A boa literatura ainda pára na porta da escola
Quem percorre livrarias na busca de livros infantis espanta-se com
a quantidade de obras em oferta e com a variedade de temas oferecidos
pelas editoras. Os amantes da boa leitura, que estão aí
por volta dos 40 anos, sentem até uma certa inveja das escolhas
que as crianças de hoje podem fazer e não é
raro pensar no meu tempo era Monteiro Lobato e olhe lá.
Houve uma evolução de mercado e também na qualidade
dos textos produzidos; surgiram novos escritores, novos ilustradores
e as editoras se multiplicaram. Mesmo num Brasil de tantas limitações,
o livro chega hoje à maioria das escolas e ingressa na vida
de crianças que anos atrás sequer pensariam em manusear
uma história com desenhos coloridos, que trouxesse alegria
para existências de extrema pobreza. Portanto, a nossa literatura
infantil evoluiu com certeza absoluta.
Mas será que a abordagem que se faz do livro também
acompanhou esse desenvolvimento? Será que o livro é
visto como deve ser, como uma obra de ficção, narrativa
ou poética, para ser lida de modo subjetivo, sem ser necessariamente
por um professor?
Nossa tradição literária remonta ao século
20, com Lobato, Ruth Rocha e Ziraldo. O surgimento de novos autores
é constante, mas o desaparecimento também. Os livros
de boa qualidade, produzidos para divertir, emocionar e conquistar
as crianças para o mundo das palavras, ainda são minoria
nas bibliotecas escolares, cedendo lugar para obras que se prestam
à pregação de moral, ao enfrentamento de medos,
ao treinamento disso e daquilo. Evoluiu-se na oferta, mas a abordagem
da literatura é ainda muito tradicional, menos preocupada
em desenvolver o gosto pelas letras e mais em trazer regras, lições.
Há espaço no Brasil para o livro de qualidade.
O livro produzido aqui é tão bom quanto o produzido
lá fora, tanto do ponto de vista de conteúdo quanto
da tecnologia. A questão é que a cadeia comercial
de venda do livro está ainda muito ligada às adoções
de escolas e nem chegam às livrarias aquelas obras que as
escolas decidem não adotar, analisa Annete Baldi, diretora
da Editora Projeto.
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