisão e videogames. Trabalham para crianças muito mais difíceis de serem surpreendidas e que estão expostas diariamente a uma quantidade sem limite de estímulos visuais. O desafio de hoje para quem atua nessa área é, portanto, buscar nas entrelinhas do texto aquilo que não se enxerga. É uma espécie de convite para deixar a realidade e embarcar na canoa da imaginação. E é justamente a imaginação que se torna a visão das crianças portadoras de deficiência visual que sentem as ilustrações em relevo (para textos em braile) pela ponta dos dedos, fazendo do tato, olhar.

Nereida Grabauska

Das palavras à imaginação

esse sentido, um par de botas pretas, num chão repleto de embalagens de presente, são uma representação mais que suficiente de que nessa cena há uma personagem que qualquer criança está careca de conhecer: o bom e velho Papai Noel. É a pista deixada por Laura Castilhos, ilustradora há oito anos e professora de Artes Plásticas na Ulbra e na Unisinos, que já teve sete livros publicados, em seu trabalho mais recente: O Natal de Natanael (Ed.Projeto), livro/cd do Grupo Cuidado que Mancha. “O ilustrador precisa resgatar em suas experiências elementos que o remetam para o mundo infantil, mas sem desprezar a inteligência da criança nem sua capacidade de fantasiar sobre as situações propostas pela história. A forma de enxergar cada situação, cada personagem, é subjetiva. A leitura do texto visual é diferente para cada criança,” ressalta a artista, premiada em 2001 pelo trabalho no livro A Mulher Gigante, também do Cuidado que Mancha. A filosofia de trabalho de Laura, porém, é baseada no conhecimento do texto que vai ilustrar e na interação com o autor e com as idéias que ele quer concretizar.

A artista plástica Cristina Biazetto, que estreou como ilustradora de livros infantis em 1999, com Três Contos de Muito Ouro, de Fernanda Lopes de Almeida, também aposta nesta interação com o escritor e na necessidade de o ilustrador escapar da obviedade. Para ela, o papel da ilustração é o de um despertador da curiosidade e de um provocador da imaginação, o que torna esse trabalho muito mais abrangente no espectro da arte. “É muito gratificante saber que o trabalho que será impresso em dois mil livros vai chegar às mãos de pelo menos duas mil crianças e vai interferir na vida delas e na forma como elas vão encarar o mundo. É uma obra muito diferente de uma tela, por exemplo, cujo universo se resume à parede onde fica dependurada”, avalia a criadora da personagem Tecelina em livro homônimo, – uma menina que tecia a vida ao contrário –, e dos marcianinhos solitários de Num Marte Pequeninho (Ed. DCL), ambos em parceria com a escritora Gláucia de Souza.

Mas por que não dar à ilustração um papel menos figurativo e mais subversivo, no sentido das possibilidades de interpretação que uma cena de livro possa ter? Foi se fazendo esta pergunta que o ilustrador Marco Cena, há mais de 20 anos no mercado da literatura infantil, concebeu trabalhos como os da série 1001 Lendas (Ed.Mercado Aberto) e que lhe renderam o Prêmio Henrique Bertaso de Melhor Ilustrador de 1994 por Cadê a Coruja?, de Sissa Jacoby. Nessa coleção de contos populares narrados com o mínimo de texto, Cena empresta aos personagens toques de ingenuidade, esperteza e desprezo que não estão nem sugeridos na escrita. “Acho que a ilustração não deve trair o texto, mas tem vida própria, não é só um acessório”, opina.

O trabalho de Marco no livro Tibi e Joca, de Cláudia Bisol, é uma constatação de que essa vida própria do desenho é possível. O livro, sobre a trajetória de um menino surdo e sua situação de isolamento, toca o coração de qualquer um em páginas e páginas de ilustrações em que transparecem solidão, culpa, sofrimento e redenção. Tudo quase sem palavras.


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