Bruxas,
fadas, gnomos, bichos com cara de gente, gente com cara de bicho,
vassouras que dançam, árvores que dão conselhos,
heróis e vilões fazem parte do repertório infantil
há séculos. Frutos de descrições detalhadas
de escritores primorosos, esses personagens, entretanto, perpetuaram-se
por fazerem parte da memória visual das crianças,
trazidos à vida por pincéis e tintas de artistas não
menos detalhistas nem menos primorosos que os escritores: os ilustradores.
No mundo atual, contudo, ilustrar a literatura infantil e encher
os olhos dos pequenos leitores com desenhos coloridos não
têm sido uma tarefa fácil. Os artistas que se dedicam
a esse ofício têm como adversária a parafernália
eletrônica representada por computadores, televisão
e videogames. Trabalham para crianças muito mais difíceis
de serem surpreendidas e que estão expostas diariamente a
uma quantidade sem limite de estímulos visuais. O desafio
de hoje para quem atua nessa área é, portanto, buscar
nas entrelinhas do texto aquilo que não se enxerga. É
uma espécie de convite para deixar a realidade e embarcar
na canoa da imaginação. E é justamente a imaginação
que se torna a visão das crianças portadoras de deficiência
visual que sentem as ilustrações em relevo (para textos
em braile) pela ponta dos dedos, fazendo do tato, olhar.
Nereida Grabauska
Das palavras à imaginação
esse
sentido, um par de botas pretas, num chão repleto de embalagens
de presente, são uma representação mais que
suficiente de que nessa cena há uma personagem que qualquer
criança está careca de conhecer: o bom e velho Papai
Noel. É a pista deixada por Laura Castilhos, ilustradora
há oito anos e professora de Artes Plásticas na Ulbra
e na Unisinos, que já teve sete livros publicados, em seu
trabalho mais recente: O Natal de Natanael (Ed.Projeto), livro/cd
do Grupo Cuidado que Mancha. O ilustrador precisa resgatar
em suas experiências elementos que o remetam para o mundo
infantil, mas sem desprezar a inteligência da criança
nem sua capacidade de fantasiar sobre as situações
propostas pela história. A forma de enxergar cada situação,
cada personagem, é subjetiva. A leitura do texto visual é
diferente para cada criança, ressalta a artista, premiada
em 2001 pelo trabalho no livro A Mulher Gigante, também do
Cuidado que Mancha. A filosofia de trabalho de Laura, porém,
é baseada no conhecimento do texto que vai ilustrar e na
interação com o autor e com as idéias que ele
quer concretizar.
A artista plástica Cristina Biazetto, que estreou como ilustradora
de livros infantis em 1999, com Três Contos de Muito Ouro,
de Fernanda Lopes de Almeida, também aposta nesta interação
com o escritor e na necessidade de o ilustrador escapar da obviedade.
Para ela, o papel da ilustração é o de um despertador
da curiosidade e de um provocador da imaginação, o
que torna esse trabalho muito mais abrangente no espectro da arte.
É muito gratificante saber que o trabalho que será
impresso em dois mil livros vai chegar às mãos de
pelo menos duas mil crianças e vai interferir na vida delas
e na forma como elas vão encarar o mundo. É uma obra
muito diferente de uma tela, por exemplo, cujo universo se resume
à parede onde fica dependurada, avalia a criadora da
personagem Tecelina em livro homônimo, uma menina que
tecia a vida ao contrário , e dos marcianinhos solitários
de Num Marte Pequeninho (Ed. DCL), ambos em parceria com a escritora
Gláucia de Souza.
Mas por que não dar à ilustração um
papel menos figurativo e mais subversivo, no sentido das possibilidades
de interpretação que uma cena de livro possa ter?
Foi se fazendo esta pergunta que o ilustrador Marco Cena, há
mais de 20 anos no mercado da literatura infantil, concebeu trabalhos
como os da série 1001 Lendas (Ed.Mercado Aberto) e que lhe
renderam o Prêmio Henrique Bertaso de Melhor Ilustrador de
1994 por Cadê a Coruja?, de Sissa Jacoby. Nessa coleção
de contos populares narrados com o mínimo de texto, Cena
empresta aos personagens toques de ingenuidade, esperteza e desprezo
que não estão nem sugeridos na escrita. Acho
que a ilustração não deve trair o texto, mas
tem vida própria, não é só um acessório,
opina.
O trabalho de Marco no livro Tibi e Joca, de Cláudia Bisol,
é uma constatação de que essa vida própria
do desenho é possível. O livro, sobre a trajetória
de um menino surdo e sua situação de isolamento, toca
o coração de qualquer um em páginas e páginas
de ilustrações em que transparecem solidão,
culpa, sofrimento e redenção. Tudo quase sem palavras.
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