Ano 8 - nº 71
Maio 2003



Luis Fernando Verissimo:
Depois do sucesso da invasão do Iraque pelos Estados Unidos, quem quiser saber o futuro do planeta deve procurar uma série de...



Nei Lisboa:
A guerra no Iraque vai perdendo força no noticiário, embora a suspeita de que o pior esteja por vir com a resistência à ocupação americana e...



Elisa Lucinda:

A noite paira quieta e bela sobre a lagoa
o mar fica atrás da paisagem
como se fosse uma escolha
do mar azul, azul, azul.
Parece que o mar sabe





Clones de papel

Em tempos de polêmica sobre clonagem humana, quando se discute ser ético ou não a criação de um ser humano à imagem e semelhança de outro, a cópia reprográfica, o tal xerox, também tem sido motivo de calorosas discussões. Uma pesquisa divulgada pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos (ABDR) revelou que 32% dos estudantes da cidade de São Paulo não compram livros, substituindo-os por cópias de obras completas, ou de parte delas. São ao todo, só na capital paulista, 226 milhões de páginas copiadas por ano sem o pagamento de direitos autorais, sendo que os alunos da USP, PUC e Fundação Getúlio Vargas lideram o ranking do uso de cópias. Se tomarmos o Brasil como parâmetro, o número de cópias salta para quase 2 bilhões ao ano. Para o mercado editorial o prejuízo é grande: 50 milhões de livros deixam de ser produzidos por ano.

Ana Esteves

e acordo com o presidente da ABDR, José Xavier Cortez, os reflexos da “clonagem” de livros podem ser percebidos em várias frentes. “Para os autores, as cópias são o exemplo do desrespeito aos direitos de sua obra. Naturalmente todo o trabalho precisa ser remunerado e o pesquisador/professor, que se transforma em autor, deve estar obrigatoriamente inserido neste contexto. Ele leva dias, anos, escrevendo, revendo, pensando para produzir um livro. Que estímulo tem esse autor vendo seu trabalho usado ilegalmente e dessa forma tirando uma parte do ganho que lhe é devido?”, questiona.

Conforme Cortez, a indústria editorial também é prejudicada, já que o uso indiscriminado de cópias dificulta a atualização dos livros, trava os lançamentos e provoca a redução da produção editorial voltada para o universitário. “A cópia desestimula o consumo do livro e com isso as editoras diminuem sua receita, impedindo que invistam em atualizações dos livros universitários e lançamentos de novos títulos. Essa reprodução concorre deslealmente com o livro, que, para ser editado, passou por uma longa etapa e teve todo um trabalho executado por profissionais especializados que usaram as mais diversas técnicas de edição, revisão, arte, imagem etc”.

Outro ponto que também gera polêmica, e que muitas vezes serve de justificativa para as cópias, é a questão do preço dos livros. Cortez afirma que, como a maioria dos produtos, os preços são calculados em função do seu custo. “Nenhum editor pode vender um livro a um preço tão baixo que lhe traga prejuízo, nem a um preço tão alto que ninguém compre, pois será a decadência de seu negócio”. Segundo ele, existem duas alternativas para quem não pode comprar um livro. “A instituição de ensino tem o dever de ter uma biblioteca atualizada e com números suficientes de exemplares para atender à demanda de seus alunos. Além disso, a ABDR autoriza que sejam feitas fotocópias de parte dos livros (Lei nº 9.610/98) desde que sejam pagos Direitos Reprográficos. A pesquisa mostra que, se for recolhido o valor de R$ 4,19 por mês e por aluno, autores e editores seriam ressarcidos em seus direitos”, revelou.

Para o diretor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas do IFCH/UFRGS, José Vicente Tavares dos Santos, o pretexto da falta de dinheiro para comprar livros é falso. “Se contarmos na ponta do lápis, o aluno gasta um bom dinheiro com xerox, um material que em cinco anos desaparece, ou é jogado fora pelos alunos. Já vi casos de queimarem xerox no final do semestre ou utilizaram-no como rascunho. O gasto é inútil e no fundo trata-se de uma perda. A cópia tem um pouco dessa idéia de descartável, o oposto da formação, bem característico da sociedade de hoje, da modernidade líquida, em que tudo é transitório, convalescente”.

O presidente da ABDR citou trechos do livro Leitura & Colheita, de Luiza de Maria (Editora Vozes, 2002 pág.160/16) como resposta sobre a forma como os professores podem colaborar para a defesa dos Direitos Autorais. “Nunca como no momento atual se falou tanto em leitura no meio acadêmico(...). De certo modo, isso pode contribuir para que também os professores universitários se preocupem em incorporar a leitura, a prática da leitura, o gosto da leitura entre os alunos do curso de graduação. Com essa prática e esse ‘gosto’ se constrói também um respeito pela autoria, pela criação gráfica editorial, cultiva-se também o prazer da convivência com o objeto livro. Não podemos nos figurar como a geração que mais fala em ‘leitura’ e que mais lê cópias xerox”.


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José Luis Fiori

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