Fragmentação do aprendizado
Mas não são apenas os prejuízos de ordem financeira
ou relativos à produção acadêmica que
preocupam. José Xavier Cortez destaca ainda os reflexos do
ensino através dos xerox no aprendizado dos alunos. Para
os estudantes, fragiliza a formação se comparada à
leitura de clássicos e textos completos. Geralmente o aluno
reproduz partes de um livro, capítulos e ao fazê-lo
ele naturalmente absorve flashes daquilo que o autor desenvolveu
por inteiro em sua obra, prejudicando a apreensão da obra
como um todo, declarou.
Para José Vicente Tavares dos Santos, a utilização
do xerox nas universidades deforma e fragmenta o conhecimento. Se
você não aprende o conhecimento com um processo, você
está deformando a sua informação. O livro é
resultado de um longo processo de descobertas, o qual envolve a
utilização de conceitos vinculados a teorias, utilização
de métodos de investigação e de interpretação,
e, se o aluno não aprende todo o processo, não vai
jamais saber de onde parte o autor, como ele desenvolve o seu argumento,
como ele demonstra seu argumento, como chega às suas interpretações
e finalmente como elabora suas conclusões. O professor
relembra o fato de alunos da pós-graduação
que ficaram surpresos e fascinados com o fato de receberem pela
primeira vez a indicação para a leitura de um livro.
Eles diziam: Puxa, é a primeira vez que eu leio um
livro inteiro!.
Tavares dos Santos destaca ainda a questão da fragmentação
do conhecimento, afirmando que muitos alunos seguem orientações
de professores que também têm o conhecimento fragmentado
de determinada obra. O professor parte do pressuposto falso
de que, para se compreender uma idéia ou um fenômeno,
tem que ler todas as opiniões acerca daquela idéia.
Isso é impossível. Na verdade cabe a ele dar aos alunos
dois ou três livros fundamentais para transmitir o conhecimento
básico e depois, então, é que se pode perceber
as variações. Estão aí nas bibliotecas
para isso. O aluno pode retirar livros, não precisa tirar
xerox, afirma.
O diretor do IFCH vai além e acrescenta que muitos alunos,
e até alguns professores, nem se lembram quem é o
autor de determinado livro. Eu cansei de perguntar aos alunos
quem era o autor e eles responderem: é o xerox.
Cópias em todo o Brasil chegam a
quase dois bilhões
Embora tenha sido divulgada só agora, a pesquisa encomendada
pela Associação Brasileira de Direitos Reprográficos
(ABDR) foi realizada de 17 de setembro a 25 de outubro de 2002,
período em que foram feitas 1.430 entrevistas, com o objetivo
de estimar o volume de cópias de material impresso produzido
por estudantes universitários na cidade de São Paulo.
No trabalho foram consideradas as cópias de capítulos,
partes ou texto integral de livros originais, cópia da cópia
de capítulos, partes ou texto integral de livros, cópia
de todos os materiais contidos nas pastas dos professores e de apostilas
e textos digitados de professores (não contidos nas pastas),
bem como cópia de artigos ou partes de jornal e revistas.
O que mais nos chamou atenção foram os quase
dois bilhões de cópias feitas por ano no Brasil, o
que significa que 25% da produção editorial deixa
de ser comercializada por causa da reprografia, ressaltou
o presidente da ABDR, José Xavier Cortez. Segundo ele, os
resultados também impressionaram pelo número de alunos
que não compraram livro no ano, chegando a 32%. Dos
alunos, 28% compram entre 1 e 4 exemplares e 26% de 5 a 10. Outro
dado preocupante é que quase 70% dos alunos consultados são
filhos de pais com alta escolaridade: 55% têm curso superior
e 13% fizeram pós-graduação, destacou
Cortez.
No que diz respeito ao hábito de tirar cópias, 99%
dos entrevistados revelaram copiar, imprimir ou receber cópia
dos professores, sendo que 90% guarda o material copiado após
o ano letivo. Entre os materiais copiados que lideram a preferência
dos alunos estão as pastas dos professores (84%), seguidas
pelas apostilas ou textos digitados pelos professores (41%) e pela
cópia de livros originais (41%), cópia da cópia
de livros (24%), revistas (12%) e jornais (6%). As entrevistas revelaram
ainda que 19% dos alunos copiam o livro na sua integralidade. A
área das humanas é líder em cópias,
com 63%, seguida pelas exatas, com 23% e biomédicas, com
14%. Os alunos do curso de Letras e Pedagogia são os que
mais procuram o serviço de xerox (16%), seguidos pelos de
Administração e Marketing (14%), Medicina, Odontologia
e Biologia (14%), Psicologia (12%) e Física, Química
e Matemática (12%).
Os dados quanto ao número de livros lidos pelos estudantes
durante o ano revelam que 33% lêem de 5 a 10 obras, 29% de
11 a 20, 15%, de 21 a 40, e 12%, de 1 a 4 livros. Entre as formas
de acesso aos livros, 68% pegam livros na biblioteca, 63% tiram
cópias, 29% pegam emprestado com amigos e 6% acessam pela
Internet.
Mais Educação:
Clones
de papel